Quarta-feira, 15 de Julho de 2009
(De novo) segundo o acordo
Em tempos que já lá vão, decidi passar a escrever a Lâmpada segundo as regras do acordo ortográfico. Fi-lo para dar o exemplo, mostrando que o que muda, vistas bem as coisas, é quase nada. Mas entretanto a minha vida profissional tornou-se cada vez mais ligada ao uso escrito da língua portuguesa e, para evitar usá-la duma forma esquizofrénica, com umas regras aqui e outras nos livros que traduzo, abandonei o uso do português do acordo até ao momento em que me passassem a pedir as traduções feitas segundo essas regras.
Esse momento é agora. E por isso, a partir de hoje, a Lâmpada volta a ser escrita segundo as novas regras ortográficas da língua portuguesa.
Etiquetas: lâmpada mágica, línguas
Sábado, 11 de Julho de 2009
Semana
Esta semana foi... hm... estranha.
Começou com três dias de violenta constipação, que veio de braço dado com toda aquela palhaçada do fim de semana, e seguiu-se uma quantidade de outros estímulos daqueles que parecem postos de propósito à frente dos nossos olhos para nos pôr a pensar. O
artigo do Luís Filipe Silva e as
fotos da I Grande Guerra. Uma
crónica (ou será post? Web log?) de Saramago em que ele discorre de forma para mim inesperada sobre o que é escrever e o que é traduzir. Uma coisa que se afirma, num artigo do Público sobre os resultados dos exames do secundário, por uma docente não identificada: os estudantes, diz ela, têm em comum "pouca riqueza de vocabulário" e "grande dificuldade em interpretar, decifrar, sentidos implícitos". E várias outras coisas. Não sei bem se foi uma semana particularmente rica em estímulos, se estive invulgarmente atento aos que surgiram. O que é certo é que foi uma semana passada com o cérebro a 200, sempre pronto a desatar a correr em todas direcções assim que surgisse uma oportunidade para isso. Houve dois resultados dessas correrias,
este e
este, mas ainda haverá pelo menos mais um. Resultados
produtivos.
Mas também houve resultados
improdutivos. Tanta reflexão (e a palhaçada do fim de semana também, naturalmente) gasta tempo e concentração, que não podem ser usados a ler ou a trabalhar no Bibliowiki. Como consequência, as leituras laborais avançaram mas bastante menos do que poderiam: o livro está mais ou menos meio lido, já sei onde vai ser dividido, e desta vez até haverá um final razoável para a primeira parte. Como consequência, o wiki esteve rigorosamente parado. E também como consequência, voltei a não terminar nenhuma leitura de lazer. É a vida.
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Terça-feira, 7 de Julho de 2009
And now for something completely different
Já vimos como o twitter pode ser mal utilizado, e os blogues podem servir para dar voz ao que de mais rasca existe na natureza de certos homens, mas para que a lição fique completa vejamos um exemplo do contrário. Começa com um tuito da
@canochinha_: "1.ª Guerra Mundial a cores", seguido dum link para
este fotoblogue, e mais especificamente para
este post.
Não sei qual a origem da cor naquelas fotografias. Podem ser mesmo fotografias a cores, visto que a tecnologia já existe desde a segunda metade do século XIX, mas também podem ser velhas fotos monocromáticas "pintadas" com um qualquer programa moderno de edição de imagem. Ou talvez haja ali uma mistura das duas técnicas. Não sei.
Mas sei que a soma da cor a uma tragédia (ou estupidez) que estamos acostumados a ver a preto e branco lhe dá uma dimensão inesperada.
Aquelas fotos impressionaram-me.
Impressionou-me, antes de mais, o facto de serem retratos dum mundo despovoado. Mesmo quando mostram situações aparentemente quotidianas, ou quando reproduzem grupos razoavelmente numerosos de pessoas, há neles uma sensação de distância e silêncio. Talvez quem viva no campo reconheça essa sensação, mas para nós, os urbanitas que somos quase todos, rodeados de ruídos, movimento e gente vinte e quatro horas sobre vinte e quatro, é algo que se vai tornando cada vez mais profundamente alienígena. Uma Terra esvaziada de gente por um cataclismo qualquer seria muito semelhante àquilo, e não conheço ninguém que tenha descrito essa sensação melhor do que Ballard, nas suas histórias pós-apocalípticas. Acho que foi só agora que compreendi
mesmo de onde lhe vem essa qualidade. A guerra que ele experimentou foi outra, e noutras geografias, em princípio muito mais densamente povoadas do que o norte de França ou a Bélgica, pois deverão ser estes os lugares mais representados nas fotografias. Mas é provável que tenha passado pessoalmente por algo de muito parecido.
E impressionou-me o verde. Foi esse o grande impacto que aquelas fotos tiveram em mim. O verde, em imagens que costumo imaginar cinzentas ou, por influência dos campos de batalha mais recentes, de um amarelo esbatido, torna-se insólito. Como que lhes reduz o impacto ao mesmo tempo que o aumenta. Como que diz que independentemente do que os homens façam uns aos outros, movidos por ambição descontrolada ou estupidez igualmente fora de controlo, a vida continua. É quase certo que a maior parte daquelas fotos tenha sido tirada ao som do chilrear das aves.
Por fim, também me impressionou o contraste. Hoje, não há fotorreportagem dos teatros de guerra que não foque a atenção no sangue, no fogo, em cadáveres desmembrados. Ali, só se vêem ruínas, apesar dessa guerra ter terminado com mais de oito milhões de mortes directas e bastante mais de 50 milhões de mortes causadas pela fome e por doenças que a guerra ajudou a tornar mais mortíferas. Não sei se foi escolha propositada de quem faz o blogue — não faltam imagens de mortos na primeira guerra mundial, embora eu não conheça nenhuma que seja a cores — mas se foi, parabéns. Faz com que as de hoje pareçam piores, embora na verdade não o sejam, e acentua a impressão de que nada aprendemos com a história, bem pelo contrário.
É o que acontece a quem é demasiado arrogante para reconhecer os erros que comete. Está condenado a repetir uma e outra vez as mesmíssimas cretinices.
Portugal, globalmente considerado, é assim. E se calhar o mundo também.
Etiquetas: blogosfera, fotografia
Ao Seixas
E em inglês, para compreenderes bem.
Get a life.
Etiquetas: idiotas
Segunda-feira, 6 de Julho de 2009
Os meninos crescidos
Quando os meninos que ainda não são crescidos fazem asneiras, e estas chegam ao conhecimento dos pais, costumam defender-se apontando para o irmão e dizendo "foi ele". Julgam assim evitar o açoite ou o ir para a cama mais cedo, ou no mínimo obterem companheiro para a desgraça. Às vezes, esta estratégia resulta, e quando os meninos crescem nunca deixam de fazer isso, como bem temos visto, por exemplo, no caso BCP. Ficam assim uns meninos pequeninos em corpo de grande, e continuam a amuar e a dizer "foi ele", ainda que com mais sisudez e gravatas.
Mas há meninos que crescem mesmo. E parte desse crescimento revela-se na capacidade de assumir as asneiras que fazem.
Ao longo do último fim de semana fiz várias.
A primeira, maior e fundamental porque foi a que deu origem às outras foi não ter em nenhum momento parado para pensar "espera lá, rapaz, tu estás doente, com febre, dói-te o corpo, a cabeça e a garganta, sentes-te mal e estás irritável, não achas que devias deixar isto para mais tarde?" Se o tivesse feito, o mais certo seria não reagir quando o Seixas
pôs no blogue que "o Jorge Candeias [se dedica] em exclusivo à tradução", como se o Bibliowiki e todo o trabalho que dá não existissem, como se não houvessem aqui mesmo neste blogue, todas as semanas, pequenas opiniões sobre aquilo que vou lendo, em boa parte literatura fantástica, como se não estivesse envolvido no
Odisseias Fantásticas. O mais certo teria sido ignorar mais esta pequena provocação como mais uma. Afinal, até quando ele
atacou directamente a credibilidade do Bibliowiki só reagi depois de haver insistência, e isso foi muito mais sério do que esta insidiazinha insignificante de há dias.
Mas não. Cometi primeiro a asneira de lhe dar troco e depois a de lhe dar troco duma forma contaminada pelo modo como eu próprio vejo a questão da propalada ausência de público para a FC. De facto, relendo o que ele escreveu agora que já me passou a febre tenho de admitir que "
Eu acho espantoso que o Seixas se queixe da ausência de edição de FC em Portugal. Dir-se-ia que ele não tem uma editora..." (o conteúdo do meu tuíto) tem mais a ver com a minha opinião de que se a FC vende pouco é porque as nossas editoras ainda não encontraram forma de chegar aos leitores que andam por aí do que com o que ele realmente escreveu. Eu de facto penso que proclamar a inexistência de público é uma forma fácil de evitar ter o trabalho de o encontrar ou de tentar ocultar o falhanço na estratégia que se segue, quando existe alguma. E essa opinião contaminou de tal forma o modo como li o texto dele que, somando-se à irritação pela provocaçãozinha, e a uma irritação antiga com a Livros de Areia por ter feito aquele que é, de longe, o seu pior trabalho de edição com o único livro de FC que editou (é preciso ter olhos de águia para conseguir ler-se o livro), me levou a algum enviesamento no alvo do tuito. Neste ponto, e apenas neste ponto, o Seixas tem razão.
Seja como for, não me parece que haja alguma justificação para a tempestade que se seguiu, para a chuva de provocações e insultos, cada um mais insidioso do que o outro, e aí o meu maior erro foi ter continuado a alimentá-la, e tê-lo feito durante algum tempo no twitter, com mensagens que nos seus 140 caracteres nunca chegaram nem perto de conseguir transmitir por completo a minha opinião. A questão do amador/profissional, por exemplo, nasceu num tuíto em que eu me interrogava sobre qual era o objectivo da editora porque "ganhar dinheiro não seria", querendo com isto referir-me a dinheiro suficiente para que os editores se tornassem (lá está) profissionais, ou seja, vivessem primordialmente dessa actividade. Ao primeiro estrondo do trovão, devia ter transferido a conversa para o blogue onde tenho todo o espaço do mundo para explicar as minhas ideias até ao fim. Ou antes, devia ter esperado até ficar em condições, com a cabeça livre de febre, dores e comprimidos, para sustentar uma discussão complicada, cheia de veneno desde o princípio, que só piorou quando o Seixas publicou esta coisa inqualificável, seguida por isto, igualmente inqualificável não tanto pelo desmascarar da desonestidade do Seixas, que assumo por completo e nenhum remorso me causa, mas pela forma completamente bronca como o fiz. Como disse nesse mesmo post, o que não deixa de encerrar uma triste ironia, é precisamente este tipo de merdas (não têm outro nome) que descredibiliza o género e os seus actores, e eu também ganhei para mim um lugarzinho na tal câmara de vácuo.
Prefiro é que seja numa diferente da que o Seixas ocupa, se não se importam. Só por causa cá duns quinhentos...
Etiquetas: blogosfera, fc e f, incompetências
Eis um artigo com que não concordo
Num contraste evidente com acontecimentos recentes e outras personagens (eu próprio incluído, sem dúvida), há quem tenha gasto o tempo a escrever
o melhor artigo sobre a FC que eu li desde há muito tempo. E nem sequer concordo com ele.
Oh, não há dúvida de que a FC americana é dominante a nível mundial. Isso não tem discussão. Mas não me parece que os motivos sejam
exactamente os que o Luís aponta. Há outros. A força de Hollywood, principalmente, que impôs no mundo todo uma forma de contar histórias na qual a FC americana se insere, tornando-nos, cá fora, mais receptivos a ela. Mais eficaz do que as outras num dado momento, sem dúvida. Mas melhor? Aí já tenho dúvidas.
E a história das pilhas é gira, mas sofre duma injustiça básica: todos nós consumimos FC norte-americana desde pequenos, porque, com raras excepções (raríssimas se excluirmos os autores britânicos), era essa a FC que se traduzia e traduz, foi essa a FC que formou o gosto de muita gente, foi entre essa FC que foram encontrados os primeiros autores preferidos. Em contraste, da polaca temos apenas o Lem. Da russa os Strugatsky. Da francesa, Verne e pouco mais. E das outras, nada.
Sem conhecer não podemos escolher. Se não temos acesso às coisas não podemos saber se são melhores ou piores do que aquelas a que temos acesso. E é precisamente por isso que eu escolheria a pilha do resto do mundo: a americana já conheço e levo-a comigo na cabeça. Que arda. Previro salvar os mundos de todos os outros. Os mundos que ainda não conheço.
Etiquetas: blogosfera, fc e f
Domingo, 5 de Julho de 2009
E dura, e dura...
E continua a novela dos profissionais vs. amadores, no twitter e agora também aqui nas caixas de comentários, até trazendo à baila definições (parciais, claro) de dicionário. OK, seja. Por uma última vez voltemos ao assunto. E vejamos o que diz um dicionário decente sobre o que é um profissional: o Houaiss.
Como geralmente acontece na língua portuguesa, a palavra profissional tem vários significados, e até é aplicada em duas funções gramaticais. Aqui estão todos os que o Houaiss lista:
adj 2g1. Relativo a profissão
2. Próprio de uma determinada profissão
3. Responsável e aplicado no cumprimento dos seus deveres de ofício
4.
joc. Que dá carácter de profissão a um modo de ser, seja por praticá-lo sistematicamente, seja por auferir lucros dele.
adj 2g s 2g5. Que ou aquele que exerce por profissão determinada actividade.
No texto em causa,
este, interessava-me separar as editoras que são obrigadas a vergar-se aos ditames do mercado porque se não o fizessem não seriam capazes de prover ao sustento dos editores e funcionários daquelas que nem por isso, porque os seus editores mantém outras actividades. O post é absolutamente cristalino quanto ao que entendo por profissional neste contexto (corresponde ao significado 5), mas certas pessoas preferiram partir do princípio de que era o 3, e vá de insulto para baixo.
O que é realmente patético é eu praticamente ter dito nesse mesmo post que achava que editores não profissionais (semi-pro ou amadores) têm mais liberdade para editar
bem. Citando:
Como consequência, estas editoras são bem mais livres no que toca ao que editam e ao modo como editam, embora o reverso da medalha seja estarem geralmente em franca desvantagem no momento de negociar direitos. Mas tirando este detalhe, têm muito mais possibilidade de fazer uma edição de gosto, de prazer, do que as profissionais. E têm muito mais liberdade para editarem precisamente o quê e como lhes apetecer.
Isto porque são mais ágeis e estão menos agrilhoadas ao que vende ou não vende, logo não precisam de seguir modas, fazer edição baseada em fama, editar muito e depressa, etc. Se não querem perder dinheiro, podem espaçar edições e esperar que a última se pague antes de se meterem na próxima. Precisamente porque os editores não dependem unicamente do resultado financeiro da editora para manter o pão na mesa. E era só isto. Mas há quem não saiba ler bem o que se escreve, o que não deixa de ser tremendamente irónico se tivermos em conta o meio em causa.
Etiquetas: incompetências, irritações
E eis que o João Seixas desce às catacumbas do asco
Com
isto caíram todas as máscaras que ainda pudessem existir. Nunca vi ninguém descer tão baixo, nunca vi tamanho arraial de deturpações, mentiras, insultos, e a mais vil das baixarias. O João Seixas revelou-se com absoluta clareza como aquilo que sempre foi.
Ainda bem. Quando o sol brilha sobre as coisas feias deste mundo, os homens sabem finalmente com o que contam.
Ainda pensei se valeria a pena meter as mãos em tal lodo, porque se há coisa certa quando se metem as mãos no lodo é ficar-se com elas sujas. Mas a coisa é demasiado grave para ficar sem resposta. Portanto, mola no nariz, e vamos lá mostrar quem aqui fala verdade e quem mente.
Escreve o Seixas:
É que quer o Jorge, quer o Nuno, parecem pensar que estamos ainda nos primórdios da FC Portuguesa. O Jorge, por exemplo, acredita que a FC Portuguesa nasceu com ele, em 2000, e que desde essa data o devia orbitar, fascinada pela sua capacidade de luminosa condução do género na agreste travessia dos vários desertos que tem enfrentado.
Se o Seixas acha que o Jorge e o Nuno pensam isso, lá com o Seixas. Nada de novo. Mas o exemplo sobre as "crenças do Jorge" chega a ser divertido quando se tem em vista que naquilo que eu realmente escrevi é referida uma quantidade de colecções que já estavam todas mortas ou moribundas em 2000. A honestidade resplandece.
O que o Nuno pensa ele o dirá, se quiser, mas o que eu penso é que se foram cometendo variadíssimos erros ao longo da história da edição de FC em Portugal, erros esses que foram afastando público, que, no entanto, continua a estar lá à espera de quem o saiba ir encontrar. Nenhuma semelhança, como qualquer pessoa com olhos na cara poderá ver, com a bojarda do Seixas. E sim, Seixas, editar colecções antes do seu tempo é um sinal de incompetência, é sinal de que o editor não está sintonizado com o seu público, e que portanto é um mau editor, seja ou não membro de alguma cáfila (de camelos?), seja ou não sinistro. A Contacto é por isso mesmo um excelente exemplo do tipo de erros que afastou os leitores. Posts como este do Seixas são outro exemplo, igualmente excelente na vertente asquerosa da coisa. São precisamente estas coisas que enterram a FC portuguesa. E a culpa dos erros é de quem os comete, certamente não do público leitor.
Mais. Escreve o Seixas:
No meio da sua diatribe, meio contrafeito, ele lá acaba por dar razão àquilo que eu aqui escrevi: o principal problema, assumido ou não, que assola a presente situação da FC Portuguesa é o público leitor. Isso transparece quando afirma, referindo-se aos Editores nacionais, que “nunca lhes entrou na cabeça que públicos leitores diferentes tomam opções diferentes de leitura, e tentaram impingir aquilo que achavam o supra-sumo da modernidade ou dos clássicos, importando padrões alheios que, como deveria ser evidente para qualquer um, não funcionam necessariamente por cá (…)”. Ou seja, o nosso público leitor, pelo menos de há 45 anos para cá (embora pudéssemos alargar isso à data da criação da Colecção Argonauta) não tem padrões de cultura que lhe permitam apreender e apreciar, nem as obras clássicas da FC, nem as mais recentes evoluções do género. Ou, porque o Jorge espalha esta sua asserção indiscriminadamente pelos anos 1980s, 1990s e 2000s, seria de perguntar quando perderam os leitores esses padrões? Ou mesmo, se alguma vez os chegaram a ter?
Admire-se o grau de deturpação que aqui está patente. Eu escrevo que editores incompetentes são incapazes de se aperceber de que públicos
diferentes têm necessariamente opções
diferentes quando chega a hora de preferir leituras, e que portanto é erro crasso tentar simplesmente macaquear padrões alheios como bom macaquinho de imitação. Aqui o nosso impoluto amigo diz que eu digo que o público português
não tem padrões de cultura. Eu falo em padrões
diferentes, o tipo diz que falo em
ausência de padrões. Palavras para quê? É um artista português, e se calhar até lava os dentes.
E depois tem o desplante de pedir consultadoria grátis. Paguem-me, e eu explico. Se bem que de certos tipos nem a transferência do Cronaldo chegaria, até porque o mais certo seria o cheque vir sem cobertura. E porque de nada valeria. Há gente que é incapaz de acolher uma ideia nova na caixa craniana.
Depois, vem isto:
Certamente, uma editora gerida pelo Jorge Candeias seria um motor imparável na criação de um público leitor de FC em Portugal. Aliás, a actividade do Jorge Candeias nesse campo está cheia de sucessos e bons exemplos. Ele conhece perfeitamente o público leitor, e escreve especificamente para ele. Infelizmente, os seus trabalhos foram recusados por TODAS as editoras nacionais a que foram submetidos; o seu romance on-line, gratuito, teve um afluxo de leitores digno de um best-seller, alcançando quase… duzentos! Tudo isto, observe-se, são dados objectivos e frios, independentes de qualquer consideração sobre o mérito dos trabalhos do Jorge (que, como todos nós, é capaz tanto do melhor como do pior). Mas que impõe mais uma vez a questão: culpa dos Editores que não compreendem o Público Leitor? Culpa do Público Leitor que não compreende o Jorge? Culpa do Jorge que não compreende nada?
É verdade, os meus trabalhos foram recusados por todas as editoras nacionais a que foram submetidos. A contagem completa é a seguinte:
O Por Vós lhe Mandarei Embaixadores foi submetido a
uma editora: a Presença. E... hm...
é só. Além dessa, houve uma única submissão (que não é bem submissão, é mais um sondar de interesse sobre trabalhos que ainda precisariam de ser trabalhados) cuja resposta ainda não chegou. E rejeitei um convite para publicar um livro de contos por achar que não tinha na altura nenhum conjunto suficientemente coerente. Isto quanto a trabalhos grandes, claro. Em contos e afins tive um rejeitado pela Ficções, e sei que estou aí em óptima companhia. E é só, porque as outras antologias foram todas organizadas por convite e não por submissão, e como toda a gente sabe no convite entra-se mais no território da clique do que de qualquer outra coisa. Os dois convites que tive rejeitei-os a ambos, embora por razões diferentes. O livro que publiquei não foi propriamente submetido à edição (foi a concurso), portanto se calhar não conta. E as publicações pagas que tenho lá fora não estão em Portugal. Voltando ao
Por vós..., os dados da edição electrónica estão desactualizados. Neste momento, segundo o Google Analytics, o número de visitantes já soma 277. Fizeram 420 visitas e viram quase 700 páginas.
E é esta a verdade, pura e inadulterada por seixices.
Agora vamos à mentira. A mentira é dizer-se que eu "escrevo especificamente para [o público leitor]". Nunca na vida escrevi para o público leitor, e menos ainda quando escrevi o
Por vós... Este foi escrito para me divertir
a mim, como, aliás, está claramente dito
aqui, onde também quem souber ler nas entrelinhas verá que não o considero propriamente o supra-sumo da minha produção literária. Se o Seixas não fosse o exemplo de honestidade que é... mas que digo eu? Se o Seixas não fosse o exemplo de honestidade que é, o inferno estaria coberto por um glaciar. Há hipóteses demasiado absurdas para sequer perder tempo com elas.
Quanto ao resto, sim, tenho feito pela vida. Nos últimos três anos passaram-me pelas mãos quase cinco mil páginas, que me esforcei por traduzir o melhor possível e respeitando escrupulosamente os prazos, e estou a contar só os livros já publicados. Há mais dois por aí a rebentar - mais umas 800 páginas, mais ou menos. Garanto que foi mais fruto dos timings da editora do que de opções próprias - eu teria preferido um ritmo mais brando, especialmente no ano passado. E construí quase sozinho um site bibliográfico com 16500 entradas. Não é nada, diz o tipinho. E depois acaba dizendo uma coisa óbvia:
Quem reclama a falta de publicação de ficção curta nacional, deve divulgá-la e criticá-la (e, já agora, comprá-la) quando esta é publicada.
Isto pretendendo subentender que não é o meu caso, claro. Ora, como sabe qualquer pessoa que tenha lido ainda que um punhado dos tais posts semanais, se há coisa que neles falo é dos contos que vou lendo. Lamento só ter começado a fazê-los depois de ter lido tanto a
Sombra Sobre Lisboa, como as
Ficções Científicas e Fantásticas, como os
Contos de Terror do Homem-Peixe. É pena. Teria tido todo o gosto em esfregá-los na cara do Seixas, até porque felizmente bits não se sujam. Mas o que não falta ali é apreciações a contos e livros nacionais. Quem tiver dúvidas vá
lê-los.
Mais palavras para quê? É este tipo que acusa os outros de má-fé. É este exemplo de honradez que acusa os outros de desonestidade.
Nota: post editado para remover o pior dos insultos. Foi estúpido publicar este post de cabeça quente. Os insultos fizeram-me descer ainda mais baixo do que o tipo. Não que não ache que os mereça, e a mais alguns, mas há coisas que fazem perder a razão onde ela existe e esta é uma delas. Por mais razão que eu tenha, ela ficou diminuída com a atitude à carroceiro. Depois de respirar fundo, lamento-a.Etiquetas: fandom, fc e f, idiotas, irritações
O bom é que nem tudo é mau
A parte boa disto tudo é que nem tudo é mau. E
aqui está uma opinião que subscrevo quase por completo, embora tenha menos confiança do que o Nuno Fonseca no poder da promoção. O marketing só funciona até certo ponto, a partir do qual ou se gera o bate-boca, ou a coisa morre. Não é só por causa do marketing que as "vampiragens" se andam a vender tão bem: é porque há uma camada de leitores (ou, melhor dito, de leitor
as) que gosta mesmo daquilo, e que recomenda os livros uns aos outros.
Dispensável só mesmo aquela referência às "ruas da amargura em termos de qualidade" da produção nacional, porque não é verdade. Como sempre aconteceu e sempre acontecerá, há o bom e há o mau. E ainda bem que assim é.
Etiquetas: fc e f
Há por aí quem precise duns sais de frutos
Hoje acordei, e deparei com o twitter cheio de mais um chorrilho de insultos vindos de um editor amador que está aparentemente com necessidade de meter no nariz uns saizinhos de frutos para ver se se acalma.
Deitando fora o lixo, que foi muito, e francamente rasca, deixem-me responder a um par de questões com alguma validade. Mas antes, acho que é preciso reiterar uma coisa que, pelos vistos, não ficou suficientemente clara no que escrevi ontem:
Profissional é quem vive do seu trabalho. Nem mais, nem menos do que isso. Não é quem o faz bem (Há maus profissionais, e também há bons amadores. E maus. E péssimos.) Não é quem o faz mediaticamente. Não é quem o faz prestigiosamente. É quem vive dele.
E depois de deitar fora o lixo, fica uma pergunta válida: um escritor que publica pela Lulu é amador ou profissional?
Vamos por partes.
A Lulu é evidentemente uma empresa profissional, em que se misturam as vertentes editora com gráfica. Lida profissionalmente com os clientes e com as queixas que eles têm, o que começa com o mínimo dos mínimos que é não os insultar. E produz livros bem feitos, no contexto da tecnologia utilizada, e consoante aquilo que os clientes lhe fornecem como matéria prima.
Com a Lulu (e com outras empresas de print-on-demand) trabalham empresas e indivíduos. Algumas dessas empresas e indivíduos vivem desse trabalho, embora a esmagadora maioria não o faça. Ou seja, a esmagadora maioria de quem publica pela Lulu não é profissional. Uns serão semi-pro, mas a esmagadora maioria nem isso. São amadores. Mas há profissionais lá metidos no meio.
E é tão simples como isto. Nada a ver com qualidade; tudo a ver com origem do rendimento. Entenda quem tiver capacidade para tal.
Etiquetas: edição, incompetências, irritações
Candidatos a quê?
E já que hoje a febre me deu para pôr cartas na mesa, eis mais uma.
Será pedir muito que se acabe de vez com a fraude política que é a conversa dos "candidatos a primeiro-ministro" nas eleições legislativas? Esta conversa dos candidatos a primeiro-ministro foi criada por algum acessor de marketing político do PS ou do PSD, com o objectivo óbvio de menorizar os outros partidos, e quase toda a gente engoliu isco, anzol e linha, passando a papaguear a inventona como bom cãozinho de Pavlov.
Tal coisa, meus caros, não existe. Ninguém é candidato a primeiro-ministro, porque nós não elegemos primeiros-ministros e governos: elegemos deputados ao parlamento. Há pessoas que são candidatas a deputados e apenas isso, e é do equilíbrio de forças no parlamento que sai o governo. O sistema é esse, e nenhum outro. O povo elege os deputados, o presidente da república convida alguém para formar governo, e o programa do governo é aprovado, ou não, pela assembleia da república. Nem o PR é obrigado a convidar o líder do partido vencedor das eleições a formar governo, nem esse governo inclui necessariamente o partido mais votado. Querem um exemplo? Então eu exemplifico.
Imaginem que numas eleições nenhum partido alcança a maioria absoluta. Se alcançar, não há dúvida: quem esse partido escolher será primeiro-ministro, porque qualquer outra opção verá certamente o programa de governo chumbado pela maioria. E o partido maioritário certamente escolherá o líder. Mas imaginem que não há maioria absoluta. As coisas ficam logo mais interessantes.
Nesse caso, a obrigatoriedade é arranjar um governo cujo programa passe no parlamento. Isso implica o voto favorável, ou pelo menos a abstenção, de mais do que um partido, haja ou não uma coligação formal.
Agora imaginem que o PS era realmente um partido de esquerda. É difícil, bem sei, mas façam um esforço a bem do argumento. Já está? Óptimo.
Imaginem agora que o PSD ganhava as eleições. Com 32% dos deputados (não necessariamente dos votos). Imaginem que o PP ficava com 5% dos deputados. Imaginem que o PS ficava com 31% dos deputados, o BE com 16%, a CDU com 15% e que havia mais uns deputados de outros partidos para arredondar as contas, um do MRPP, ou assim, outro do partido da Laurinda, etc. Numa situação destas, PS+BE+CDU teriam 62% dos deputados. Uma maioria clara. Se o PS fosse realmente de esquerda, podiam conversar e decidir coligar-se para formar um governo de esquerda. Imaginem que isso acontecia. Numa situação destas, é evidente que não será o partido mais votado a formar governo, mas sim uma coligação do segundo com o terceiro e o quarto.
Ah, mas nesse caso o primeiro-ministro será o Sócrates, dirão vocês.
Errado. O primeiro-ministro será quem os parceiros de coligação decidirem que seja, e isso é algo que sai do processo de negociação. Imaginem que BE e CDU só aceitam integrar a coligação com outra pessoa à frente do governo e que o PS aceita e sugere, por exemplo, a Helena Roseta, sugestão que é aceite pelos outros. Informam o Cavaco da decisão, e o Cavaco, todo roído por dentro, convida-a. Nesse caso, é a Helena Roseta a ocupar o lugar de PM. Mesmo se nem sequer for deputada.
Tudo no nosso sistema depende da relação de forças no parlamento, e
apenas da relação de forças no parlamento. Portanto da próxima vez que alguém vos vier falar de "candidatos a primeiro-ministro", mandem-no bugiar. É alguém que está convencido de que são ignorantes e procura tirar vantagem dessa ignorância. Nunca se esqueçam disto.
Etiquetas: política
Sábado, 4 de Julho de 2009
A quem interessar possa
Gosto do twitter. É, ou pode ser se bem utilizada, uma ferramenta poderosa para fazer uma série de coisas, mas há algumas para as quais é manifestamente desadequado. E dificilmente poderia ser mais desadequado para discussões complexas.
Hoje meti-me numa. Partiu duma consideração que me parece perfeitamente óbvia: se um editor se queixa de não se editar o tipo de literatura xis, o que tem a fazer é ao menos
tentar editá-la. Decentemente, se for capaz.
Esta constatação óbvia gerou uma série de reacções por parte de gente ligada ao editor em causa, levantando uma porção de lebres que serviram basicamente para desviar as atenções. Não podendo atacar a consideração, precisamente por ser evidente, atacou-se uma porção de outras coisas, incluindo a pessoa do constatador. Enfim. É o triste hábito.
Mas como as lebres foram muitas, e continuaram a insistir nelas, aqui vai o que eu penso a seu respeito.
Para mim, uma editora profissional é uma editora cujos editores são profissionais. Ou seja, é uma editora cujos editores obtêm da editora rendimento suficiente para se sustentarem. Uma editora cujos editores, mesmo que façam trabalhos por fora, não
precisem de os fazer.
Pelo menos os editores. Já não falo de empregados e de outros profissionais que lhes prestem serviços.
Editoras que não cumpram este requisito
não são editoras profissionais. Podem ser semi-profissionais ou amadoras, mas profissionais com toda a certeza que não são.
Há diferenças significativas entre uma editora que é profissional e outra que não o é, e a principal dessas diferenças é que uma editora profissional é obrigada, por uma questão de sobrevivência económica, a gerir muito bem o seu catálogo por forma a gerar um rendimento suficiente para continuar a pôr o pão na mesa dos seus trabalhadores e colaboradores.
Este objectivo pode ser atingido de várias formas. Pode apostar-se em grandes sucessos de vendas, independentemente da respectiva qualidade. Um único grande sucesso de vendas pode manter uma editora em funcionamento durante meses a fio, mesmo que nada faça a não ser preparar o próximo (e gerir as chatices com distribuidores, gráficas, e todas as outras coisas que se desenrolam nos bastidores). Outra forma é apostar em livros que lucrem apenas o suficiente para manter a máquina em funcionamento, o que implica um ritmo de edição acelerado, pois se cada livro lucrar pouco é preciso mantê-los a sair com regularidade para manter os profissionais alimentados, vestidos e, quando a coisa corre bem, com uma conta bancária não completamente depauperada.
É assim que funcionam as nossas editoras profissionais, e é por isso que tanta gente se queixa das prateleiras das livrarias estarem cheias de lixo.
Eu, Carolinas, livros pretensamente escritos por vedetas de TV ou com presença assídua na TV e coisas que tais. É lixo, mas é lixo lucrativo, e capaz de pôr o pão na mesa dos profissionais. Estes editam o lixo precisamente
porque são profissionais, e muitas vezes profissionais competentes. Goste-se ou não, a realidade é esta.
Uma editora que não é profissional funciona de forma bem diferente. Tanto as semi-profissionais como as amadoras aspiram no máximo a obter um rendimento modesto, que é complementado pelas outras actividades dos respectivos editores. Algumas podem mesmo dar-se ao luxo de perder sistematicamente dinheiro, desde que as outras actividades do(s) editor(es) lhe(s) dêem essa liberdade.
Como consequência, estas editoras são bem mais livres no que toca ao que editam e ao modo como editam, embora o reverso da medalha seja estarem geralmente em franca desvantagem no momento de negociar direitos. Mas tirando este detalhe, têm muito mais possibilidade de fazer uma edição de gosto, de prazer, do que as profissionais. E têm muito mais liberdade para editarem precisamente o quê e como lhes apetecer. Liberdade essa que é sagrada. Cada um que edite o que muito bem entender e como muito bem entender. Agora que não venha é depois, armado em Calimero, de ovo na cabeça, choramingar que não se edita aquilo que
ele próprio não edita.
Entretanto, enquanto eu escrevia isto, o Seixas, no seu jeito troca-tintas e insultuoso do costume,
deu um ar de sua falta de graça. Já que o fez, e já que o fez da maneira como fez, além de revelar que o tal editor que calimera porque não se edita o que ele não edita é precisamente o Seixas, acrescento o seguinte:
A edição de FC em Portugal tem sido, toda ela, baseada numa táctica simples: atiram-se livros cá para fora, geralmente muito mal traduzidos, não raro muitíssimo mal editados (com um texto que só com lupa se consegue ler, ou com páginas que começam a saltar assim que se abre o livro, etc.), sem qualquer tipo de promoção e reza-se para que o povo goste. A FC que se tem editado, quase exclusivamente estrangeira, é de dois tipos: a barata (autores obscuros e fraquinhos ou obras obscuras de bons autores) e a que o editor acha aposta segura (autores que já antes se editaram por cá, e com sucesso — motivo que leva a termos montes de material editado dum par de mãos-cheias de autores já bem entrados nos anos, e nada da generalidade dos mais novos.
(Um parêntesis para dizer que no que toca à ausência de divulgação, existe uma excepção. O romance
Ar, de Geoff Ryman, que a Gailivro promoveu intensamente, com uma campanha de ofertas que provavelmente acabou por ser contraproducente quando chegou a hora de tentar vendê-lo — motivo pelo qual eu não aproveitei a oferta e preferi comprá-lo... mas suspeito de ter sido um entre poucos.)
As colecções de FC mais bem sucedidas e longevas que tivemos em Portugal seguiram um destes caminhos, ou ambos. A única excepção foi a colecção da Caminho, que sobreviveu durante década e meia com uma aposta na diversificação na origem geográfica e cultural dos autores, fugindo ao sufoco de autores anglo-saxónicos que sempre dominou as outras colecções (a Argonauta teve autores franceses, mas isso acabou nos anos 60) e em autores lusófonos, que têm a grande vantagem de não custarem direitos astronómicos nem precisarem de tradutores a que há que pagar, mesmo que mal.
Além disso, sempre reinou a incompetência. Algumas das pessoas que julgam que sabem alguma coisa de FC tentaram seguir parcialmente por outros caminhos, sempre com resultados desastrosos, porque nunca perderam cinco minutos que fosse a ponderar se aquilo seria, ou não, adequado ao público português. Nunca lhes entrou na cabeça que públicos leitores diferentes tomam opções diferentes de leitura, e tentaram impingir aquilo que achavam o supra-sumo da modernidade ou dos clássicos, importando padrões alheios que, como deveria ser evidente para qualquer um, não funcionam necessariamente por cá, e saltando apressadamente para a conclusão de que se aquilo que eles acham que devia vender não vende só pode ser porque não existe público para a FC.
Alguns exemplos foram a colecção Limites, da Clássica (que nem sequer foi distribuída para o país todo) ou a Contacto, da Gradiva, cujo único verdadeiro êxito foi um livro publicado à revelia do organizador da colecção. Esta última, que de facto tem livros muito bons e de autores suficientemente conhecidos do público para poder ter sido um êxito, falhou na parte física da edição e provavelmente no
timing: numa época em que o público de FC estava acostumado às edições baratas dos livros de bolso, tentar impôr uma colecção de livros caríssimos de capa dura só podia ser suicídio. Como veio a ser. Se fosse hoje, a história teria provavelmente sido outra.
Culpa do público ignaro? Ou pura e simples incompetência? Eu voto, de caras, na segunda hipótese.
Para mim, é bastante evidente que existe um vasto público potencial para a FC em Portugal. Prova-o a quantidade de gente que consome ocasional ou regularmente ficção científica, ainda que muitos o façam através de outros media que não os livros e/ou em inglês, porque a imagem que o livro de FC em português tem é de ser pessimamente traduzido e caro. Muitas vezes merecida, há que admiti-lo.
De modo que pessoas que sejam sérias na tentativa de transformar esse público potencial em público real, e que tenham algum grau de competência, têm de partir
desta base, e não de outra qualquer, sabendo à partida que o processo é necessariamente demorado. Têm de adaptar as suas estratégias à situação existente, fazendo as apostas correctas. A todos os níveis. Não me surpreende que muitos tenham medo sequer de tentar: não é um caminho fácil. É algo que só poderá ser feito por uma editora profissional respaldada por um grande sucesso, ou vários, ou por uma editora não-profissional com gente inteligente ao leme, gente com tempo para pensar bem na estratégia a seguir. Porque
é preciso ter uma estretégia. Não basta querer e desistir à primeira dificuldade, e muito menos cair na choraminguice antes mesmo de se tentar.
E também é preciso ter estômago para aguentar os grãos ou verdadeiros calhaus que põe à primeira oportunidade na engrenagem quem diz ter interesse na evolução do género em Portugal mas na verdade faz todos os possíveis para destruir qualquer hipótese da FC singrar por cá, decretando a "ausência" de um mercado que ninguém procurou como deve ser criar, procurando desmoralizar quem produz, esforçando-se por diminuir as publicações que, apesar de tudo, existem, ou até, na verdade, toda e qualquer iniciativa que outros levem a cabo, etc., etc., etc. Os verdadeiros assassinos da FC em Portugal são estes, é esta gente que seria de toda a conveniência abrir a câmara de vácuo com eles lá dentro e deitar borda fora.
E se fosse só o Seixas, estaríamos nós bem.
Etiquetas: fandom, fc e f
Semana
Isto hoje é muito curto.
Como dei um salto a Lisboa, para, entre outras coisas, regressar à base com uma violenta carraspana (mas descanse quem esteve comigo: da saúde 24 dizem-me que não tenho sintomas da
tal gripe. A febre é baixa demais e falta-me uma porção de outros sintomas), aquilo que costumo fazer todas as semanas reduziu-se consideravelmente.
Na actividade que dá dinheiro, estou a ler o próximo livro e já está um quarto lido.
O wiki subiu mais 41 páginas, e tem agora 16 521.
E, com as leituras laborais e a viagem, não houve nenhuma leitura de lazer concluída.
Que a semana que vem seja mais produtiva é o que se deseja.
Etiquetas: intimidades, semanas
Domingo, 28 de Junho de 2009
Semana
Desta vez ao domingo, que ontem não me apetecia escrever nem uma linha (acontece, e quando acontece não fale a pena forçar, desde que se possa não o fazer), eis a semana que passou numa penada. Ou em duas ou três.
Trabalho? Acabou. O livro está traduzido, revisto e enviado ao editor, alguns dias antes do prazo terminado. Segue-se, claro, o próximo. 757 páginas de texto miudinho, denso e quase sem margens, que irão ser divididas em dois volumes, cada um, imagino, mais perto das 400 do que das 350.
Ah, sim, e
claro que há versejos. Nem podia deixar de haver. O que vale é que é só um. Comprido, mas só um.
O wiki esteve amodorrado. Não passaram de 16 as páginas que se estrearam na última semana, aumentando o total para 16 480.
E quanto a leituras, acabei dois livros e li mais umas coisas.
Com
O Povo Branco, terminei
O Grande Deus Pã, de Arthur Machen. O conto é capaz de ter sido aquele que mais me agradou de entre os quatro que compõem o livro. Consta de um longo texto "escrito" por uma rapariga adolescente, rodeado por um prólogo e um epílogo que situam o leitor no que toca a quem e o quê é a rapariga. Particularmente bem sucedido é o modo como Machen altera o estilo para dar "voz" à rapariga, e o próprio texto desta é muito interessante, funcionando quase como
pot-pourri de contos maravilhosos do folclore britânico, cheio de magia e criaturas fantásticas da floresta. Mesmo muito bom. E é um óptimo fecho para um livro de que acabei por gostar, apesar de por vezes me ter aborrecido bastante, em especial no primeiro conto.
E com
Planeta que Nada tem Para Dar, de Olga Larionova, terminei
Poção de Marte, antologia de FC&F soviética. O texto de Larionova é uma noveleta de ficção científica que acompanha a exploração de um planeta que vamos aos poucos reconhecendo no espaço, ainda que não no tempo, por parte de uma espécie alienígena metamórfica e totalitária. Apesar da história ter aspectos interessantes, em particular se tivermos em conta o contexto em que foi escrita, não me agradou lá muito. O mesmo posso dizer da antologia como um todo: nem o romance que lhe empresta o título, nem os contos que o acompanham, são propriamente maus. Mas tampouco são bons, antes reúnem aspectos interessantes e falhas num todo que acaba por ser mediano.
Além destes dois livros, li também
Curse of the Immortal's Husband, poema de Bruce Boston que não me pareceu lá muito bem conseguido, e dei um bom avanço num romance bastante grosso que já me acompanha há algum tempo.
E é só isto. Para a semana há mais.
Etiquetas: leituras, semanas
Sábado, 27 de Junho de 2009
Respondam lá a isto

Eu? Nem morto.
Adenda: Quem quiser reutilizar esta photoshoppada, está à vontade.
Segunda adenda: Em resposta a algumas ideias erradas que me chegaram ao conhecimento, atenção que a isto só é fotoshoppada no fundo, sombra e letras. A fotografia é genuína. Tirei-lhe algum excesso de grão, nada mais.
Etiquetas: política
Sábado, 20 de Junho de 2009
Semana
E pronto, lá se passou mais uma semaninha, entre descanso, um artigo complicado e comprido e (algum) desbaste no email acumulado. E calor, montes de calor, e de mudanças malucas de temperatura também, daquelas que deixam um tipo derreado, sem vontade de fazer nada.
Em todo o caso, sempre se foi fazendo qualquer coisinha, por exemplo, no wiki, que cresceu mais 62 páginas. Tem agora 16 466.
E leu-se também umas coisas, claro. E até se acabou uma delas: o número 324 da revista Asimov's. Não a acabei lendo algo de que valha a pena falar aqui — críticas a livros saídos nos States há uns anos —, mas o número em si é típico da Asimov's: uma ou duas coisas muito boas, mais uma ou duas boas e o resto, quase tudo, suficientemente interessante para fazer com que a revista valha muito a leitura. Pessoalmente, destaco
The War on Treemon, de Nancy Kress, e
The Ice, de Steven Popkes, como os melhores textos e
Etiquette With Your Robot Wife, de Bruce Boston, como o mais divertido.
Noutras leituras, li
Cultos da Carga da Ilha do Beijo Picante, de Rhys Hughes, uma excelente prosa metaliterária composta por uma autêntica cebola de histórias metidas dentro umas das outras e em tensão mútua, com uma revolta do leitor lá metida no meio. Achei muitíssimo curiosa a semelhança que esta história de Hughes tem com
O Deus das Gaivotas, que escrevi com o meu pai e está publicada na colectânea
Por Universos Nunca Dantes Navegados. Hughes faz rebelar-se o leitor enquanto nós sofremos a revolta da personagem, e também vai mais longe do que nós na exploração do absurdo da ideia, mas há mesmo assim muitos pontos de contacto entre as duas histórias. Mal posso esperar que o meu pai leia isto para ver o que diz.
Também li
O Sinistro, de Carlos Patati, um misto de ficção científica e horror, com umas ideias bem interessantes, em especial a ideia principal: tatuagens que funcionam como uma espécie de rede neuronal artificial e complementar ao cérebro biológico, e que põem os tatuados em contacto com os monstros lovecraftianos. Mas apesar da ideia interessante, não gostei particularmente da sua concretização, que muito teria sido ajudada por uma revisão atenta ao texto. Há partes incompreensíveis, onde parecem faltar palavras, há erros ortográficos e gralhas, há trechos onde o estilo perde solidez, enfim... é pena.
Também li
São Asas, crónica de Saramago sobre uma estátua de Camões, que achei muito esquecível. A crónica, não a estátua.
E li
Encontro Nocturno, de Bradbury, outro conto que mistura a ficção científica e o horror, no qual um terrestre, recém-instalado no morto planeta Marte, se encontra com o fantasma de um marciano vindo de um passado em que a sua civilização se mostrava viva e pujante. Ou talvez fosse o marciano a encontrar-se com o fantasma do terrestre vindo do futuro. De uma forma ou de outra, uma coisa é certa: o conto é muitíssimo bom.
O Final do Verão é a outra história de Bradbury que li esta semana. Outra boa história, esta é praticamente
mainstream, embora contenha um certo ambiente fantasmagórico, e conta uma escapadela sexual duma jovem geralmente muito composta e aprumada.
Si Tan Solo, de Gerardo Horacio Porcayo, é um poema em prosa sobre o sonho. Não me agradou por aí além.
Por fim, e também em estrangeiro, li
The Convert, de Simon Ings, uma noveleta escrita numa linguagem muito rica em metáforas, sobre um homem que recebe como implante um sentido artificial que o informa sobre o fluxo do dinheiro e para isso se associa a um milionário com uma saúde mental algo débil. O mais curioso desta história é passar-se quase toda no Brasil, e por isso aparecerem coisas em português no texto inglês, mas que eu ache isso o mais curioso já mostra que não gostei lá muito do que li. Não gostei da caracterização das personagens, por exemplo, e como isso é boa parte do conto...
E pronto. Para a semana haverá mais.
Etiquetas: leituras, semanas
Quinta-feira, 18 de Junho de 2009
Questões de grande velocidade (QGV)
Toda esta confusão de politiquices à volta do TGV fez-me lembrar uma crónica que publiquei em Junho de 2001, há precisamente oito anos, no jornal onde trabalhava. Fui relê-la. Se não fosse pelos algarvios se terem entretanto calado com o TGV, podia escrevê-la hoje.
Não sabem do que estou a falar, pois não? Podia mandar-vos comprar
Os Pés e a Cabeça, mas vocês mandavam-me bugiar, e com razão. De modo que aqui a têm. Digam lá se eu não sou um compincha.
Tudo a Grande Velocidade (TGV)
Não, TGV não significa "tudo a grande velocidade". É uma sigla francesa que vem de "train de grande vitesse", ou seja, "comboio de grande velocidade", ou seja, CGV.
Parece que a coisa atinge um bué (palavra que consta do novo dicionário da língua portuguesa, portanto não me batam) de quilómetros por hora e que se houvesse disso no Algarve nos poria em Lisboa num par de horas, o que é sem dúvida um contraste interessante com as 4 ou 5 que as sacolejadeiras da CP levam actualmente a carregar-nos até ao barco trans-Tejo.
Viva o CGV, então?
Bem, parece que é caro. Há quem diga mesmo que é bué de caro. E parece que por ser assim tão caro só cá chega daqui a uns 20 anos, mais coisa menos coisa, se chegar a chegar cá.
Há umas semanas, vimos os autarcas e empresários algarvios em coro a exigir o CGV, menos os do PSD, que esses nunca fazem coro com os do PS, por uma questão de princípio. Acho bem. É bom manter os princípios.
Mas sabem o que vai acontecer?
Se chegar a ser aprovado o plano que traz o CGV para o Algarve daqui a 20 anos, mais ano menos ano, nem um tostão furado será entretanto investido na melhoria da linha de CPV (Comboio de Pequena Velocidade). Ou seja, ficaremos atolados durante mais vinte anos (mais ano menos ano) no mesmíssimo atoleiro ferroviário em que estamos agora, com um serviço de qualidade fraquinha, lento, sacolejante, incómodo, obsoleto e, feitas as contas a todos os defeitos, caro.
Será que vale a pena?
Não será melhor que se modernize a linha actual, se lhe ponha duas vias, se actualize o material circulante para que entre Faro e Portimão se passe a poder viajar em uma hora e se consiga chegar a Lisboa em 3, e tudo isso já, em vez de ficar mais vinte anos à espera duma miragem de grande velocidade (MGV) que pode ir por água abaixo à primeira contrariedade orçamental?
Como naquele programa chatíssimo da televisão de aqui há anos, você decide.
Etiquetas: humor, política
Domingo, 14 de Junho de 2009
Semana
Ontem esqueci-me de semanar, no afã de acabar a tradução, semano hoje.
Não que haja muito a dizer da semana que passou. Foi, como é hábito em mim sempre que um trabalho está com o fim próximo, dedicada quase em exclusivo a dar-lhe esse mesmo fim. Não que tenha terminado por completo, claro, ainda falta a revisão. Mas por qualquer motivo encaro sempre a revisão como um sucedâneo do trabalho verdadeiro. Um sucedâneo importante, sem dúvida, mas sucedâneo mesmo assim.
O wiki cresceu um bocadinho, mas continua bastante parado. Tem agora mais 20 páginas do que há uma semana, e mais 16 404 do que no momento em que nasceu.
E nem as leituras foram abundantes. Antes pelo contrário.
Li
A Luz Mais Interior, noveleta de horror de Arthur Machen, de que não gostei tanto como da
Novela da Chancela Negra. É mais uma história de investigação sobrenatural, uma daquelas histórias que tipicamente parecem inspiradas pelo velho adágio sobre a curiosidade ter morto o gato. Neste caso não mata, propriamente, mas apenas porque o protagonista recua no último momento depois de ser avisado por uma personagem secundária que
não recuou. Está bem escrita, sem dúvida, e bem delineada, mas não me prendeu.
E li
Afinador de Pianos, conto de fantasia de Victor Kolupaev que gira em volta de um afinador de pianos muito especial. Magicamente muito especial. O conto leva-o a percorrer uma série de apartamentos afinando os pianos consoante as características das famílias que os possuem e das pessoas que, nessas famílias, mais usam os instrumentos. É um bom conto, apesar de ser bastante capaz de irritar solenemente os leitores que odeiam histórias humanistas.
E foi isto que li esta semana. Até à próxima.
Etiquetas: leituras, semanas
Segunda-feira, 8 de Junho de 2009
O Bloco e o Algarve
Há algumas coisas na política portuguesa que me causam perplexidade. Bem, minto, há montes de coisas na política portuguesa que me causam perplexidade (e a portuguesa, mesmo assim, é melhor do que outras que há por este mundo fora). Geralmente é uma perplexidade má, do estilo "mas como é que isto é possível, neste mundo e nesta época?!" Mas nalguns casos é uma perplexidade boa. Coisas que não compreendo, mas que me agradam mesmo sem compreender.
Uma dessas coisas é a força que o Bloco de Esquerda tem no Algarve.
O Bloco não tem estruturas locais particularmente visíveis, nenhum dos seus dirigentes de maior relevo é oriundo da região, não há no Algarve nenhum dos factores que costumam associar-se ao Bloco, e, no entanto, olhando para o país todo, vê-se que é no Algarve que o Bloco obtém maior percentagem, praticamente 15%. Só o distrito de Setúbal lhe chega perto, também acima dos 14%. No meu concelho, Portimão, chega mesmo aos 17%, e na freguesia de Portimão, isto é, na cidade propriamente dita, aproxima-se dos 17,5%.
O que é que explica isto? Não faço a mínima ideia. Ou por outra, tenho umas ideias vagas com as quais tenho especulado ao longo dos anos. Já
aqui tinha falado delas. Mas, embora Portimão continue a ser dos sítios em que o Bloco tem mais força, este fenómeno bloquista no Algarve estendeu-se agora a todo o litoral. À grande cidade de 300 mil habitantes (dois milhões e meio quando o Verão corre bem aos hoteleiros), com 5 km de largura e 100 km de extensão que é o litoral algarvio nos dias que correm.
Se calhar é isso que explica o Bloco no Algarve. Mas olhem que era coisa que, se eu fosse sociólogo, muito me interessaria estudar.
Já agora, e num aparte, se nas eleições legislativas os resultados do Algarve fossem estes, teríamos uma distribuição de deputados muito interessante:
PSD: 27.39%, 3 deputados
PS: 24.98%, 3 deputados
BE: 14.95%, 1 deputado
CDU: 10.35%, 1 deputado
E de em vez de 8 fossem 9, o partido seguinte a eleger alguém seria o CDS. Giro, não é?
Etiquetas: algarve, política, portimão
Resultados
Bem, então os resultados parece que foram mais ou menos assim:
Partido Popular Europeu: 10 deputados;
Partido Socialista Europeu: 7 deputados;
Esquerda Unida Europeia: 5 deputados.
Ou então, vistos de outra forma, foram assim:
Esquerda (PS, BE, CDU, MRPP, PH, POUS): 49.80%
Direita (PSD, PP, PPM, PNR): 40.82%
Voto de protesto (brancos e nulos): 6.63%
Pequeninos que não se sabe muito bem se são esquerda ou direita (MEP, MPT, MMS): 2.76%
Ou então, vistos ainda de outra forma, foram assim:
Centrão (PS, PSD, MEP, MPT, MMS, PH): 61.51%
Esquerda (BE, CDU, MRPP, POUS): 22.74%
Direita (PP, PPM, PNR): 9.13%
Voto de protesto: 6.63%
Ou vistos ainda de uma última forma, foram assim:
Pessoas que se estão nas tintas: 62.95%
Pessoas que se interessam o suficiente pelo país para arrancar o traseiro do sofá: 37.05%.
Bem, OK, não resisto. Só mais uma:
Votos expressos por pessoas: 99.63%
Votos expressos por cavalgaduras xenófobas: 0.37%
Etiquetas: política
Sábado, 6 de Junho de 2009
Semana
Olá a todos, caros nãoseiquantos leitores, aqui o mordomo dos sábados dá-vos as boas vindas a mais um. Isto hoje vai ser rápido, que tenho de ir ali. Onde? Ali.
O livro está cada vez mais quase traduzido. Faltam agora 54 páginas para o fim. Na próxima nota semanal deverei dizer que "o livro está traduzido". Ou então que "o livro acaba-se hoje". Não sei, e mesmo se soubesse não vos diria; afinal há que manter algum suspense nestas coisas.
O wiki, depois de duas semanas parado, mexeu finalmente um tudo-nada. 4 páginas novas, acrescentadas ontem. Não faço prognósticos para a semana; tanto pode voltar ao crescimento rápido como continuar na modorra dos últimos tempos. É com ele.
E agora as leituras.
Uma das coisas que li esta semana foi mais um conto totalmente surreal de Rhys Hughes,
Horizonte Eterno, no qual um tal Luís Rodrigues (de onde é que eu conheço este nome? Hm...), navegador, depois de ser lançado borda fora do seu veleiro por piratas, entra numa tórrida relação amorosa com uma deusa e percorre meio mundo em surreais peripécias, entre as quais se destaca o problemático aparecimento de um segundo horizonte, mais próximo de nós do que o original. Divertido, mas de novo senti falta de um fio condutor mais firme para gostar realmente desta história.
Noutra versão da língua portuguesa li
Toda Forma de Amor, de Carlos Orsi, um conto de ficção científica com toques de horror sobre uma mulher que tem um encontro poético com uma misteriosa personagem que responde pela alcunha de Grafo. Cheio de ideias sofisticadas sobre matemática, computação e literatura, é um conto explanatório clássico, que até tem uma versão modernizada do cientista louco da velha FC do início do século XX. É um esforço competente e bem desenvolvido, mas confesso que não gostei muito, provavelmente porque põe a ideia à frente de tudo o mais.
Voltando à minha versão do português, li
As Palavras, de Saramago, uma crónica que se debruça sobre as palavras (óbvio) e a comunicação em tempos de ditadura. Também não gostei por aí além.
A coisa mais curta que li esta semana foi
Os Gafanhotos, de Bradbury, mais um dos tais contos que têm mais importância para o livro do que valor como textos independentes.
E mudando finalmente de língua encontra-se a jóia da semana.
The Ice, novela de Steven Popkes, conta a história dum clone clandestino duma lenda do hóquei sobre o gelo. É uma história excelente sobre a identidade e as relações interpessoais, sobre aquilo que somos e até que ponto isso é determinado pelos genes que herdamos ou pelas escolhas que fazemos ao longo da vida. Muito bom.
E pronto, post feito, resta ir ver se não houve alguma gralha a enfiar-se nele à má-fila, etiquetá-lo e clicar em "publicar mensagem".
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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
Olha, olha, cortaram nas taxas
Como diria o outro, porreiro, pá!
Recebi hoje uma mensagenzinha a informar que as taxas suplementares de que falava
neste post foram anuladas. Fui ver, e é verdade: os livros estão, na Amazon, ao mesmo preço a que estão na Lulu. O
Os Pés e a Cabeça está a $13.49 (€10.72), o
Por Universos Nunca Dantes Navegados está a $25.11 (€19.96).
O segundo vale a pena. O primeiro nem por isso.
Etiquetas: edição, fc e f
Sábado, 30 de Maio de 2009
Semana
E o tempo lá continua a minguar, os dias a fundir-se uns nos outros num
continuum uniforme, e as semanas passam com a velocidade dum TGV, agora vem aí, e num instante
vuuuch, já lá vai.
No livro restam 102 páginas. Duas semanas e picos, ou talvez simplesmente duas semanas, dependendo do estado da cabeça e do efeito que trouxerem os remates da nossa amiga Robin. O desta semana trouxe um poema. O último. Ficou porreiro, parece-me.
O wiki não tugiu nem buliu. Passou uma semana de férias. Às vezes tem de ser.
E no que toca a leituras, também não foram propriamente abundantes.
Li
O Reflexo do Espelho, conto de Ray Bradbury com uma atmosfera vagamente mágica sobre as relações de dominância e submissão entre duas gémeas de meia idade. Este é mesmo muito bom.
E li
A Novela da Chancela Negra, de Arthur Machen, novela que descreve as investigações de um cientista inglês, o qual descobre um artefacto com estranhas inscrições que lhe vai abrir as portas para algo de tenebroso, tudo contado por uma jovem arrolada por ele para lhe servir de testemunha. Gostei francamente mais do que de
O Grande Deus Pã, apesar da estrutura desta história ser mais tradicional. Ressoou melhor cá dentro e manteve-me atento, em vez de me dar sono.
Li também
Inspiração, de Victor Kolupaev, um conto fantástico sobre um operário que em tempos idos pintou e passadas décadas regressa ao seu antigo passatempo. Mas quando o quadro é exposto, todos os que o observam vêem coisas diferentes. É interessante, embora não seja memorável.
E li
Tudo para Nada, conto surrealista de Rhys Hughes que parte do extravio de um pequeno cão e vai por aí fora com a textura dos sonhos mais desconexos, saltitando de tema em tema com a agilidade dum filme do Daffy Duck, embora sem nenhum do seu frenesim. Interessante, mas falta-lhe um fio condutor mais firme para me agradar mesmo a sério. O onirismo também pode ser excessivo.
E, resumidamente, foi isto. Agora com licença, que tenho aqui umas páginas a chamar por mim.
Etiquetas: leituras, semanas
Quarta-feira, 27 de Maio de 2009
Books for sale at Amazon!

Um tweet do
Luís Filipe Silva chamou-me a atenção para uma novidade interessante: A antologia
Por Universos Nunca Dantes Navegados, que organizámos juntos e ele editou, está agora à venda na
Amazon. Isto é interessante por vários motivos. Um deles é que, em princípio, o público potencial do livro se alarga bastante, visto que são muito mais as pessoas com conta na Amazon do que na Lulu. Mesmo apesar da taxa suplementar que a Amazon põe em cima do preço do livro. E recordo (ou informo) que esta antologia contém um conto meu e outro escrito a meias por mim e pelo meu pai. Além duma série de outras histórias porreirinhas.
Outro motivo é que se a
PUNDN está na Amazon, talvez também lá esteja outra coisinha que eu cá sei? E uma pequena busca descobre que está, sim senhor.

Refiro-me a
Os Pés e a Cabeça, um livrinho de pouco mais de 160 páginas onde reuni as cónicas que publiquei nos tempos em que ganhei a vida como jornalista no jornal Região Sul. Escuso-me a grandes descrições, uma vez que já o tinha descrito
aqui, e não tenho grande coisa a acrescentar tanto à descrição, como à avaliação nada comercial que aí faço do livro e aos motivos que me levaram a publicá-lo. A página da Amazon é
esta.
(Aliás, descubro agora que a Lulu já me tinha informado de que ia pôr o livro à venda na Amazon. Por email. Mas eu ando
muito arredado do email. Duas mil mensagens por tratar são um repelente bastante eficiente. E por isso vão-se acumulando, e acumulando, e acumulando... vou ter de fazer algo a este respeito e depressa.)
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Segunda-feira, 25 de Maio de 2009
Já anda por aí mais um dos meus

Segundo parece, já por aí anda nas livrarias, e em venda no próprio
site, mais um livro cuja versão portuguesa me saiu dos dedos:
O Punhal do Soberano, da Robin Hobb, segundo volume dum conjunto de cinco globalmente intitulado "A Saga do Assassino". No original eram três, mas embora o primeiro tenha um tamanho razoável os outros dois são enormes tijolões à volta das 700 páginas cada (na edição em
mass market paperback com que trabalho), de modo que o total de livros na edição portuguesa subiu a cinco. 700 páginas de letra miudinha, texto denso e quase sem margens. Este é a primeira parte do
Royal Assassin original.
Fantasia épica. E uma fantasia épica que não é pêra doce nenhuma de traduzir. Bem pelo contrário. Este deu-me uma trabalheira dos diabos, e o que se segue continua a dar. Só posso esperar que o resultado seja do agrado de quem compra.
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