segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sobre a autoedição

Há dias apareceu-me no twitter um link para este artigo, no qual a autora tece uma série de considerações sobre a autoedição em print-on-demand. Em geral, acerta em cheio no alvo. A autoedição em print-on-demand, pela sua própria natureza, adequa-se muito melhor a livros com um público-alvo muito limitado do que a obras que, pelo menos em potencial, teriam um público vasto. Se não houvesse mais fator nenhum envolvido no assunto, a própria natureza do sistema de impressão adequa-se muito melhor a livros cuja tiragem total acabará inevitavelmente por ser baixa do que a livros com potencial para tiragens maiores. Se uma tiragem tradicional de 50 exemplares não compensa, economicamente, ir imprimindo um a um esses 50 exemplares é bastante mais lógico. Até que o custo do POD desça até ao nível das outras formas de impressão, o que talvez nunca aconteça, livros com um público razoável saem mais baratos a toda a gente (e em princípio ficam mais bem feitos) se forem impressos tradicionalmente do que em POD. Não é de admirar, portanto, que os serviços de print-on-demand assumam aquilo a que ela chama "long-tail business model" (não faço ideia como se traduz isto para português no jargão da gestão... se é que tem tradução), ou seja, a preferência por terem um milhão de autores a vender 100 exemplares cada a terem 100 autores a vender um milhão de exemplares cada.

E depois há tudo o resto. A distribuição que uma editora a sério faz e que um sistema POD não faz, o marketing, capa e paginação profissionais, etc., etc. Obviamente que nenhuma editora propriamente dita vai investir em livros com potencial para venderem 100 exemplares, mas livros capazes de vender mais do que isso têm direito a uma série de "achegas" que a autoedição não fornece.

E claro que isto tem consequências. Claro que a vasta maioria destes livros não valem nada. Mas será isso um problema? Ela, a autora do artigo, acha que sim. Acha que a prevalência de livros muito maus como que "tapa" o punhado de livros muito bons publicados por autoedição em POD. Porque, segundo diz, torna difícil separar o trigo do joio.

Aqui discordo. Se houver uma descrição do livro, de preferência escrita pelo autor, e se houver uma antevisão do livro disponível gratuitamente (e normalmente há ambas as coisas), parece-me bastante fácil encontrar as agulhas, ou pelo menos rejeitar a palha. Reparem nas seguintes sinopses. São as sinopses dos livros de ficção científica e fantástica que encontramos no mais popular dos "nossos" serviços de POD (nossos está entre aspas porque uma boa parte do site está em espanhol), o bubok. Algumas, as mais longas, estão abreviadas. Numa delas omitiu-se um par de nomes de autores e o título de outro livro. De resto, está tudo rigorosamente tal e qual como aparece no site:

  1. David Young tem uma missão numa cidade estranha.
  2. Num tempo em que as pessoas buscam a tão sonhada tecnologia, um homem irá descobrir um mundo em que a sua formação é a tecnologia. Ele descobrirá um novo mundo, onde perigos e aventuras são as coisas que o esperam.
  3. Genius é um cientista norte-americano que condicionou-se à esquizofrenia e aceitou parte da doença por querer ver seus amigos imaginários. Estes, eram os maiores gênios da humanidade como Albert Einstein, Aristóteles, Leonardo da Vinci, Charles Chaplin, Darwin, William Shakespeare, Confúcio e Santos Dumont. Mais tarde, ele descobre um espelho no qual acredita viajar no tempo por ver seus amigos tão reais dentre outras descobertas e pessoas de forma surpreendente. Descubra, em diálogos baseados no que estes gênios disseram e nos deixaram como herança, além de conhecer profundamente suas vidas, necessários a todas as pessoas, sejam quais forem seus erros, expectativas e experiências.
  4. Há 2000 anos atrás um jovem filosofo descobrira a magia e o seu poder destrutivo mas também curativo, receoso que esses conhecimentos se perdessem, escreveu todos os seus segredos num livro, um livro que com o passar da décadas se tornou muito cobiçado por toda espécie de feiticeiros até se lhe perder o rasto. O Livro Mágico fora mais tarde descoberto numa escola de magia em Orion, terra de feiticeiros.
  5. Uma colecção de sete contos, incluindo um totalmente escrito em inglês, com base na ficção científica e com salpicos de horror e espiritualidade.
  6. Será que as nossas opções não foram já as opções de outros? Será que os resultados dessas nossas opções não foram também já os resultados para outros? Será que não existem outros modos, outros caminhos?
  7. Para quem vivi seu mundo com sua vida, seja ela: boa, ótima ou quem sabe excelente, já enfrenta uma luta constante, você imagina para alguém que tem sua vida normal no seu cotidiano, e em certo momento se encontra dividida em dois mundos. E o pior, um sendo inverso do outro, em suas ideologias, comportamentos, dia-dia, e até mesmo, visão de seu mundo.
  8. Duas Dimensões irmãs gemeas são separadas por um grande cataclisma, devido este acontecimento nasceram grandes montes, vales e gigantescas montanhas na terra, dentre uma dessas montanhas, uma encobriu o portal que dava o acesso aos dois mundos que agora se mantém paralelos. Um jovem garoto sonhador e que não tinha sucesso com as mulheres depois de uma tragica decepção amorosa passa algumas reviravoltas na sua vida, depois de ter pensado muito e ouvido muito conselho. Logan em meio a nova fase em sua vida agora está diante da sua decepção amorosa e junto de Gabi, Eder e o Dudu o menino de rua, eles descombrem uma grande mina de ouro dentro da Montanha do Destino, ali encontram um lugar resevardo e bem escondio, onde encontram um mapa que os leva até um portal secreto.
  9. Esta historia é de um menino, de 13 anos, ele estudava em sua cidade, pode ser qualquer cidade de tamanho pequeno americana, tinha seus amigos, dois desajustados como ele, que gostavam de ler, não tinha corpo físico para ser um jogador de futebol americano, com seus quase um metro e cinqüenta não pesava mais de 29 quilos, ele adorava escrever, e sua personagem predileta, era uma menina chamada Sheila, ele adorava a fantasia de ter um personagem que fazia o que ele queria, ela era uma feiticeira, que tinha poderes mágicos, era a imagem de uma amiga de infância, mas isto era entre ele e a personagem, ninguém mais sabia.
  10. Por conta de um experimento científico, um homem toma uma vacina que o torna imortal. Quatrocentos anos após tomar a vacina o homem conta sua saga à um Rastejumano, um ser que vive no futuro. Para seu novo amigo o homem conta todas as suas angústias, e a situações que vivenciou como guerras e uma nova divisão mundial.
  11. " ... E Deus disse: Façamos o homem a nossa imagem e segundo nossa semelhança..." O homem é talvez o único animal que tem em suas mãos o poder de desobedecer as leis da natureza e do tempo, criando sua própria evolução. Este salto é inevitável, porém, infelizmente a evolução mental nem sempre anda de mãos dadas com a evolução moral.
  12. Oito amigos de países diferentes, viajam sempre juntos. Mas desta vez algo especial esta para acontecer, o destino do planeta depende deles e desta misteriosa viajem. Eles irão em busca do “ultimo milagre”, uma mudança radical que ira salvar à todos e criar um mundo novo.
  13. Após a derrota de Lúcifer, Roger Hawkins e os quatro Escolhidos continuam a sua luta contra as restantes forças de demónios, agora desorganizadas e sem líder. Contudo, Timothy prepara-se para libertar um grupo de poderosos e antigos demónios, que ameaçam colocar a civilização humana em risco, ao mesmo tempo que continua a sua demanda para ganhar poder e libertar Lúcifer...
  14. “Então, é assim... A escuridão mostra, finalmente, a sua face. A face da covardia e da insanidade. Mas agora, a coragem de poucos faz com que o grande corruptor sinta, no ar, somente o cheiro do medo de seus próprios soldados. E são esses poucos que avançam na direção de muitos, contrariando a lógica... É verdade que, nem sempre, as lutas serão travadas nos campos, planícies e montanhas deste mundo... mas no coração de cada um. E esses poucos venceram o medo... Venceram a corrupção da alma... Venceram seus próprios desafios. E eles acreditam, apenas, em poder vencer, agora, a batalha que não pode ser vencida. Por muitas e muitas centenas de anos, eu nunca presenciei tamanha bravura contra o impossível... Eu sinto isso na minha alma e na minha carne. O coração de meu filho ainda bate nessa planície e repete, para mim, o que já foi dito... Que haverá, sim, um tempo para a paz. Mas que, também, haverá um tempo para a luta. E para essa, agora, e para esses bravos que ousam ser mais do que eles mesmos, eu me rendo.”
  15. NOSSA IDEIA de uma antologia de contos sobrenaturais e fantásticos, com toques de romantismo, deu realmente muito certo. Dois meses após o lançamento da primeira antologia em e-book, [...], agora estão de novo reunidos alguns dos autores do primeiro livro, e duas novas autoras: [...].
  16. A IDEIA DE UM e-book de contos sobrenaturais, escrito por novos autores que publicavam na internet surgiu de repente. Alguns autores já publicaram antes, outros estão inaugurando aqui sua entrada no mundo da literatura e da internet. Sempre publicando independentemente, os novos autores buscavam soluções para expor seus trabalhos, seja publicando em sites especializados em literatura de ficção, seja publicando em blogs ou comunidades do Orkut. Pela primeira vez, resolveram lançar seus trabalhos juntos, em um único volume e essa foi, sem dúvida, uma boa ideia.
  17. Niagrin Campus não passava de um adolescente normal com algumas divergências familiares até que um estranho acontecimento altera o rumo da sua vida, para sempre. Perdido numa aldeia de aspecto medieval, Niagrin encontra-se com uma estranha rapariga que juntamente com o seu avô, apresentam-lhe uma nova realidade, um novo mundo, Niagrin depara-se com a existência de uns cristais mágicos com poderes ilimitados, capazes de dominar tudo o que anda sobre o solo, num remoto reino que é governado por uma cruel e implacável feiticeira e é a ele que é atribuída a missão de salvar o reino de todo o mal.
  18. Tudo parecia demasiado marcado pelo tempo; tempos que não queriam ser relembrados nunca mais. Apenas apelava para que não sofresse e, a partir daquela idade, fosse tudo mais calmo; já era a recta final. Mas o sonho não a levou para essa recta tão delineada pelo passado tumultuoso; levou-a de novo à partida - onde tudo era simples, sem dor e onde a vontade de vencer predominava. Depois de percorrer aqueles vastos caminhos, livídos e desconhecidos, encontra finalmente o destino do dia 25.
  19. A viagem às montanhas do Tibete iria trazer-lhes mais desafios que os que esperavam. A ideia de que alguém podia matar apenas com o olhar, era dificil de aceitar e de enfrentar.
  20. Em contos curtos de fantasia, o autor procura deixar ao final deles, um despertar para a realidade de que todos somos responsáveis pelo equilíbrio ecológico da Natureza e pela salvação do planeta Terra.
  21. Fora do cânone literário tradicional, o Sol e a Lua é uma obra entre a fábula psicanalítica, a alegoria mística, a epopeia cibernética e a utopia milenar. É uma viagem pelos lugares da mente numa ausência ou relativização de tempos e espaços. O Sol e a Lua debruça-se sobre duas questões.Uma de ordem semântica : O que é o mundo? E outra de ordem epistemológica: Como aceder a ele? As possiveis respostas encontre você mesmo nestas ficções...

Para quais destes livros olhariam uma segunda vez? Basta avaliar os erros de português para excluir imediatamente uma proporção significativa, não é? Quando nem a sinopse está escrita em português correto, o livro é de certeza palha. E reduz-se mais um pouco quando, ainda que formalmente correto, o português é atabalhoado ou básico. Cortemos então essas sinopses. Ficamos com os números 1, 5, 6, 13, 15, 16 e 21. De vinte e um trabalhos restam sete, sem ser preciso mais do que olhar para o fraco português das sinopses, sem ler sequer uma linha dos trabalhos propriamente ditos. Destes sete, outros serão excluídos com igual facilidade após uma leitura rápida de umas quantas linhas do miolo, de novo bastando uma análise à qualidade do português. E assim se faz a seleção. É difícil? Nada. Consome algum tempo, mas quem resiste à ditadura do best-seller e das modas literárias e vai às livrarias à descoberta está habituado a perder algum tempo a folhear, a ler uns trechos aqui, umas contracapas ali, umas orelhas acolá. Não é nada de novo, só o meio é diferente.

Ou seja, se houver livros muito bons editados independentemente em edições POD ou ebook, eles acabam por vir à tona sem grande dificuldade, por um simples processo de eliminação. Desde que as pessoas tenham a capacidade de olhar para o livro e não para o modo como foi publicado. Desde que as pessoas evitem as ideias preconcebidas. O problema, quanto a mim, está mais aqui. Se no mundo da música tem havido a capacidade para evitar os preconceitos no que toca à edição independente, analisando-se a qualidade da música em si mesma, tendo-se mesmo chegado ao ponto de levar alguns discos independentes aos tops, no da literatura não tem. Pelo menos em Portugal. O meio é demasiado preconceituoso e presunçoso para fechar os olhos aos nomes (seja da editora, seja do autor, seja da forma de impressão ou formato, seja do que for) e focar-se realmente no conteúdo. É por isso que muitos patetas falam dos livros sem os lerem, baseando-se apenas nos géneros, nas editoras onde eles foram publicados, em tudo o que nada tem a ver com literatura. É também por isso que a implantação do ebook está tão atrasada no nosso país relativamente a alguns dos outros. E é por isso que pouca gente com algumas ambições literárias tem a coragem de avançar para autoedições. Porque num meio tão cheio de peneiras parvas como o nosso é mesmo preciso ter coragem.

E é pena. Porque isso contribui para não termos uma edição regular em géneros como a ficção científica, especialmente no que toca aos contos. É sabido que contos se vendem mal. A FC, pelos vistos, também tem passado as últimas décadas a vender-se mal. Por conseguinte, contos de FC praticamente não vendem. Ou seja: a autoedição em POD seria o veículo ideal para a edição de coletâneas de contos de FC em Portugal. Mas ela não se faz. E essa ausência de edição regular contribui não só para não existir um público, como também para não existir produção. É uma pescadinha de rabo na boca que muito pouca gente (nenhuma, se calhar?) parece estar interessada em desenrolar. Entre os autores com algum nome no nosso país só posso apontar para um caso, uma tentativa que vai mais ou menos nesse sentido: o Luís Filipe Silva, que disponibilizou gratuitamente em ebook a sua velha coletânea premiada O Futuro à Janela (e é provável que só o tenha feito por ser um livro premiado, portanto sem nada a provar a ninguém). E mais nada.

Cá para mim, devíamos aprender alguma coisa com os nossos colegas produtores culturais ali do bairro do lado, o da música. Era capaz de nos ser mais proveitoso do que ficarmos eternamente sentadinhos à espera de quimeras. E queixando-nos, queixando-nos muito.

5 comentários:

  1. É bem verdade o que o Candeias diz, infelizmente, e principalmenten o que à FC se refere. Neste momento no forum Bang preparo a leitura conjunta do livro do Luís Filipe Silva, "O Futuro à Janela" para mostrar que existem bons livros nesse formato, mas em especial para não deixar cair no esquecimento um grande livro que faz este ano 20 anos desde que ganhou esse mítico prémio que era o Prémio Caminho de FC.
    Já cá faltava outro prémio desses, mas o da Bang "falhou" por falta de qualidade, portanto...
    Bem divago demais.
    Um bom texto, dos quais se precisam mais, não são a solução por si só, mas são um principio.

    Um abraço

    Marco Lopes

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  2. Olá Sr. Jorge Candeias,

    Sei que esta não é a abordagem mais indicada para fazer esta pergunta, mas visto que não consigo encontrar um mail seu que seja adequado não vejo outra solução. Gostaria de publicar uma obra de Ficção Científica recorrendo ao processo de auto edição, no entanto, não tenho encontrado nenhuma entidade editorial que satisfaça o mínimo das minhas intenções. Para ser sincero sinto-me completamente perdido e sozinho. Já entrei em contacto com algumas das grandes editoras portuguesas mas sem sucesso. Nenhuma tem intenções de publicar autores de ficção científica portugueses, muito menos autores sem reconhecimento. Se me pudesse iluminar o caminho para o processo de auto edição, mesmo com a mais fraca das candeias que dispusesse, ficar-lhe-ia eternamente grato. O meu e-mail é ruifrvaz@gmail.com

    Cumprimentos,

    Rui Vaz

    P.S.: Parabéns pela sua tradução do livro Duna. A leitura em português foi tão apaixonante quanto seria em inglês, o que é raro.

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  3. Rui Vaz, o email está ali no blogue, do lado direito. Não está clicável nem apanhável por spambots, há que reconstruí-lo, mas é aquele e funciona.

    Quanto a entidades que satisfaçam as suas intenções, sem saber quais são elas não me parece que possa ajudá-lo. Há várias empresas que imprimem em print on demand por aí, tanto nacionais como estrangeiras. Já vi livros da Lulu e, quando saem bem, são bons livros no que ao objeto em si diz respeito. Nem sempre saem bem, mas tenho boas experiências com reenvios de material defeituoso. As outras não conheço em primeira mão.

    E quanto ao Duna, obrigado.

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  4. Olá novamente,

    Enviei-lhe um e-mail para jorge[arroba]ficcao[ponto]com[ponto]pt com um conteúdo mais aprofundado sobre aquilo que pretendo.

    Cumprimentos. Rui Vaz

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