sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Lido: Ar

Ar, de Geoff Ryman (bib.), é um romance feito de encruzilhadas. Para começar desenrola-se num país fictício, o Karzistão, localizado algures na Ásia Central, naquela região por onde, no mundo não fictício, passou em tempos a Rota da Seda e onde se encontram a China, o Paquistão, o Afeganistão, o Cazaquistão e mais alguns países saídos do colapso da União Soviética. No mundo fictício de Ar, cruzam-se aí três povos: os chineses, os karzistani e os eloi, minoria étnica que procura reafirmar-se e sair da alçada dos seus vizinhos mais poderosos. Cruzam-se aí também religiões, pois essa é a zona de encontro do Islão com os budismos e outras religiões orientais, embora este aspeto tenha pouca relevância para a história.

Mas a encruzilhada mais importante é a encruzilhada entre o passado e o futuro. O cenário de quase toda a história é uma aldeia, perdida nas montanhas, cujos habitantes praticam quase todos uma agricultura de subsistência e vivem na pobreza e ignorância do mundo que esse facto sugere. E é sobre essa aldeia antiga que vem cair subitamente o futuro sob a forma de Ar, uma espécie de internet universal, transmitida diretamente para o cérebro das pessoas. Primeiro, é realizada uma experiência, um teste, e é durante esse teste que algo corre terrivelmente mal: uma velhota morre de choque e a sua personalidade, ou parte dela, acaba alojada na cabeça da heroína do romance, uma mulher interessada no mundo, mas principalmente na moda que o mundo lhe traz, chamada Chung Mae. Em resultado do acidente, Mae obtém uma quantidade de informações que não são disponibilizadas às outras pessoas da aldeia, e vai caber-lhe a tarefa de arrancar os vizinhos ao passado, preparando-os o melhor possível para um futuro que acabará por chegar, quer eles queiram quer não.

O romance vai repescar alguns temas típicos do ciberpunk: a computação omnipresente e a manipulação de sistemas informáticos, claro, mas também a Ásia, suas culturas e povos. Mas tem uma estrutura muito pouco ciberpunk, antes aproximando-se do romance mainstream na descrição da complexa teia de alianças e inimizades da aldeola onde Mae vive, na elaboração da personagem de Mae, que é muito mais sólida do que é hábito encontrar-se na FC, ainda que a maior parte das personagens secundárias não cheguem nem perto dessa tridimensionalidade, na ausência daquela ação violenta tipicamente ciberpunk, etc. Também aí encontramos nele uma encruzilhada, entre a FC e a literatura "lá de fora", que é acentuada ainda mais quando, a partir de cerca de meio do romance, começamos a encontrar coisas que estaríamos mais à espera de ver em histórias de realismo mágico ou de horror: Mae engravida mas, duma forma cuja explicação nunca chega sequer a ser esboçada, o embrião aloja-se não no útero, como a natureza manda, mas sim no estômago.

Curiosamente, ou talvez não, apesar de toda a disparidade e confluências que contém, o livro funciona. É, no fundamental, uma história sobre a evolução das coisas, sobre o caráter mutante da vida, sobre o modo como a tecnologia e a ciência, a capacidade de olhar objetivamente para o mundo, usando da melhor forma possível as ferramentas que temos à disposição e que vamos criando, acaba sempre por melhorar a vida da maioria das pessoas, ou até de as salvar. Imagino que haja leitores mais amigos de enredos enrodilhados e cheios de ação que se aborreçam com este livro, que de facto não é nada disso. Uns podem achá-lo pastelão e lento, outros ou, quiçá, os mesmos, podem achar certas passagens demasiado inverosímeis para um livro de FC, mas duvido de que quem seja sensível às questões filosóficas que ele tem subjacente possa não acabar a leitura com um saldo francamente positivo.

Eu, que até concordo com a objeção sobre a inverosimilhança, certamente que acabei. O livro é bom, e vale bem a pena ser lido.

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