sábado, 24 de dezembro de 2005

As tretas que circulam pela internet

Há uns dias, recebi de uma amiga minha um daqueles emails pretensamente informativos que circulam pela internet, de forward em forward, por obra e graça da benevolência dos forwarders. Reproduzo-o aqui em baixo, textualmente:

O diplomata norueguês Charung Gollar, foi incumbido de apresentar, na ONU,
no mês passado, um gráfico mostrando os principais problemas que
preocuparam o mundo no decorrer de 2004...

Apresentou uma série de oito gráficos, entitulada 'O Poder das Estrelas'...

Foi aplaudido de pé!

E seu trabalho foi indicado a concorrer para o prémio Nobel em Marketing
Político...
Vejam os gráficos!"


Os gráficos de que aqui se fala são aquelas imagens de bandeiras que acho que já toda a gente conhece, em que cada cor da bandeira representa a percentagem de qualquer coisa relativa ao país em questão. Fazem parte do pacote, pelo menos, as bandeiras dos EUA, da Somália, do Brasil (sem a lista da "Ordem e Progresso") de Angola e do MPLA (esta, erradamente, no lugar da do Burkina Faso, da qual difere apenas na cor da lista de baixo, preta no MPLA, verde no Burkina), da China, da Colômbia e da União Europeia. Todas elas têm, logo por baixo da legenda onde é explicado o significado de cada cor, o logotipo da Grande Reportagem, o que deveria fazer pensar quem divulga o email. Seria estranho, no mínimo, que um "diplomata norueguês" (e que raio de nome é Charung Gollar?) apresentasse "na ONU" uma "série de oito gráficos" com o logotipo da Grande Reportagem. Também a menção a um fantasmagórico "prémio Nobel em Marketing Político" deveria fazer pensar os apressados do forward. Mas aparentemente não faz.

Sim, o email que recebi é uma patranha de principio ao fim. Os gráficos foram elaborados por uma empresa publicitária portuguesa para promoção da revista Grande Reportagem, pretendendo fazer passar a mensagem de que a revista vai mais fundo na busca de informação e é criativa na sua entrega ao consumidor. De facto, a ideia é extraordinária, e é verdade que a campanha foi premiada lá por fora, mas é tudo produto nacional. Não há nela envolvido nenhum diplomata norueguês nem organização internacional alguma. Mas não deixa de ser curioso (e um pouco triste) que o mentiroso tenha decidido que a história teria mais credibilidade assim, e que as pessoas se predispusessem a reenviá-la umas às outras desta forma, mesmo com as flagrantes inconsistências nela contidas.

É nestas pequenas coisas que se revela a incapacidade de um povo em lidar consigo próprio, especialmente quando isso significa dar crédito aos seus membros que fazem as coisas bem feitas. É nestas pequenas coisas que se revela com mais clareza a forma como este povo se condena a si mesmo à mais absoluta mediocridade.

Nestas pequenas coisas e nos políticos que elege.

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