sábado, 15 de novembro de 2008

Semana

Isto de arranjar maneiras originais para começar estas notas rotineiras sobre a semana que passou começa a tornar-se um desafio tão grande que qualquer dia dou por mim a falar do desafio que é arranjar maneiras originais para começ... ops. Tarde demais.

Bem, indo directamente ao que interessa, trabalhou-se. Terminou-se a revisão, fez-se um ficheiro com nomes geográficos, mandou-se tudo à editora, combinou-se algumas coisas para o futuro, e escolheu-se o extracto do próximo livro, que será entregue, provavelmente, na segunda-feira. E de trabalho é tudo.

No wiki, a semana não terá sido propriamente um prodígio de actividade, mas sempre mexeu um bocadinho, acabando com 68 páginas novas (e também uma série de correcções e acrescentos; nem tudo o que se faz no wiki é acrescentar material novo), o que sobe o total para 14 544.

E também se leu umas coisas.

Leu-se, por exemplo, O Homicídio, de Orlando Neves, um pequeno conto fantástico e irónico que se lê bem mas não é nada do outro mundo. Com este conto conclui-se a colectânea A Condecoração, que contém alguns contos muito bons e é em geral uma boa leitura, apesar de fraquejar um pouco para o final (o que, em meu entender, é sintoma de deficiente organização dos contos; o impacto de um livro de contos também depende da forma como começa e acaba). Mas está decididamente aprovado. Também se leu A Lenda do Motoqueiro Sem Cabeça, de Martha Argel, um conto de fantasmas contado por um taxista. É um conto bem concebido e competentemente escrito, mas prejudicado por se tornar previsível cedo demais (e, nisso, o facto de ser uma espécie de actualização de uma lenda antiga não ajuda). Com ele terminei o pequeno nº 6 do fanzine FicZine, e devo dizer que gostei dos dois contos que ele contém, em especial do primeiro.

Em estrangeiro, li The Sleeping Woman, de Robert Reed, um conto absolutamente maravilhoso, na fronteira entre o mainstream e o fantástico, que conta a história de um homem que um dia chega a casa do trabalho e encontra a mulher morta. Magnificamente escrito e estruturado, este conto (uma noveleta, na verdade) foi o melhor naco de prosa que li desde há muito tempo. Também li Footnote from the Official Guide to Time Travel, um pequeno poema de Robert Frazier que, em contraste, me deixou completamente "meh".

De volta ao português do Brasil, li Derby, de Marcello Simão Branco, um conto de FC no qual dois dos últimos fãs de bola que resistem num Brasil futuro assistem a um jogo e vão-no comentando por entre longos infodumps sobre como se foi dando a decadência da coisa. Muito mauzinho, infelizmente, tanto em termos de escrita como de estrutura. Igualmente mauzinho é Tesouros da Humanidade, de Octávio dos Santos, este escrito no nosso português. Trata-se de uma prédica, com uma situação cheia de detalhes aos quais não há suspensão da descrença que resista, e que ainda por cima se transforma de reunião de um tal Comité Central Cultural Mundial (que soa tão mal!) em conferência de imprensa sem que o autor pareça aperceber-se do facto ou importar-se com ele. A ideia? O CCCM estaria encarregue de determinar quais dos tesouros culturais da humanidade deviam ser encerrados numa espécie de arca de Noé para obviar à sua destruição... o que, noutras mãos, até podia dar um conto interessante. Não é o caso.

Mas a pior coisa que li esta semana foi O Sonho Mineral, de Nathalie Ch. Henneberg, um daqueles contos cheios de tralha new age que infestaram a FC numa certa época. Este comete a proeza de incluir um menu quase completo: pirâmides, cristais vivos e com poderes, os maias (subtilmente) as esculturas da Ilha de Páscoa, enfim, a família toda. A premissa básica é que Mercúrio explode sem motivo aparente, e pedras vivas provenientes de lá caem na Terra e subjugam a humanidade, facto que vai ser investigado por um viajante no tempo vindo do ano 2700. Para estragar o que já era mau, o conto é comprido (é uma noveleta) e está pessimamente traduzido. Brr! E ainda há quem fale mal da FC portuguesa actual.

E foi só isto. E não foi pouco, methinks.

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