terça-feira, 24 de maio de 2011

L'11: A confiança, essa estranheza.

Há dias, estava a ver o telejornal enquanto já não me lembro que jornalista entrevistava o Teixeira dos Santos, e aconteceu-me uma coisa que até acontece com alguma frequência: o ministro disse uma coisa muito séria e eu larguei uma gargalhada.

Que coisa muito séria foi essa?

Que ninguém tinha previsto a escalada das taxas de juro da dívida portuguesa. Que não era previsível, que tinha apanhado toda a gente de surpresa. Blá blá blá.

E porque foi que eu larguei uma gargalhada?

Simples: porque, ao contrário, aparentemente, da grande maioria das pessoas, não sou amnésico. E como não sou amnésico lembro-me bem de ouvir a esquerda, o BE e o PCP, a alertar, desde o momento em que chumbaram o primeiro PEC, para ser inevitável que um programa de austeridade, inerentemente recessivo, iria piorar a capacidade do estado português de fazer face às suas dívidas, e isto mesmo dando de barato que os "mercados" são uma força benigna ou no mínimo racional, o que está muito longe de ser dado adquirido. A cada PEC que o PS apresentava, dançando o tango com o PSD, de rosa na boca e saias vermelhas a rodopiar, a esquerda repetia o alerta, votava conta e apresentava alternativas. O PS, enamoradíssimo, só com olhos para o namorado novo e alaranjado, fazia ouvidos de mercador e sempre que um PEC falhava, conforme a esquerda tinha avisado que falharia, lá vinha outro, sempre disfarçado de coisa inevitável e salvadora da economia nacional. Até ao quarto, que teve o destino que vocês conhecem, sendo chumbado também pelo namorado dos tanguistas da rosinha para reaparecer em versão piorada por uns tipos estrangeiros que gostam de violar camareiras.

Ou seja: gargalhei porque o que Teixeira dos Santos disse foi uma mentira grosseira.

A verdade é que em todo este processo os únicos partidos parlamentares que foram acertando sucessivamente nas previsões que foram fazendo foram o Bloco de Esquerda e o PCP. Bem, OK, os Verdes também, mas esses pouco contam. Os únicos.

Ora eu, que até penso e tudo, vejam só, acho que se um gajo qualquer acerta sistematicamente nas previsões que faz das duas uma: ou tem uma sorte do caraças e, convenhamos, inverosímil, ou então se calhar até sabe do que está a falar. É um gajo a que eu vou passar a dar ouvidos daí para a frente, especialmente se aquilo que tiver a dizer for importante. Não há certeza nenhuma de que o que disser no futuro esteja tão certo como o que disse no passado, claro, mas eu tendo a depositar nele muito mais confiança do que nos que só disseram (e pior: fizeram) disparates.

E é essa a principal razão que me leva a pôr para trás das costas o tal disparate da moção de censura e a votar BE. Que vocês não achem o mesmo, ajuizando pelas sondagens, só me causa uma imensa estranheza. É como se estivessem num Titanic prestes a colidir com o iceberg que o acabará por afundar e preferissem dar ouvidos aos tipos que dizem que os icebergs são um mito em vez de prestarem atenção aos que já por quatro vezes predisseram, corretamente, que uma montanha de gelo ia aparecer a bombordo no momento tal.

Bizarrias da confiança. Ou da falta dela.

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