quarta-feira, 25 de abril de 2012

Do provincianismo pacóvio

O provinciano pacóvio tem uma porcaria de casa, suja, pobre, desmazelada e desarrumada, mas que inclui uma linda (acha ele) sala de visitas cheia de bibelôs, mobília de mogno e a omnipresente estante envidraçada que contém as duas ou três pratas e porcelanas que foi conseguindo arranjar por portas travessas e com grande sacifício, destinadas a mostrar uma prosperidade que não existe. Nunca ninguém vai a essa sala, exceto quando há visitas, não vá calhar partir-se alguma coisa, riscar-se o tampo da mesa, sujar-se alguma almofada de alguma cadeira, acontecer algum outro desastre do mesmo tipo, cair o Carmo e a Trindade. Nunca, exceto uma vez por semana, para limpar, sacudir o pó e as teias de aranha, mantê-la "apresentável".

O provinciano pacóvio só se preocupa com uma coisa: parecer. O centro da sua vida é a imagem externa e, para arranjar uma imagem externa que seja consentânea com aquilo que pretende aparentar, entra em tais contorcionismos que para qualquer pessoa com coluna vertebral seriam um prodígio dos mais prodigiosos. Mas o provinciano pacóvio desembaraça-se com desenvoltura, pois não passa de um molusco de corpo mole, sem qualquer vestígio de espinha.

O provinciano pacóvio não é, obviamente, exclusivo da província. O seu provincianismo é um estado de espírito e uma filosofia de vida, uma verdadeira ideologia. Na capital há tantos provincianos pacóvios como na província. Ou mais, quiçá. Mas é um sinal de atavismo. Já nos textos de Eça, com século e meio de existência, se encontram precisamente os mesmos provincianos pacóvios que nos rodeiam hoje em dia. E até em alguns dos de Gil Vicente, bem mais antigos. É um nacional atraso de vida, uma velhíssima erva daninha com raízes bem profundas, e que para piorar as coisas tem a irritante tradição de invadir todo o tipo de "elites" neste desgraçado país.

Estou, claro, a falar do Cavaco. E de todo o nosso governo atual, sempre tão obcecado com o que os estrangeiros vão pensar. Ambos, vai-se tornando cada vez mais claro, herdeiros diretos do mais pacóvio de todos os regimes, o salazarismo.

Mas o provincianismo pacóvio não é exclusivo da política, muito longe disso. Aparece por todo o lado, neste país cheio de provincianos pacóvios, mais preocupados em parecer prósperos e competentes e tantas outras qualidades do que em realmente fazerem um pequeno esforço para serem prósperos e competentes, para terem de facto essas qualidades. Para o verem, até, talvez, em vós próprios, basta abrirem os olhos.

Pois é precisamente essa a sugestão que vos deixo neste 25 de Abril de 2012: abram os olhos.

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