sábado, 9 de janeiro de 2010

Lido: Admirável Mundo Novo

A primeira releitura de um ano que deve vir a ser mais rico nelas do que a média é um livro que tinha lido na adolescência e do qual me lembrava já muito mal: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

Para quem não conhece — porque há sempre quem não conheça, mesmo um romance clássico como este — Admirável Mundo Novo é uma distopia política que se passa numa sociedade futura em que o hedonismo e a felicidade são erigidos a valores principais e protegidos a todo o custo. Para esse fim, a sociedade é extirpada de todos os elementos perturbadores, sejam eles a arte ou a ciência, o amor ou a paixão, a religião, a política ou até a família. As novas gerações são geradas in vitro, e cada indivíduo é condicionado a abraçar o lugar que lhe está predestinado numa sociedade rigidamente estratificada em castas. A própria noção de indivíduo é desencorajada, com exceção parcial para os membros da casta mais elevada, os alfas. Os restantes são sempre membros de grupos de gémeos idênticos, ou clones, e encorajados a um gregarismo absolutamente conformista, nos quais a droga, o desporto e o sexo assumem papéis de relevo. O mundo está quase inteiramente ocupado por este admirável mundo novo, embora subsistam alguns enclaves, em zonas remotas, nos quais as pessoas mantém velhas tradições e modos de vida obsoletos.

O romance tem dois protagonistas. O primeiro, e principal, é Bernard, um alfa que terá sofrido um acidente durante o tempo de gestação que o deixou incaracteristicamente franzino e cheio de complexos, o que exacerbou o seu sentido de individialidade e o seu inconformismo. É Bernard que, ao levar uma putativa conquista amorosa a uma reserva de selvagens, descobre o outro protagonista, John, ou "o Selvagem". Filho de uma mulher civilizada da classe beta, que foi engravidada por um alfa e abandonada entre os selvagens — e no admirável mundo novo ter-se uma mãe é a maior das obscenidades —, John cresceu sem condicionamento, com uma educação ao deus-dará na qual as histórias que a mãe contava sobre a civilização se misturaram com as crenças religiosas dos índios com os quais mãe e filho viviam, e com tudo o que conseguiu ir lendo, em particular Shakeapeare. John tem adoração por Shakespeare, sabe-o todo de cor, e cita trechos à mínima oportunidade. Mas essa educação transformou-o num asceta puritano, cheio de ideias bizarras sobre o que é puro e o que é sujo.

Este romance é acima de tudo uma reflexão sobre os caminhos que as sociedades ocidentais do início do século XX pareciam seguir. Não só as sociedades totalitárias de esquerda ou de direita, mas também o capitalismo mecanizado e mecanicista. A religião, por exemplo, é substituída por uma adoração a Ford, cujo símbolo é um T (relembro a quem não entenda a referência que o primeiro automóvel produzido em série foi o Ford modelo T). E é uma reflexão que consegue a proeza de ser em parte ingénua, e em parte terrivelmente perspicaz. E também muito desesperada. Porque Huxley não nos oferece qualquer alternativa capaz. Os cidadãos do admirável mundo novo são seres desprovidos de profundidade, meros membros do formigueiro, criaturas irrelevantes que vivem numa sociedade inerentemente estagnada e nem sequer têm consciência desse facto. E o homem vindo do passado é um histérico irracional, mais do que meio enlouquecido, cujo destino final é inevitável desde o início. E não há mais ninguém.

É frequente por-se este romance lado a lado com 1984, de George Orwell. Também é frequente discutir-se qual dos dois é melhor. A mim parecem semelhantes em qualidade, mas prefiro este. Porque, enquanto 1984 é um estudo sobre a opressão e a mentalidade de guerra, Admirável Mundo Novo é um estudo sobre aquilo que é preciso para que o domínio se mantenha sem que a opressão continue a ser necessária. Nos dias que correm, este parece-me bastante mais necessário do que aquele.

4 comentários:

  1. Ainda não consegui encontrar este livro. A bem dizer, ainda não o procurei desesperadamente, mas já tentei alguns alfarrabistas. Aguardo por um golpe de sorte ou uma reedição, até porque das distopias principais é a que me falta ler.

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  2. Realmente, a Livros do Brasil já podia reeditar este livro. Não era nada má ideia.

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  3. Li este livro há um ou dois anos. E adorei.

    Um livro para se ler e reflectir, e recomendar às gerações futuras para que possam, também elas, reflectir um pouco.


    Abraço!

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  4. Sem dúvida. Apesar de algumas ingenuidades, a meu ver desculpáveis, é um belo livro.

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