quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O efeito placebo e os casmurros

Toda a gente sabe o que é o efeito placebo: dá-se um comprimido de qualquer coisa inócua a um doente, convence-se o pobre de que se trata de um medicamento, e o comprimido tem realmente um efeito terapêutico, apesar de não servir para nada. Li ou ouvi algures há algum tempo que o efeito placebo é responsável por qualquer coisa como 40 a 60 porcento da eficácia dos tratamentos médicos. Embora ainda ninguém saiba com toda a certeza como é que o placebo funciona, parece que tem a ver com a ação das hormonas de stress que, como toda a gente sabe, têm um efeito inibidor sobre o sistema imunitário. Ao convencer-se o doente de que está a ser tratado de uma forma eficaz, os seus níveis de stress reduzem-se e é o próprio sistema imunitário do seu corpo que produz a cura, ou pelo menos a atenuação dos sintomas e da gravidade da doença.

Infelizmente, isto também quer dizer que existe uma espécie de efeito placebo inverso. Se o doente mete na cabeça que o tratamento que está a receber não tem nenhum efeito positivo ou, pior um pouco, que só o põe mais doente, é certo e sabido que acaba mesmo por piorar ou pelo menos por não obter do tratamento todo o seu potencial. É ele próprio que combate a cura. É ele próprio que causa a deterioração da sua saúde por pura falta de crença na eficácia da medicina.

E é por isso que é tão desesperante lidar com doentes casmurros, daqueles que metem uma coisa na pinha e não desbancam. Especialmente quando se trata de pessoas que queremos ter por perto para sempre. Porque queremos ajudá-los mas eles não deixam e não percebem (ou talvez não lhes importe) que ao não deixarem estão não só a prejudicar-se a si próprios mas também a esfrangalhar-nos os nervos a nós. Porque lhes explicamos as coisas e não acreditam. Porque acham que sabem melhor do que toda a gente como as coisas são, apesar de tudo indicar o contrário. Porque, porra, são casmurros como o raio que os parta.

É um desespero. É uma frustração que se vai acumulando até parecer que a única coisa que nos preenche é a vontade de gritar. É insuportável. E não há solução. Apesar de apetecer enfiar-lhes as coisas na cabeça, à marretada se necessário, isso de nada serve. É inútil sequer tentar. Nada entra.

E isto também se aplica, diga-se de passagem, embora de uma forma mais suave, a outros casmurros que, não estando doentes, também beneficiariam sobremaneira da ajuda que lhes poderíamos dar.

1 comentário:

  1. Sou este segundo tipo: como não acredito nas benesses da medicina, demoro meses a curar uma gripe mesmo tomando os antigripais todos da moda.

    O meu médico, que tem o azar de ser também um amigo pessoal, tem perdido o último ano a convencer-me a mudar de hábitos e a fazer exames, nem o aviso de "morte eminente" com um fulminante AVC filho dos AITs até agora sofridos tem funcionado: por alguma razão desde a minha adolescência que me convenci que morreria antes dos 50, e deixei de me preocupar com isso, para desespero de namorada, mãe, pai, amigos e médico.

    Grunge (ainda) not dead!

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