terça-feira, 19 de janeiro de 2010

And the winner is...

Quando lancei o passatempo imaginários pensei cá com os meus botões que, se tivesse mesmo muita sorte, obteria uma ou duas histórias boas, tanto no que toca à criação dos ETs, como na história propriamente dita. Desde o princípio achei que era mais provável que me aparecessem histórias com fragilidades, ou num lado ou no outro, e por isso mesmo esclareci logo à partida que iria dar prioridade à qualidade na construção dos ETs.

O resultado foi mais ou menos o que eu esperava. A melhor história chegou-me do Brasil, o que a deixa apenas candidata ao tal e-book (logo vos digo alguma coisa sobre ele se e quando se concretizar). E entre as demais, houve uma que se destacou no uso do português, na qualidade na construção da história e na escolha de um bom final, embora não tivesse conseguido levar-me a acreditar no alienígena que apresenta, motivo que a levou a ser preterida. E houve a vencedora, aquela que leva o livro para casa.

É uma história com fragilidades, que denota claramente ter saído dos dedos dum escritor ainda imaturo, mas a verdade é que já li coisas bem piores publicadas em fanzines, revistas e até em livros. E foi, das histórias portuguesas, aquela em que se notou um maior cuidado na criação de uma espécie ET simultaneamente estranha e verosímil. Por isso, os meus parabéns ao Francisco Norega, e aqui a têm:

O Acordar dos Amot

"O meu avô dizia-me que vivemos nas costas de um grande animal" atirou o rapaz de cabelos e olhos negros para os outros dois, por nenhuma razão em especial. Estavam deitados numa pequena clareira, a descansar depois de uma tarde típica de trapalhadas.
Estava tudo calmo, o vento trazendo de tempos a tempos os ténues sons da povoação.
"Dizia que todas as aldeias estavam construídas por cima de uns bichos gigantescos em forma de montanha, que formavam um manada," continuou o rapaz "e que, de vez em quando, eles acordam e se movem."
Silêncio. O céu estava cinzento — como sempre — e, o ar, frio.
"Tenho fome" disse o outro rapaz, virando-se, depois, para o louro. "Vamos a tua casa?"
"Vamos."
Levantaram-se e puseram-se a caminho, em silêncio. Era sempre a descer até à aldeia, por isso não tardaram a lá chegar.
As ruas eram estreitas e as casas, de dois ou três andares, encavalitavam-se umas nas outras. No centro da aldeia havia um grande buraco. Não era um poço, não dava acesso a sítio nenhum (pelo menos que alguém soubesse), e nunca ninguém tinha atingido o seu fundo. Não se sabia a razão de aquilo existir, mas ninguém se questionara com isso — simplesmente sempre tinha existido, e não deixaria de existir tão cedo. Tampouco se sabia a função que tinham as grandes estruturas de madeira que formavam arcos por toda a povoação, encabeçadas por uma sólida e gigantesca trave de madeira que ligava as casas dos dois lados das ruas.
Mas estes não eram assuntos com que se preocupassem os habitantes daquela aldeia, nem os das outras aldeias da região, todas elas construídas à volta de um buraco semelhante e com as mesmas traves.
"Olá rapazes" disse a mãe do rapaz louro, sorridente — não sabia, com certeza, das trapalhadas que o seu filho e os amigos tinham andado a fazer. Ou talvez soubesse — mas se eles não o fizessem naquelas idades, quando seria? "Acabei de fazer uns bolos deliciosos, e vocês devem estar cheios de fome!"
Os três rapazes sorriram, tão genuinamente como só as crianças conseguem fazer. Apressaram-se a ir até à sala e sentaram-se à frente do forno, aquecendo-se com o calor das brasas ainda acesas, e recebendo com um agradecimento silencioso os bolos que a mãe lhes levou.
Comeram o seu lanche com uma felicidade silenciosa, mas verdadeira. Ficaram ali até começar a anoitecer e se retirarem para o calor das suas famílias.

Um pequeno tremor assolou a aldeia, já a pouca luz com que o sol a brindava se tinha extinguido. As chamas da lareira foram rapidamente apagadas por um homem, como que num gesto reflexo.
Um novo tremor, desta feita ligeiramente mais forte, voltou a sentir-se. Uma criança de cabelos castanhos olhava para os toros agora encharcados, dando por si a pensar nas palavras que o seu amigo, nessa mesma tarde, proferira, a pensar nos míticos seres nas costas dos quais supostamente havia sido construída aquela aldeia — e muitas outras.
O filho, o pai e a mãe abraçaram-se e deram as mãos, com um brilho sereno nos olhos. E assim entraram pela noite dentro, enfrentando os sucessivos estremecimentos da terra com esperança e calma.

Os estremecimentos tornaram-se cada vez mais frequentes e não demorou muito até se tornarem num único tremor contínuo e avassalador. As pessoas permaneceram dentro de casa, providas de uma calma aterradora — todas as lareiras haviam sido apagadas de uma forma quase mecânica, e todos as famílias se haviam reunido.
Graças às estruturas de madeira que antes poderiam parecer excessivas, os edifícios — ou grande parte deles — iam resistindo. As traves de madeira e as estruturas anexas evitavam que os edifícios desabassem uns contra os outros, e as reforçadas estruturas internas das casas impediam que estas ruíssem. A esperança, essa, também ajudava — ou pelo menos nisso todos acreditavam.
Nas ruas ainda intactas apareceu um louco, proclamando o acordar dos Amot e profetizando a morte de toda a gente. Amot, era esse o nome que o meu avô dava aos grandes animais nos quais tinham sido construídas as aldeias, relembrou-se, aterrado, o rapaz de cabelos pretos como a Morte. Porque estaria aquilo a acontecer, logo naquele dia, que tinha contado as histórias do avô aos seus amigos? Seria culpa dele?
Amot.
"Vamos todos morrer! Os Amot acordam esfomeados, sedentos de carne que lhes dê energias para a sua migração. As casas não tardarão a ruir e os que não morrerem debaixo do tecto que sempre os abrigou serão asfixiados pelos gases que sairão de dentro do Buraco! Vamos todos morrer!" A sua voz estridente e rouca enchia todas as casas da aldeia e ecoava na floresta que cobria a montanha.
Depois, silêncio, por momentos. Meu Deus, que fiz eu? O rapaz sentia-se culpado e rompeu o abraço que os pais lhe davam, correndo para a rua. Rompeu a força da esperança, a esperança à qual a aldeia parecia agarrar-se. Era difícil andar na rua, o chão fugia-lhe debaixo dos pés e ele caía constantemente — quando finalmente chegou perto do buraco, o rapaz estava completamente ensanguentado, lavado em lágrimas de culpa.
Mas do buraco saía um odor estranhamente agradável, sedutor. O rapaz aproximou-se, rastejando, e inspirou profundamente, sentindo os tremores de uma forma cada vez mais ténue, sentindo-se leve. Leve.
Dois gritos de desespero fizeram-se ouvir quando o rapaz se deixou cair para o grande buraco. O pai e a mãe do rapaz caíram no chão, num lamento angustiado, desprovido de esperança.
"Não há esperança! Vamos todos morrer!" repetiu o louco. Os seus gritos assemelhavam-se ao crocitar de um corvo. "Só há Salvação para quem chegar às Planícies puro! A Terra deixará de tremer e todos pensarão que tudo ficará bem, mas depois virá o Cheiro e todos morrerão!" profetizou ele.

Quando o céu começou a clarear os estremecimentos tornaram-se mais e mais fracos, como previsto pelo louco.
Numa casa, ouviu-se uma voz feminina, algo hesitante. “Se calhar ele tem razão.”
"É só um louco" respondeu um homem — mas nem ele estava seguro do que dizia.
"Pode ser que sim. Mas…" pausa, como que para ganhar coragem, "e se não for?"
Da rua, como que em resposta, o louco voltou a gritar. "Vamos todos morrer! Quem sentir o Cheiro não terá salvação!"
O homem pareceu mudar de ideias. "Vamos embora, antes que seja tarde de mais" disse, tentando pela primeira vez transmitir algo não completamente genuíno — um sentimento de confiança.
A mulher não hesitou, e correu a meter os bolos que tinha confeccionado no dia anterior numa trouxa. O homem pegou num ramo de uma qualquer erva com um cheiro muitíssimo intenso. "Vamos" disse a mulher, despenteando os cabelos louros do filho e pegando-lhe pela mão. Este resistiu, e afastou-se da mãe.
"Vou chamar os meus amigos", disse, decidido. E, perante o olhar repreensivo do pai, continuou, batendo o pé. "Não os vou deixar cá. Não vou, não vou, não vou!"
"Vamos todos morrer!" voltou a fazer-se ouvir o louco, qual corvo agoirento.
"Não é altura para fazer destas birras, filho!" disse o pai, enquanto se aproximava dele, agarrando-o o pegando-o ao colo. Depois, voltou-se para a mulher. "Leva esse ramo de erva-das-neves, proteger-nos-á na floresta."

Tão rápido quanto os tremores ocasionais lhes permitiam correr, afastaram-se da aldeia, descendo a montanha. Ao chegarem ao pé de um pequeno riacho, o pai pousou o filho no chão durante um momento e, então, ele desatou a correr, com uma energia que só as crianças com um sentimento de amizade tão puro conseguem ter. Em poucos segundos tornou-se inalcançável, mas a mãe começou a correr atrás dele, desesperadas, sofrendo a perda antecipadamente, mas rapidamente caiu e se deixou ficar no chão, estendida a soluçar.
"Nestes momentos é preciso frieza" disse o homem para si mesmo, enquanto observava o seu filho a desaparecer nos confins da floresta, mais rápido do que ele alguma vez conseguiria correr.
Aproximou-se da mulher e tomou-a nos braços. Esta continuava a soluçar, mas encontrava-se já quase inconsciente. Apressou-se a descer o resto da montanha, num passo determinado, e, chegado ao seu sopé, pousou o corpo adormecido da mulher na erva verde.
Avançou, entrando pela planície verdejante dentro. O ar gelado que sentira centenas de metros acima, na aldeia, fora-se transformado numa brisa quente à medida que ia descendo a montanha.
Parou, observando à sua volta. Da planície vasta, erguiam-se abruptamente várias montanhas, distantes umas das outras, mas numa disposição que quase fazia lembrar uma manada.
De repente, um ruído ensurdecedor encheu-lhe os ouvidos — todo o mundo parecia desabar naquele momento. Mas não, eram as montanhas! Elas… estavam-se a… mover!
"Deus me valha!" A base das montanhas separavam-se da planície e as grandes massas de rocha moviam-se agora, qual imponente manada em migração.
De repente, um pensamento assolou-lhe a mente, e ele virou-se assustado. A sua mulher, onde estava? Deixara-a ali, a umas parcas dezenas de metros de onde se encontrava, mas esse sítio não mais existia, era sim uma grande massa de terra e rocha desordenada, deixada pelo levantar da montanha.
"Deus me valha…" repetiu ele, desalentado. Agora sim, tinha perdido tudo. A calma deu lugar ao desespero e um laivo de loucura despontou-lhe nos olhos — assim como tinha acontecido ao velho louco que vagueara pela aldeia naquela noite várias dezenas de anos atrás. Agora, a sua sina seria avisar os próximos aldeões que viessem a habitar no topo dos Amot, assim como o louco fizera.

Nas montanhas, a terra que circundava os buracos começou a desabar, levando consigo todos os seres atraídos pelo sedutor gás para o interior do sistema digestivo dos Amot — eram eles que lhes iam alimentar a migração.
Isto acontecia sempre que se iniciava uma nova migração, fazendo os buracos ficar maiores ao longo dos tempos. E é o tamanho do buraco que nos diz a idade de cada Amot.

Sem comentários:

Enviar um comentário