quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Lido: Na Praia de Chesil

Há já vários anos que venho ouvindo falar de Ian McEwan com entusiasmo, como um grande escritor. De modo que foi com alguma expetativa que peguei neste Na Praia de Chesil, um romance curto (menos de 130 páginas na edição portuguesa) que, pensei, leria num ápice.

Não li.

O romance conta a história de um jovem casal na transição dos anos 50 para os 60. Ele é um descontraído, recém-licenciado em história, originário de uma família disfuncional de uma baixa burguesia rural. Ela é uma violinista perfeccionista, puritana e frígida, cuja família é bastante mais endinheirada do que a dele e também, pelo menos na aparência, muito mais sólida. Ambos estão presos às convenções e tabus sexuais do tempo, só se conhecem realmente, só conversam, após o casamento, o que tem consequências fáceis de prever. E é precisamente aí que está parte da razão para eu não ter gostado lá muito do livro: a sua previsibilidade. A outra parte? Nele quase não acontece nada. A história propriamente dita começa e acaba na noite de núpcias, dedica longas, longas, páginas à descrição psicológica de cada um, completa-a com uns quantos flashbacks que nos levam a momentos específicos do passado de ambos e depois carrega no botão de fast-forward para nos trazer ao presente. De modo que achei o romance quase sempre bastante aborrecido e levei a lê-lo muito mais tempo do que esperei à partida.

Mas.

Mas há um mas, claro. A criação das personagens está muito bem conseguida. São pessoas de cuja realidade não duvidamos nem por um momento, seres complexos, imperfeitos e credíveis. Gente em três dimensões. E, embora seja algo secundária relativamente às personagens, a reconstituição histórica da época, o pano de fundo, também me pareceu muito boa. De modo que não posso dizer que tenha achado o livro mau. Nem por sombras. Os crentes da religião do "show, don't tell" fá-lo-iam, sem dúvida, porque McEwan praticamente não mostra nada e conta quase tudo mas, para mim, opiniões que não tentem ao menos perceber o que o escritor (ou qualquer outro artista) tenta fazer com a sua obra têm credibilidade e relevância rigorosamente iguais a zero. E McEwan nunca quis mostrar nada, quis contar. Não quis narrar, quis descrever. Mais do que uma história o que lhe interessou foram os personagens. E fê-lo bem. Portanto, nada a opor. Eu não gostei por aí além; procuro outras coisas nos livros que leio. Mas quem se delicia com a profundidade psicológica das personagens, e há muitos leitores que é isso mesmo que procuram na literatura, tem aqui um pratinho cheio.

2 comentários:

  1. Já ouvi dizer que este "Na Praia de Chesil" não tem o Ian McEwan no seu melhor. Dele, ainda só li "Expiação" e gostei muito. É um livro no qual, tal como descreves neste, as personagens têm uma grande profundidade psicológica, mas acontecem coisas, de facto. E gostei muito da forma como ele escreve, com as suas descrições muito particulares de pessoas e situações. É sem dúvida um autor que quero explorar melhor no futuro.

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  2. Hm... então vou ter de voltar a experimentar McEwan. Acho que há cá por casa outro livro dele... (vai ver... regressa sem encontrar)... mas não será tão cedo. :)

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