terça-feira, 8 de abril de 2008

Acordo ortográfico - Tipo, a cena evolui, tás a ver?

Olá. Como os mais atentos ou astutos terão já entendido, voltei a ter cinco minutos de liberdade com a cabeça razoavelmente funcional, e consequentemente aqui estou a falar-vos do malfadado acordo ortográfico. Mas antes, permitam-me que chame um homem tantas vezes desconsiderado, tão escarnecido, mas que às vezes se faz tão necessário. Apresento-vos Jacques II de Chabannes, aristocrata francês do século XVI mais conhecido por Monsieur de La Palisse. Jacques, voici mes lecteurs.

Apresentados que estão um aos outros e vice-versa, vamos ao que interessa.

A lapalissada da noite é: epá, tipo, a cena evolui, tás a ver? A cena, tipo, a língua, topas? Iá.

Dito isto de outra forma, pode parecer uma evidência tão grande que dispensa ser expressa, mas a verdade é que as línguas evoluem, que o digam os velhos imperialistas romanos que se se apanhassem um dia a tentar decifrar a algaraviada que falam estes seus longínquos descendentes se veriam decididamente em palpos de aranha e protestariam exuberantemente, como era seu timbre, não sei bem é em que declinação.

Porque é que vale a pena dizer isto? Ora, elementar, meus caros: porque a esmagadora maioria das pessoas que têm participado da discussão sobre o acordo ortográfico parece partir do princípio de que uma língua é uma coisa estática e imóvel. Não é, e isto não é opinião: é facto. Hoje não se fala como há 50 anos, há 50 anos não se falava como há 100 anos, e assim sucessivamente.

Mas que tem isto a ver com o acordo ortográfico?

Nada.

E tudo.

Mais alguns factos: a ortografia é uma forma altamente abstracta de colocar em símbolos gráficos a linguagem oral, que já de si é uma coisa bastante abstracta. É porque a linguagem é abstracta que os significados das palavras mudam com o tempo e/ou que as mesmas noções vão sendo expressas por associações diferentes de sons. E quando se passa do oral para o escrito, é colocada uma nova camada de abstracção sobre a abstracção pré-existente. Porque é que o símbolo "a", em português, corresponde ao naipe de sons que conhecemos? Por nenhum motivo além de alguém ter determinado que assim seria. Uma sucessão de alguéns, mais propriamente, que vai do longínquo e anónimo inventor do alfabeto até quem fez a última reforma ortográfica antes desta (que não tocou no valor do a, já agora; tal como esta não tocará). O símbolo, em si, não tem nenhum significado intrínseco: tem apenas o significado que nós lhe damos, por pura convenção.

Ora bem, se a língua oral evolui e se a ortografia é uma convenção que serve para exprimir essa língua oral, será que a ortografia evolui quando a oralidade evolui?

Pode evoluir e pode não evoluir, depende. Mas isso vai ter de ficar para outro dia, que os meus cinco minutos já chegaram e já partiram. Até lá, rapazes. Jacques, a bientôt. On aura encore besoin de toi, j'en suis sûr.

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