sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Lido: Carbono Alterado

Carbono Alterado (bib.) é um romance de ficção científica policial que explora de uma forma muitíssimo interessante um futuro razoavelmente distante em que as consciências individuais podem ser armazenadas em sistemas informáticos (e primeiro de tudo numa "pilha" implantada na zona cervical das pessoas), e transferidas para outros corpos, as "mangas". Estes são geralmente corpos de criminosos, condenados a penas longas em armazenamento (ou então obtidos no mercado negro... ou clones artificialmente criados para esse fim), e a transferência propicia mesmo um tipo diferente de viagem interstelar... e uma certa forma de imortalidade. Escrito num tom de policial negro e violento, o livro acompanha na primeira pessoa as investigações pouco ortodoxas de um mercenário oriundo de uma colónia a vários anos-luz de distância da Terra que é "reimangado" no corpo de um ex-polícia terrestre, condenado por um crime que se vem a descobrir que não cometeu. O mercenário, Takeshi Kovacs, é contratado por um milionário "matusa" (i.e., alguém que vive muito para além da esperança de vida normal de um ser humano normal, graças a reimangamentos sucessivos) para investigar o seu alegado suicídio. Num mundo onde se armazenam consciências todos os tipos de morte são, potencialmente, atos provisórios, e o milionário, embora lhe faltem as recordações correspondentes ao período em que teria cometido o suicídio, não acredita que o tenha mesmo cometido, embora as provas que a polícia recolheu colidam com essa convicção.

Daqui parte-se para uma complicada teia de acontecimentos que envolvem prostituição e sexo aberrante e disfuncional, muito dinheiro, atividades à margem da lei, um hotel gerido por uma inteligência artificial cuja matriz de personalidade se baseia no Jimi Hendrix, uma polícia que estava sentimentalmente envolvida com o ex-polícia cujo corpo Kovacs ocupa, intrusões informáticas, realidade virtual, etc., etc. E, claro, abundante violência, ou não se tratasse de um assumido romance pós-ciberpunk.

O melhor que este livro tem, a meu ver, é conseguir tornar muito palpável, muito credível, todo o mundo que descreve. Negro? Sim, claro, mas principalmente porque no decorrer das suas investigações Kovacs vai ter de mergulhar bem fundo nas sarjetas sociais mais imundas. É negro porque a história policial que conta é negra, não necessariamente porque a sociedade seja mais negra, em si mesma, do que, digamos, a nossa. Ao contrário de outras histórias que caem no simplismo do pesadelo absoluto, neste livro quase se conseguem vislumbrar as pessoas a viverem as suas vidas normalíssimas, e quiçá talvez até felizes, nas margens do submundo que lhe serve de cenário. Isso confere-lhe uma tridimensionalidade de cenário que é invulgar, e o próprio protagonista também está invulgarmente bem construído, apesar de sair do muitíssimo que lhe acontece ao longo desta história talvez demasiado idêntico ao homem que era quando nela entrou.

Adicione-se a isso um pendor subversivo indisfarçado, a ideia genérica de que não convém mesmo nada confiar no dinheiro e no poder, de que os grandes tubarões não têm grandes escrúpulos em esmagar os pobres desgraçados que têm o azar de se lhes atravessar no caminho, e temos receita certa para um romance bem acima da média e bastante relevante para o leitor contemporâneo. Para mim teve o interesse acrescido de explorar a ideia da transferência das consciências entre corpos que eu também explorei numa noveleta que publiquei há alguns anos, Littleton, embora Morgan a tenha explorado com muito maior profundidade (e sob uma perspetiva bastante diferente), até pela muito maior extensão do seu texto. Não é nada que seja realmente novo, mas para quem escreve é sempre interessante encontrar outros tratamentos das ideias que utiliza. Esta, aliás, também é tratada numa história escrita ainda nos anos 80 por George R. R. Martin, que eu deverei traduzir no próximo ano. Mas divago.

Aquilo de que menos gostei? As longas e detalhadas descrições de cenas de pancadaria. Não é culpa do Morgan ou pelo menos não é sua culpa exclusiva. Este tipo de cena, cheio de ação e pretensamente entusiasmante, cada vez me enche mais de tédio, seja qual for o escritor que as comete. É que reparem: enquanto as personagens vão trocando murros e tiros ao longo de páginas e mais páginas, a história propriamente dita fica congelada à espera do desfecho (que ainda por cima é quase sempre a sobrevivência e provável vitória do herói, especialmente se é ele a contar a história na primeira pessoa, como aqui), não avança, fica só ali à porta do arraial de pancadaria, a bocejar de aborrecimento. E eu com ela.

Se calhar há leitores que se empolgam com aquilo, sei lá. Eu, definitivamente, não.

Mas, graças ao monstro do esparguete voador, Morgan enveredou poucas vezes por aí. Salpicou todo o livro de violência, mas foram poucas as cenas realmente longas de pancadaria. Também por isso o livro é muito aconselhável. Muito bom, sim senhores. Vão à confiança.

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