quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Uma breve nota sobre feriados

Pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos.

Tenho uma opinião sólida sobre a questão dos feriados, e é a seguinte: Portugal é um país laico. Como tal não devia ter feriados religiosos, a menos aqueles cuja comemoração esteja tão entranhada na cultura do país que se estende muito para lá do simples âmbito religioso. Há um, e só um, feriado religioso nessas condições: o Natal. Os outros deviam ser simplesmente suprimidos. Todos. Não porque seja preciso trabalhar mais, não por causa da economia ou da crise, mas simplesmente porque Portugal é um país laico que, como tal, não deve promover nenhuma religião, mas sim dar igual liberdade a todas elas e aos crentes de todas elas para prestarem culto quando e como muito bem entenderem. É isso que significa ser um país laico. E não é com feriados católicos que há liberdade religiosa.

O que isto também significa é que os crentes da religião X devem ter a liberdade de se ausentarem do local de trabalho quando existirem motivos (o tal culto, obviamente) sem sofrerem penalizações por isso, a menos que se entre no exagero. Isto deve incluir, claro, as datas de relevo para católicos, mas também os períodos de oração dos muçulmanos, dos judeus, dos protestantes, do diabo a quatro. Liberdade religiosa é isso. Seriam faltas justificadas. Compensadas noutras alturas, mesmo que parcialmente? Com horários adaptados a cada pessoa em concreto? Provavelmente, sim, até para evitar a tentação dos chicos espertos descobrirem de repente profundos sentimentos religiosos onde horas antes só existia interesse próprio.

Agora, quanto a mudar feriados de lugar para evitar pontes, é ideia imbecil típica deste governo de idiotas. As pontes só existem porque as entidades patronais as autorizam. A começar pelo próprio Estado. Não são um direito, são uma benesse que se dá aos trabalhadores. Nada impede que deixe de se dar, já, essa benesse, sem sermos todos obrigados a comemorar o 1 de maio a 2 ou a 3. Mas não tenho dúvidas de que, precisamente porque é ideia imbecil típica deste governo de idiotas, terá grande apoio popular. Afinal, foi o povo quem elegeu este governo de idiotas.

E era isto. Voltem lá aos vossos afazeres que eu tenho um livro para traduzir.

9 comentários:

  1. Aplaudo a tua acutiläncia!

    Essa das pontes é de morrer a rir para os habitantes das regiöes nórdicas. Quem quer "fazer ponte" tira o dia de férias, é simples. Imaginas a perplexidade quando souberam que no Portugal que estava à esmola por causa da dívida e o Estado deu "toleräncia de ponto"...

    Mais acrescento: quereis celebrar a vossa religiäo? Compensai com mais horas de trabalho nos outros dias e/ou tirai dias de férias. E pronto.

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  2. Apraz-me ver alguém com conhecimento de causa sobre as liberdades nórdicas, países de religião oficial e onde a tolerância é bem mais patente do que nos países do sul.

    Efectivamente, nos países nórdicos existe os chamados feriados móveis. Não porque se desloquem, mas antes porque os trabalhadores podem optar por trabalhar naquele dia e gozar o feriado noutro.

    Infelizmente em Portugal confunde-se muito estado laico com estado ateu. É normal. Para muitos dos ateus laicismo confunde-se não com o respeito por todas as religiões (até a deles), mas antes por um ataque feroz a tudo o que seja sentimento religioso.

    Certamente para os portugueses feriados como o Carnaval não estão entranhados (origem nos cultos pagãos) e a Páscoa é aquela semana que passam bem sem ir "à terra".

    E quem quiser falar de feriados católicos, por comparação com feriados protestantes, dias como o Pentecostes e a Ascensão do Senhor, que "numericamente" coincidem com segundas-feiras, são religiosamente contemplados nos calendários de trbalhadores nórdicos. Pessoalmente nunca tive tanto feriados como quando vivi na Noruega, mas claro que isso sou eu que não sou nenhum laico à portuguesa...

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  3. Na Suécia e Finländia os feriados móveis säo celebrado no Sábado seguinte. No tempo em que isso foi imposto o Sábado era dia laboral. Hoje em dia isso quer dizer que os feriados religiosos móveis deixaram de existir, a näo ser para os horários dos transportes públicos e lojas.

    A Noruega é diferente, pois tem religião de Estado (esse resquício obscurantista acabou na Suécia já em 2000). E embora näo concorde com o conceito, só nesse caso aceito que um Estado celebre feriados religiosos obrigatórios. Em Portugal um Estado laico impöe feriados religiosos em dia determinado, enquanto na Noruega um Estado religioso dá a escolher... temos o Mundo ao contrário! Agora näo acredito é que tenham mais feriados que em Portugal (12 x 14). Têm é mais dias livres no total do ano, porque em vez de terem feriados dispersos têm mais dias de férias. Isso sim.

    Laicismo para mim é näo impor ritos religiosos a ninguém. A religiäo é para se praticar individualmente. Por isso, se quero ter tempo para mim próprio, tiro férias quando quero, e näo quando o representante do Esparguete com Almöndegas Voador mandar!

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  4. Gostei do artigo mas tenho que apontar o seguinte:


    "O que isto também significa é que os crentes da religião X devem ter a liberdade de se ausentarem do local de trabalho quando existirem motivos (o tal culto, obviamente) sem sofrerem penalizações por isso"

    Não.

    Se o estado é laico, a religião não tem estatuto de excepção - não pode ter. Se tem, não é um estado laico, certo?

    Outro exemplo para além dos feriados:

    Os putos nas salas de aula não podem usar chapéu, boné, etc? Então também não usam burkas ou lenços ou qualquer outro objecto que possam pôr na cabeça, mesmo que religioso.

    A religião ~não pode ter~ carácter de excepção. Senão estamos a fazer de conta.

    Cumprimentos.

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  5. Não concordo. Acho que a religião, por ser tão central na vida de tanta gente, deve ter até certo ponto estatuto de exceção. Não pode é ser imposta nem promovida pelo Estado. Se alguém quer ir para a escola com um fio com uma cruzinha lá pendurada, com um barretinho judaico ou até com um chador, deve ter essa liberdade; a Escola em si é que deve ser completamente neutra em termos religiosos. Tal como o resto do Estado.

    Eu equiparo a proibição das burcas à proibição das minissaias ou dos calções. Se aceitamos uma temos de aceitar a outra, e não estou disposto a isso.

    Quanto às saídas do trabalho para ir tratar das coisas da religião, se ajudar, encare-a como uma dispensa por doença. ;)

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  6. Estamos a falar do estatuto de excepção ~imposto pelo estado~, certo? Não do estatudo de excepção que cada um atribui à religião.

    Pessoalmente não admito que pessoas religiosas defendam publicamente um estatuto de excepção e direitos especiais para si ou para o seu culto. Isso é anti-democrático e inadmissível.

    Se alguém quer ir para a escola com um barretinho ou o que quer que seja, que vá. Mas agora, TODA a gente pode ir com um barretinho ou uma cruz satânica ou o que quer que seja - não têm direito a estatudo de excepção.

    Não pode dizer que é contra o estatudo de excepção imposto ou promovido pelo estado para em seguida vir defender que as escolas permitam esse estatudo. As escolas públicas são do estado, certo?

    A escola não é neutra se permite que alunos religiosos tragam as suas indumentárias coloridas proibindo outros alunos não religiosos de trazer as suas indumentárias coloridas.


    Não, não ajuda. Ora bem que falamos a sério ou falamos na brincadeira.

    Esta não é uma questão de somenos importância para ser espartilhada e analisada com filtros diferentes consoante a situação.
    Senão estamos a fazer de conta.

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  7. Sim, é para todos. Todos devem ter o direito de ir para a escola como quiserem dentro dos limites do decoro. Faz parte da liberdade individual. O problema está em definir exatamente onde se ultrapassa a fronteira do decoro, e não existe resposta fácil, clara e consensual para isso. Toda a gente concordará que ir-se nu as ultrapassa, mas tirando esse caso particular a coisa torna-se difusa.

    Quanto à seriedade, meh. Sisudez demasiada faz mal à saúde. E muitas vezes é precisamente disso que se trata. Há pessoas para as quais a prática religiosa é fundamental para o seu equilíbrio psicológico. Devem ter o mesmo direito a ausentarem-se do local de trabalho como qualquer paciente quando for fazer tratamento. Nada mais simples.

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  8. Seriedade =/= sisudez

    Cada um pode fazer o que quiser, desde que não exija direitos especiais para o grupo a que pertence.

    Se um grupo X exige que as suas crianças possam usar chapéus ou tendas na cabeça, quando os regulamentos das escolas públicas o proibem, então o grupo X está a exigir direitos especiais.

    Nenhum grupo pode usufruir de tais direitos apenas porque fala directamente com não-sei-que-divindade.

    Se as pessoas que padecem de religião precisam de fazer este ou aquele feriado para re-equilibrar os níveis de disparate, façam-no como a restante população - marquem férias. Não, não têm direito a dias especiais.

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  9. Se as regras da escola o proíbem são estúpidas. As regras francesas a esse respeito, por exemplo, são duma cretinice atroz, já para não falar da forma fascizante com que atentam contra a liberdade individual.

    E ainda ninguém precisa de marcar férias para se tratar, felizmente. Com este governo, não me admirava que fosse a próxima ideia genial a sair daquelas cabeças cheias de lixo.

    E pela minha parte encerro o debate. Começa a andar em círculos, o que quer dizer que não vai a lado nenhum.

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