sábado, 2 de outubro de 2010

Lido: Deste Mundo e do Outro

Deste Mundo e do Outro, livro de crónicas de José Saramago escritas em 1968 e 1969 e publicadas no jornal A Capital, é um livro curioso, para mim, por me mostrar um Saramago antes de ser o Saramago. Não pela primeira vez, é certo, visto que já antes tinha lido o primeiro romance que ele escreveu, Terra do Pecado, e também O Ano de 1993, um texto algo experimental que está algures entre um longo poema e um conto. Mas os textos aqui reunidos são decididamente prosa, e foram escritos muito depois de Terra do Pecado, mostrando já (aí é que está, aliás, o principal interesse do livro) parte dos temas e da abordagem que Saramago viria a explorar mais tarde quando conheceu o sucesso e se tornou escritor a tempo inteiro. Faltava ainda o estilo. Aqui, Saramago já escrevia bem mas ainda não tinha decidido mandar ao ar algumas das convenções que regem o texto escrito na língua portuguesa.

E não, não é a pontuação como tantas vezes diz quem nunca o leu. É fundamentalmente a supressão gráfica da separação entre os diálogos e o texto descritivo.

Curioso é também ver aqui tão claramente um Saramago amante, e até certo ponto conhecedor, de ficção científica. Um Saramago que chega mesmo a fazer umas visitinhas ao género ao longo desta páginas, muito embora seja mais frequente "ficar-se" pelo fantástico que acabaria por explorar mais consistentemente mais tarde. Um género cujos praticantes portugueses, a maioria deles, pelo menos, mostram uma tendência desconcertante para renegar este antigo fã, que uma ilustre academia sueca elegeu como o melhor prosador português do século XX. Talvez se lessem este livro mudassem de opinião? Talvez, só talvez.

Quanto a mim, há muito que defendo que Saramago foi dos nossos. Que, entre outras coisas, também escreveu FC. E que a maioria das outras coisas se integram com toda a naturalidade na grande família da literatura fantástica. Também por isso foi com gosto que encontrei todas essas vertentes já esboçadas nas páginas deste livro se bem que, claro, a maioria destes textos sejam não-ficcionais, sejam crónicas propriamente ditas, algumas com referência direta à atualidade de há mais de 40 anos, outras mais genéricas. Mas também as há ficcionais, pequenos contos em que Saramago utiliza frequentemente os mecanismos da ficção para fazer valer um argumento ou uma ideia. Por isso, mesmo não sendo um livro extraordinário, mesmo não sendo um verdadeiro Saramago no que toca ao estilo, é um livro bastante recomendável. Foram poucas as crónicas de que não gostei mesmo, foram mais algumas as que me deixaram indiferente, da maioria gostei e de algumas gostei muito.

Dado o seu grande número, não farei aqui a lista de links para as opiniões que fui deixando na Lâmpada sobre cada uma delas. Desculpem lá. É trabalho a mais. Mas uma busca por "José Saramago" na caixinha ali em cima deve dar aos interessados os resultados relevantes.

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