quarta-feira, 2 de abril de 2008

Acordo ortográfico - chega de parvoíce, não?

Tenho andado a assistir, entre o impávido, o divertido e o horrorizado, ao monumental manancial de disparate e burrice que esta celeuma sobre o acordo ortográfico desencadeou. Volta e meia, sinto-me tentado a entrar na bagunça, e cinco voltas e um quarto tenho mesmo entrado, quase sempre com textozitos rápidos deixados por aí. Não há tempo para mais, infelizmente. Se houvesse, encheria nas calmas vinte páginas ou mais. Em times new roman, tamanho 12, espaço e meio, como é de praxe. Mas como se vão arranjando 5 minutos de vez em quando para ir deixando por aí umas bocas, já agora deixo de as deixar por aí e passo a deixá-las aqui na Lâmpada, separando muito bem, porque é necessário e não vejo muita gente a fazê-lo, aquilo que é facto daquilo que é opinião.

Começo hoje, com a seguinte opinião:

Meus caros amigos, toda esta discussão é profundamente idiota.

E é idiota por dois motivos. O primeiro, e fundamental, é o facto de que Portugal já ratificou o bendito acordo ortográfico. Fê-lo logo em 1991 e foi, aliás, o único país a fazê-lo dentro dos prazos estipulados. Os outros três países que ratificaram (Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe) só o fizeram mais tarde. Portugal, tal como estes três países, também ratificou o primeiro protocolo modificativo ao acordo, que se limitava a remover os prazos, passando a exigir apenas a ratificação dos países signatários. O que isto significa é que bastará que os países que faltam ratifiquem o acordo e este primeiro protocolo para que Portugal esteja por ele obrigado. Sem ter de fazer nada além do que já fez.

Ou seja: esta discussão é idiota porque é extemporânea. Deveria ter acontecido há quase 20 anos, aquando da ratificação original, não agora.

E é idiota devido à atitude da esmagadora maioria dos opinadores que pipocaram por todo o lado, que não se coíbem de dar opiniões apesar de não terem a mais pequena noção daquilo que o acordo é, de quem assinou ou ratificou e quando, daquilo que muda ou deixa de mudar, etc., etc., etc. Há até quem faça gala de não ter lido o acordo, nem tencionar lê-lo, e ser contra. É-se contra porque "não se está para mudar a forma como se fala" ou porque "não se quer passar a escrever em português do Brasil" ou porque "só o Brasil e Cabo Verde ratificaram e por isso não vale", ou por tantas outras cretinices que têm sido postas em letra de imprensa por este país fora, até por membros destacados da nossa intelligenzia. Da nossa mui deprimente intelligenzia.

Entendamo-nos: há bons motivos para se ser contra o acordo, tal como há bons motivos para se ser a favor. Mas nem uns nem outros dispensam que as pessoas que querem ter e emitir opinião saibam alguma coisa sobre aquilo que opinam. Até porque a informação está aí, disponível, e apesar do acordo estar redigido em gramatiquês não é propriamente física quântica. Quem, apesar disso, insiste em alardear à primeira oportunidade a sua completa ignorância, coloca-se numa posição semelhante à dos criacionistas, que querem discutir biologia sem a mínima noção sobre o funcionamento dos seres vivos ou à daquelas pessoas muito senhoras do seu nariz que não se coíbem de emitir opinião sobre livros (ou géneros literários inteiros) que nunca leram. Estúpido, não? Pois é. Mas tem solução: calem-se por um bocadinho, vão informar-se e depois voltem sabendo finalmente daquilo que falam.

Acabaram-se os 5 minutos de hoje. Continua um destes dias.

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