quinta-feira, 28 de julho de 2011

Lido: O Canto da Sereia

O Canto da Sereia (bib.) é uma longa noveleta de Júlio Dinis, ambientada entre pescadores na costa do Furadouro, na região de Aveiro. É das tais obras a cuja inclusão na literatura fantástica eu torço o nariz, embora os estudiosos da coisa tendam a metê-la lá. A mim parece um conto que mistura um certo ambiente quase neorrealista (foca-se nos humildes pescadores, com as suas conversas, os seus problemas, a sua sabedoria e os seus mitos) com um enredo bem romântico. Um jovem pescador perde-se de amores (muito inverosimilmente, diga-se) por uma voz que lhe chega do mar em noites tormentosas. Esse canto, que a superstição dos pescadores atribui a uma sereia, vem a descobrir-se que pertence a uma estrangeira rica e excêntrica que gosta de sair para o mar quando pessoas mais sensatas recolhem a terra. Ou seja: o fantástico que poderia existir no conto revela-se bem mundano, e nisso o autor não deixa lugar a qualquer dúvida. Não percebo, portanto, porque se inclui esta obra na literatura fantástica portuguesa. E não concordo com essa inclusão.

Independentemente destes considerandos mais ou menos bizantinos, a noveleta abre lenta e segue lenta, com muitos sentimentos superlativos, diálogos que oscilam entre o popular e verosímil e o inverosimilmente burilado e o desfecho trágico que se prevê desde o início. Provavelmente agradará a leitores mais dados a romantismos. Pessoalmente, achei chato, muito chato. Tragédias de faca e alguidar não são para mim. Prefiro as minhas tragédias mais terra-a-terra.

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