domingo, 24 de outubro de 2010

Lido: Contos Acrónicos

Ao contrário do que o título parece indicar, Contos Acrónicos, de António Eça de Queiroz, não é um livro de contos, mas sim um romance. Nem sequer é um romance em mosaicos, uma coletânea de contos interligados, um romance fragmentário, como queiram chamar-lhe. É um romance, ponto.

Trata da história de um tal Lamas, bibliotecário, contada por um tal "o outro", fantasmagórico interveniente na história que em geral funciona apenas como narrador e no qual se reconhece sem qualquer dificuldade a pessoa do autor. Mas também no Lamas (com o qual, aliás, o narrador por vezes se mistura) esse reconhecimento acontece, o que dá à história um tom marcadamente autobiográfico — há, pelo menos, bastantes coincidências entre a história de vida de Lamas e o par de parágrafos biográficos sobre o autor que vêm na contracapa do livro —, se bem que falar-se aqui de história talvez seja levar o significado do termo um pouco longe demais. Com efeito, o romance é, mais que uma história, uma coleção de episódios desencontrados e em grande medida desenquadrados, historietas, pinceladas que não chegam a formar um todo coerente. O objetivo parace ter sido criar com a palavra uma espécie de retrato impressionista da personagem principal, mas não me parece ter tido sucesso, ou pelo menos esse sucesso não é mais que parcial.

Entremeados no romance, aqui e ali, aparecem toques de fantástico, de um tipo que em geral remete para o realismo mágico apesar de também surgirem por vezes referências à ficção científica. Adotando a definição todoroviana do termo que diz que fantástico é tudo aquilo que deixa dúvidas sobre se a sua natureza é real ou sobrenatural, talvez haja passagens suficientes neste livro a pretender deixar essa incerteza no ar para que se possa inscrevê-lo na literatura fantástica. Pessoalmente, porém, não é assim que penso nele. Pareceu-me um exercício não particularmente bem sucedido e bastante desconexo de romantizar uma história de vida, no qual o fantástico é introduzido como forma de a tornar menos desinteressante. É uma abordagem que não me agrada e não gostei do resultado. Foi com dificuldade, e devagarinho, que levei a leitura até ao fim, apesar da língua portuguesa não sair em nada maltratada desta centena e meia de páginas. Basta isto, julgo eu, para fazer com que haja quem aprecie esta leitura. Não foi o meu caso.

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