sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Sobre uma série de coisas homo. E hetero.

No último par de semanas vi-me por várias vezes forçado a explicar umas coisas que julgava básicas sobre as relações que pode haver entre as palavras, sua pronúncia e suas grafias. A pessoas diferentes, bem entendido; acho que todas aquelas a quem expliquei ficaram esclarecidas. A última sessão foi hoje. Mas chateia estar a repetir as mesmas coisas uma e outra vez, além de haver sempre alguma dificuldade com os exemplos, que nem sempre estão tão na ponta da língua como seria desejável. De modo que decidi fazer um post. Para a próxima, a resposta será: "olha, fiz um post sobre isso na Lâmpada", seguida de um link se a conversa for eletrónica, seguida de um "vai lá ver" (e provavelmente dum resumo) se for presencial.

Então vamos lá.

A esmagadora maioria das palavras, como todos sabemos, são diferentes umas das outras, tanto na grafia como na pronúncia. Mas há grupos de palavras, comparativamente pequenos, que têm relações especiais com outras palavras. Essas relações podem ser de homografia, homofonia ou homonomia. Sim, engraçadinhos, é tudo muito homo. Mas as que não são homógrafas são heterógrafas, as que não são homófonas são heterófonas, e as que não são homónimas são heterónimas. De modo que também é tudo muito hetero. Embrulhem. Termos apresentados, passemos a explicá-los e a exemplificá-los.

As homónimas são as mais simples de explicar: são aquelas palavras que são ao mesmo tempo homógrafas e homófonas. Sempre que abrirem um dicionário e encontrarem duas entradas seguidas e idênticas, estão a olhar para duas palavras homónimas. A frase "fui dar uma fatia de manga ao Luís, e enfiei a manga na sopa" contém duas palavras homónimas: manga (parte duma peça de roupa) e manga (fruta). A frase "Penso que tenho de pôr um penso no calo, mas depois enfio-me num canto, rebento em canto e nunca mais me calo" tem o belo número de três: penso (verbo pensar e coisa que se põe nas feridas), calo (verbo calar e o mesmo que calosidade) e canto (verbo cantar e ponto de junção de duas paredes).

Palavras homógrafas são palavras cuja ortografia é idêntica. Muitas são aparentadas (isto é: possuem a mesma raiz; descendem do mesmo ancestral lexical), mas nem sempre assim é. Na frase "eu jogo um jogo" encontramos duas palavras homógrafas: uma forma do verbo jogar e o substantivo jogo. A frase "primeiro rego ao longo de todo o rego, ensopando aquilo tudo, depois obrigo o gajo a ir colher as ervilhas com uma colher; vai ser lindo!", além de ser francamente sádica, contém dois pares de palavras homógrafas: uma forma do verbo regar e o substantivo rego, e o infinitivo do verbo colher e o substantivo colher.

Como já devem ter deduzido, as palavras homófonas são palavras cuja pronúncia é idêntica. A frase "ele foi à sede do concelho dar um conselho ao presidente da câmara" tem um desses casalinhos. "Vós, cada um dos cem, se fizerdes isso ficareis sem voz" tem dois. Uma frase que pus ontem no twitter para tentar levar o pessoal a não acentuar aquilo que nunca levou acento, "não se põe o acento no "cú", mas sim o cu no assento", tem mais um. E "Não sejas uma seca e ouve: houve uma denúncia de que a pia está seca, de modo que trata de enchê-la e não pia!" é, além de autoritária, uma tripla: tem um par de homógrafas (seca e seca), um par de homófonas (houve e ouve) e um par de homónimas (pia e pia)!

O que é que acontece a tudo isto com o acordo ortográfico? Pouca coisa. As categorias, obviamente, mantêm-se idênticas, mas há um conjunto de palavras que se transferem dumas para as outras. O imperativo do verbo "parar", por exemplo, perde o acento e torna-se homógrafo da preposição "para". O sinónimo de ação, "ato", perde a consoante muda e, como já era homófono da forma do verbo "atar", torna-se homónimo da mesma forma. O (muito incomum) sinónimo de assumido, "assumpto", perde o p mudo e torna-se homónimo de assunto. E mais alguns casos, que duma maneira geral transformam palavras heterógrafas em homógrafas e palavras homófonas em homónimas. Mas poucas. Nenhuma destas listas de exemplos é exaustiva, mas esta é provavelmente a que mais se aproxima de o ser.

De modo que aí têm. Já podem dizer aos amigos que estas coisas não têm segredos para vocês.

3 comentários:

  1. Muito escorreito, desmpenado, sim senhor. Assim soubessem e explicassem muitos professores.

    Mas (há sempre um mas!) ficou por referir a questão das variantes da língua (tal como praticada por utilizadores da ortografia).

    Exemplos: Para o lisboeta "rio" e "riu" são homófonos (e "mem" e "mãe", "rol" e "role", "sanha" e "senha", etc.), para o carioca "mas" e "mais" são homófonos (e "mal" e "mau", etc.), etc. Já para o trasmontano "conselho" e "concelho" não o são (nem exemplos com "ch"/"x" que não me ocorrem agora, etc).

    Quanto ao acordo ortográfico, pois "pára" / "para" desaparece, tal como "meia" /~ "idéia", mas fica "pôr" / "por".

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  2. Pá, há que deixar sempre qualquer coisa extra para o aluno interessado pesquisar. ;)

    Além disso, a simplicidade tem grandes vantagens pedagógicas. Antes de complicar, convém que a informação básica fique bem aprendida. Em muitos casos, ainda estamos nesta fase. ;)

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  3. Pois continuam a ter segredos para mim. Desde pequeno sempre detestei o Português (a língua e não o padeiro). Jamais estudei, nunca me interessei e até hoje, se escrevo bem, é por exercício e não por aprendizado. Português é um bicho de sete cabeças do qual pretendo manter a maior distância possível. Louvados sejam os revisores!

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