quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Lido: O Império do Medo

O Império do Medo (bib.) é um romance de Brian Stableford que interseta três ramos diferentes da literatura fantástica: a história alternativa, o horror e a ficção científica. Ambientado numa espécie de Renascimento alternativo, num mundo dividido entre duas espécies humanas — a elite de vampiros imortais (ou pelo menos difíceis de matar) e rodeados de mitos, e os plebeus, seres humanos normais, de vida curta — conta as viagens e pesquisas de um cientista inglês, na sua tentativa de descobrir a verdadeira natureza do vampirismo. O horror é-nos dado, portanto, pela presença de vampiros que, tal como todos os vampiros mitológicos e ficcionais, precisam de consumir sangue humano para sobreviver. A história alternativa aparece porque o surgimento dos primeiros vampiros funciona como ponto de divergência, a partir do qual a aristocracia europeia se vai, a pouco e pouco, transformando numa classe de vampiros, com membros como Vlad Dragulya (claro), Ricardo Coração de Leão ou Carlos Magno. E a ficção científica surge com a explicação da origem do vampirismo e sua caracterização como uma espécie de doença benigna e transmissível de uns seres humanos para outros.

A caracterização do mundo ficcional está soberba, à parte um pequeno detalhe que tende a afligir muitas histórias alternativas menos bem pensadas: Apesar da data longínqua do ponto de divergência, Stableford não resiste a utilizar como personagens figuras da história real, que foram nascendo, nessa história real, ao longo de um período de muitos séculos. É um detalhe, mas um daqueles detalhes que ataca com muita força a minha capacidade para suspender a descrença. Não é crível que, depois de um acontecimento que vai alterar toda a história da humanidade, como o aparecimento do vampirismo e a infeção das casas reais europeias com o dito, continuem a cruzar-se os mesmos cromossomas para produzir as mesmas pessoas, inclusivamente na mesmíssima aristocracia que se torna vampira. É um completo disparate. Mas, na ambientação, é o único. O resto é todo muito bom.

No que toca ao romance propriamente dito pareceu-me em geral bom, mas não tanto como a ideia e a ambientação. De vez em quando, Stableford torna-se muito descritivo, e enche páginas e mais páginas com explicações, estados de alma dos protagonistas e descrições disto e daquilo. Algumas são necessárias, mas outras pareceu-me que não. E entre as necessárias e as desnecessárias o ritmo quebra-se. Fiquei com a ideia de que talvez tivesse sido melhor que algumas das mais de 400 páginas de letra miudinha tivessem ficado de fora, que não só não fazem falta à obra como a prejudicam. E é pena, porque a ideia merecia melhor concretização. Podia ter sido uma obra-prima. Assim, o livro deixou-me com a sensação de ter acabado de ler um romance não inteiramente conseguido. Mas mesmo podendo ter sido melhor o resultado final pareceu-me bastante bom. Claramente o melhor livro de vampirismo científico que li até hoje.

3 comentários:

  1. Desde que o Luís Corte Real falou neste livro no debate em que participou na feira do livro que ando para o ler. Apesar das falhas que apontas, creio que irá ser do meu agrado.

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  2. O livro vale definitivamente a pena. As falhas irritaram-me porque teria sido razoavelmente simples evitá-las (e de resto, o facto de eu as achar falhas não significa que sejam mesmo), mas mesmo com elas o livro vale a pena.

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  3. Assim que o ler publicarei também a minha opinião.

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