sexta-feira, 25 de maio de 2012

Steampunk: o que há num nome?

Andei muito tempo com cócegas para escrever um post sobre o que raio é, ao certo, o steampunk, mas a preguiça falta de tempo livre falou mais alto. Hoje, contudo, conjugaram-se dois acontecimentos que me libertaram um pouco os dedos e a massa cinzenta: acabei a última tradução (guardem os foguetes, que ainda me falta revê-la) e apareceu-me nos feeds um link para uma página que mostra fotografias de umas tais "esculturas de aranha steampunk". Deixando de parte o desconfortável facto de algumas das ditas aranhas terem seis patas em vez das oito que são de praxe em qualquer aracnídeo que se preze (a única exceção é o Homem-Aranha, mas isso é, suponho, por ser um híbrido... e sim, estou a gozar), a questão é que várias dessas esculturas são apenas bonecos articulados, sem rigorosamente nada que faça lembrar por mais remotamente que seja o steampunk... a não ser que, agora, tudo quanto seja mecânico tenha obrigatoriamente de levar com o rótulo de steampunk na testa.

E bem sei que este post não vai servir de nada. Bem sei que a força de quem encara o steampunk como uma simples estética e não vai mais fundo do que isso é irresistível. Bem sei que para a grande maioria steampunk é latão, couro, goggles e rodas dentadas e disso não passa. Mas como o facto de saber que para muita gente ficção científica é Star Wars e Star Trek nunca me desencorajou de tentar explicar que não é, não será uma coisa tão insignificante como a força dos números que me demoverá de explicar o que eu acho que steampunk realmente é.

Para isso, mergulhemos num pouco de história.

O termo, inicialmente, pretendeu ser uma paródia sem mais pretensões. Parodiava o ciberpunk (daí o elemento "punk" no nome), e foi inicialmente usado para identificar um conjunto restrito de obras algo limítrofes entre a FC e a fantasia, que tinham em comum ambientar-se em versões alteradas da era vitoriana e serem inspiradas pelo trabalho de grandes autores de ficção científica do século XIX e do início do século XX, em particular Júlio Verne e H. G. Wells. Mas o livro que pôs o termo nas bocas do mundo e que, a meu ver, definiu uma versão algo mais "pura" de steampunk foi The Difference Engine, de Bruce Sterling e William Gibson, não por acaso dois dos principais cultores do ciberpunk.

Ora, The Difference Engine é em vários aspetos diferente das obras a que o termo foi inicialmente aplicado. Trata-se de um romance de história alternativa sem elementos fantasiosos, que postula um desenvolvimento mais precoce de certas tecnologias e desenvolve as consequências que esse desenvolvimento teria sobre a sociedade da época. Da época vitoriana, sim, mas parece-me mais relevante pensar nela como a época do vapor, na qual as tecnologias que seriam predominantes a partir do século XX estavam apenas no começo. Afinal, o género chama-se steampunk, não victorianpunk.

E é aqui que o steampunk que me interessa realmente vai beber, à abordagem seguida por Sterling e Gibson. Encolho os ombros à estética, viro costas aos corpetes e estou-me nas tintas para o período concreto em que as histórias se passam. Interessam-me duas coisas: a predominância do vapor no que faz mover (literalmente) a sociedade e uma abordagem de história alternativa na qual a precocidade do desenvolvimento tecnológico é fundamental. Ou, por outras palavras, interessa-me que as histórias sejam retrofuturistas e movidas a vapor.

Sim, histórias retrofuturistas e movidas a vapor, se tiverem como cenário a esfera anglófona, acabam por cair com grande frequência na época vitoriana. Acabam por obedecer à tal estética dominada por couro e latão, cheia de cartolas e goggles e maquinaria com os mecanismos visíveis do exterior. Mas, para mim, isso é mera consequência, não o centro da coisa. Até porque se o fosse limitaria o steampunk à esfera anglófona e condenaria quem quer escrever histórias steampunk na esfera lusófona a macaquear o que os outros fazem e/ou a ambientá-las em territórios de língua inglesa ou em mundos dominados pelo Império Britânico.

Sim, esse é um caminho possível. Porque não? Mas, por outro lado, porque raio haveremos de estar limitados a ele?

Como seria uma revolução industrial com início na esfera lusófona, por exemplo? Seria certamente movida a vapor, porque era essa a única fonte energética disponível para revolucionar os meios de produção antes do século XIX. E aqui, nestas duas frases que esboçam um cenário de história alternativa (ou, na verdade, muitos cenários possíveis), reside toda a ideia steampunk tal como foi redefinida por The Difference Engine: temos o retrofuturismo de uma revolução industrial precoce e deslocada no espaço, e temo-la movida a vapor. Mas há algumas coisas que não temos.

Não temos, por exemplo, nada de vitoriano. Com uma revolução industrial nossa, todos os equilíbrios de poder na Europa seriam bem diferentes. A importância do Império Britânico reduzir-se-ia, e uma rainha Vitória, se chegasse a existir, teria muito menos impacto do que teve na história real, e um impacto bem mais restrito à esfera anglófona. As modas seriam diferentes, porque seria um país de clima mais quente a servir-lhes de motor; a própria tecnologia também, pois esta depende não só do período histórico, como dos materiais disponíveis para serem manuseados. Ou seja, toda a estética seria bem diferente... mas o ambiente seria na mesma steampunk. Porque é retrofuturista. E porque a tecnologia predominante é o vapor. Ponto.

E é por isso que me parece um erro que se centre a definição de steampunk em coisas tão volúveis como a estética ou em períodos históricos concretos, o vitoriano ou outro qualquer. A do steampunk ou a de qualquer outro subgénero retrofuturista. Centremo-las na tecnologia dominante. E demos aos autores a liberdade de inovar, não os tentemos cerrar em estreitas baias espaçotemporais.

Porque, se por um lado é verdade que não é o género que determina aquilo que é escrito, por outro não é menos verdade que é muitas vezes o género que determina aquilo que é publicado, e onde, especialmente nos dias que correm, em que as oportunidades de publicação de ficção curta estão muito ligadas a antologias temáticas. Por mais livres que os escritores queiram ser, acabam por ter de se resignar a seguir o tema proposto, ou pura e simplesmente a renunciar à participação. E se isso é por vezes inevitável, no caso dos vários "punks" retrofuturistas não é. Basta seguir o caminho desbravado por Gibson e Sterling.

Sigamo-lo, pois.

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