terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Lido: A Virgem e o Cigano

A Virgem e o Cigano é uma novela póstuma de D. H. Lawrence, publicada em 1930, que apresenta a quem a lê uma jovem protagonista, Yvette, e as relações que ela tem com o seu círculo familiar, conservador, religioso, ocioso e repressivo, e com algumas pessoas que lhe atravessam a vida e que ela encara como lufadas de liberdade. Em particular o cigano do título, por quem tem uma espécie de paixoneta.

Intelectualmente, consigo entender a relevância que esta obra pode ter tido, como exaltação da liberdade e, até certo ponto, do sexo, numa sociedade inglesa ainda muito marcada pelo puritanismo vitoriano e trancada na sua famosa rigidez social. Da mesma forma consigo entender que haja quem lhe veja méritos na construção das personagens, e o livro quase que se resume a isso. Até simpatizo com o desprezo que Lawrence mostra sentir pelo egoísmo daquelas pessoas mui tementes a deus-nosso-senhor. Mas a verdade é que o livro comigo falha no aspeto mais fundamental e básico da literatura: a capacidade de comunicar com o leitor. E falha de um modo total e absoluto. Lawrence pura e simplesmente não comunica comigo.

Num livro tão baseado na construção de personagens como este, convém que o leitor consiga acreditar nessas personagens, caso contrário corre o sério risco de não obter nada do livro. E eu não consigo acreditar em nenhuma daquelas pessoas, todas elas me parecem caricaturas inverosímeis e surpreendentemente desprovidas de profundidade. Podiam perfeitamente ser orcs do Tolkien, que o alheamento que me causariam não seria maior. A história é-me completamente indiferente, vivendo como vivo numa época em que já nada daquilo tem o mínimo relevo e a liberdade social e sexual são dados adquiridos. Hoje, as faltas de liberdade que têm interesse e relevância são as que têm a ver com a política e a possibilidade de crença, e principalmente de descrença, em especial em certas partes do mundo, e aquelas que têm a ver com a sobrevivência económica. Donzelas burguesinhas e reprimidas, com desejo por ciganos, num momento em que o tema em cima da mesa é o casamento homossexual? Bocejo.

Com todo este desinteresse por personagens e tema, a única hipótese deste livro não ter sido para mim um completo aborrecimento seria se o texto propriamente dito fosse algo de extraordinário, capaz de me fazer esquecer tudo o resto. Mas também não. De modo que contrariamente ao que aconteceu ao ler Coetzee, aqui só senti um reavivar da minha velha zanga com o mainstream literário.

É pena.

1 comentário:

  1. Tenho este (em ed. original) na minha pilha. Acabo de o mover mais para a base… ;-)

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