segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Cá está ele, o segundo

Cá está já o boneco de capa do segundo livro traduzido por mim, aquele que fui apresentar a Lisboa, no Fórum Fantástico, por indisponibilidade de última hora do autor, Harry Turtledove. É um romance quase com 500 páginas que me deu uma trabalheira imensa e uma satisfação enorme quando cheguei ao fim do trabalho pelo simples facto de ter sido capaz de chegar lá.

Explicando-me:

Aceitei o trabalho sem saber bem se seria capaz de o levar a bom termo, consciente de ser um desafio considerável, mas sem saber que seria tão grande como acabou por revelar-se. Aceitei-o porque precisava do trabalho e do respetivo pagamento, depois de uma leitura em diagonal que me deu uma ideia, só parcialmente correta, sobre aquilo que teria de enfrentar. Este é um romance de vulto, cheio de passagens em inglês do século XVI, passagens ou retiradas diretamente das obras do Shakespeare e de outros poetas/dramaturgos do tempo, ou adaptadas a partir dessas mesmas obras. Algumas estão claramente visíveis sob a forma de versos, outras estão dissimuladas no texto, à espreita de olhares atentos. A leitura em diagonal apanhou as primeiras, mas não as segundas. E tampouco apanhou a miríade de trocadilhos e subtilezas de linguagem que enriquecem o romance, detalhes esses que me esforcei por manter ou adaptar para que essa riqueza não se perdesse. É que foi só ao trabalhar este texto que me apercebi de até que ponto poderia ser arruinado por uma má tradução. E ainda por cima, o editor tinha prazos apertados por causa da projetada vinda do Turtledove a Portugal... E ainda por cima, esta era apenas a minha segunda tradução de vulto...

Mas consegui. Em cerca de dois meses tinha a coisa pronta, mesmo subestimando grosseiramente a dificuldade da tarefa (e arrependendo-me várias vezes de a ter aceite ao longo do caminho).

Na verdadeira atividade desportiva radical que foi aquela apresentação no Fórum Fantástico, tanta era a adrenalina que me corria nas veias, fiquei a saber mais algumas coisas. Parece que fui o terceiro tradutor daquele livro, tendo os dois primeiros renunciado ao trabalho, por algum motivo que desconheço (mas imagino). E parece que, segundo o próprio autor e várias outras pessoas que o leram em inglês, este romance em particular é especialmente difícil de traduzir. Foi bom de ouvir. E também foi bom ouvir o editor a elogiar-me o trabalho. Num país de elogio difícil, como o nosso, os que surgem são ainda mais preciosos.

Estou contente com o meu trabalho, e gostei bastante do livro em si. Não os acho perfeitos, nem o trabalho nem o livro, mas ambos me satisfazem. O livro por ser divertido, espantosamente bem pesquisado e sólido, cheio de personagens e cenários palpáveis, e o meu trabalho por me parecer que, mesmo tendo a componente de traição inevitável em todas as traduções, mesmo com uma gralha ou outra, não sofre quase nada com a minha inexperiência e acaba por estar mais ou menos ao nível da de A Cor do Céu, um livro não só muito mais curto, mas também quase infinitamente mais fácil de traduzir. Se esse nível é ou não bom, não me cabe a mim dizer. Leiam-no e digam-me vocês.

(Se clicarem na imagem da capa, ali em cima, poderão vê-la maior - embora sem o nome do autor e mais algum texto que consta da capa verdadeira - e ler aquilo que a editora tem a dizer sobre o livro)

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