terça-feira, 31 de agosto de 2010

Lido: Quantas Madrugadas Tem a Noite

Este livro é uma maravilha.

Quantas Madrugadas Tem a Noite, de Ondjaki, é uma autêntica lição de como utilizar a oralidade na literatura. Trata-se de um longo relato, uma longa história contada por um amigo a outro, num bar, enquanto lhe vai cravando cervejas atrás de cervejas, uma história cheia de peripécias sobre a morte de um tal AdolfoDido (será Adolfo Dido, mas Ondjaki grafa assim, com as palavras pegadas e uma maiúscula intermédia, o que também faz com vários outros nomes). A trama segue bastante de perto o formato da comédia de costumes. O morto deixa duas viúvas, uma legítima e a outra mais ou menos, que entram em litígio para tentarem apanhar uma pensão que o Estado angolano dá às viúvas dos antigos combatentes da guerra a que nós por cá chamamos colonial... coisa que o AdolfoDido nunca foi. Mas há documentos, há polícia, há tribunais. E há uma galeria de personagens bizarras, incluindo um albino, um anão e uma tal KotaDasAbelhas, apicultora citadina que parece ter como que um toque mágico para lidar com as abelhas. É, aliás, através dela que pela primeira vez começamos a suspeitar de que se calhar somos bem capazes de estar perante uma obra fantástica... o que acabamos por ver inteiramente confirmado no fim, no desfecho, na revelação de quem é, afinal, o homem que conta a história entre cervejas. A muito divertida história das andanças do cadáver do senhor Fodido, perdão, AdolfoDido, em bolandas por Luanda, e de tudo o que foi acontecendo entre a sua morte e o seu desaparecimento. Sim, que o cadáver às tantas desaparece, para espanto e consternação geral.

Mas o melhor que o livro tem é mesmo o tratamento que é dado à língua. Como que se ouve o português de Luanda no texto de Ondjaki, salpicado de anglicismos (ele é a birra, cerveja, ele é o bróder, irmão, ele é o dreda, etc.), ainda mais salpicado de empréstimos do kimbundu, a língua banta dominante na zona mais populosa de Angola, e salpicado também de calão e gírias de origem portuguesa e brasileira (as citações do Odorico Paraguaçu — o "kota Odorico", como lhe chama Ondjaki — da telenovela O Bem-Amado são copiosas e hilariantes), tudo a fundir-se no puro português de Angola, ou talvez só de Luanda, pois imagino que em regiões onde se falem línguas bantas que não o kimbundu os empréstimos sejam outros. E tudo a fundir-se num todo harmonioso, semeado de poesia. Querem ver? Uma citaçãozinha, então. Zinha mesmo, que acho que mesmo zinha dá para entender o que quero dizer:

Agora me é difícil odiar alguém, muadiê, e quando digo filhas da puta nessas damas que foram minhas, não é na voz da raiva nem da vingança do desprezo do meu cheiro de mel que elas querem cheirar mais outra vez (...)

Estão a ver? A mistura, calão, poesia, empréstimos bantos, tudo fundido em frases que parece que nasceram para ser assim, cheio de um ritmo tão absolutamente oral como totalmente angolano, e assim segue páginas atrás de páginas, 190 ao todo.

Este livro é uma aula de bem usar aquilo que a língua tem de mais vivo. E é também um hino à própria língua portuguesa, à sua flexibilidade, à sua adaptabilidade, à sua capacidade imensa de integração e mestiçagem, por mais que isso irrite os puristas.

Uma maravilha de livro. Já tinha dito? Não importa, volto a dizer.

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