domingo, 22 de agosto de 2010

Lido: Uma Noite Não São Dias

Uma Noite Não São Dias é uma novela de Mário Zambujal que tem como subtítulo, aparentemente, "Intriga e paixões no esquisito ano de 2044". Na contracapa, o autor adverte que "não se trata de antecipação científica", não vá alguém distrair-se e pensar que ele escreveu algo que se pareça com esse pária da literatura. E no miolo mostra-nos um ano de 2044 igualzinho ao nosso, não fossem as cidades inundadas, a substituição do "carjéquingue" pelo "helijéquingue", a inversão de papéis e estatuto social dos homens e das mulheres e mais duas ou três coisinhas. O tom é de comédia de costumes, na qual é introduzido um par de crimes e uma historietazita de amores cruzados. E o resultado é muito fraquinho.

Para começar, sofre do problema comum a todo o humor: só funciona com quem tem um sentido de humor compatível, e para todos os outros não passa de parvoíce. Isto é inerente à arte (porque de arte se trata) de fazer rir, e é um problema que todos os que enveredam por ela têm de aceitar e com que têm de viver. Ora o amigo Zambujal não conseguiu arrancar-me mais do que dois sorrisinhos ao longo das 124 páginas que escreveu. Isto não quer dizer por si só que o livro seja mau, mas quer dizer que o humor que contém não me tocou e não serviu em nada para melhorar a minha experiência de leitura, bem pelo contrário.

O que a meu ver já quer dizer que o livro é mau são outras coisas. São, por exemplo, e acima de tudo, os diálogos forçadíssimos que contém, nos quais todas as personagens falam rigorosamente da mesma maneira e soam todas àquelas peças antigas que mais do que representadas eram sempre declamadas. É, por exemplo, o facto do autor ter caído numa armadilha em que costumam cair os principiantes na arte (porque de arte se trata) de fazer antecipação, científica ou não: porem personagens a contar umas às outras aquilo que se passa precisamente naquele passado longínquo em que o autor escreveu a obra, vejam lá a coincidência. É, por exemplo, o surgimento aqui e ali do terrível "como sabes, Zé", aportuguesamento do não menos terrível "as you know, Bob" e que, trocando por miúdos, significa o ato falho em que as personagens discutem umas com as outras coisas que ambas estão fartas de saber para benefício e informação exclusivos do leitor.

Ainda se tudo isto prejudicasse uma história realmente interessante, talvez o livro tivesse algo que o redimisse. Mas não. O quadrângulo amoroso é duma banalidade confrangedora, e a história policial é de tal forma vaga, e de tal maneira pífia é a solução encontrada para o mistério que, longe de melhorar o livro é bem capaz de o piorar.

Salva-se o português, com a ressalva dos diálogos serem forçados. É um português correto, ainda que sem grandes arroubos, e tem a criatividade de aportuguesar ortograficamente uma série de anglicismos que têm penetrado no nosso léxico nos últimos tempos, o que tem o efeito, julgo que propositado, de mostrar o quanto alguns deles são ridículos. Isso é bem capaz de ser o melhor que o livro tem.

Mas chega? Cada leitor dará uma resposta diferente, mas infelizmente a minha só pode ser "de modo algum".

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