quinta-feira, 28 de junho de 2012

A minha nota de rodapé nas ciências astronómicas

Quem topar por um improvável acaso com este minúsculo cantinho da vasta internet e, em vez de se ir imediatamente embora, passar os olhos pela longa lista de apelidos que lá se encontra, é possível que repare que perdido no meio daquele matagal de letras se podem ler as seguintes: "J. Candeias."

Sim, sou eu.

Para quem olha para ali e não percebe do que se trata, eu explico. É a publicação científica respeitante à descoberta de dois pequenos mundos, e eu estou listado como co-descobridor por ter colaborado com o projeto Ice Hunters (entretanto fechado), uma iniciativa de "ciência cidadã" que propunha aos cibernautas passarem a pente fino imagens captadas por alguns dos melhores telecópios do planeta em busca dos pontinhos e dos traços que indicam a presença de objetos do cinturão de Kuiper (KBO) ou de asteroides. Ou de estrelas variáveis, a praga do projeto.

Foram achadas algumas dezenas de objetos novos, mas por enquanto só aquelas duas descobertas foram publicadas. Os dois mundinhos têm os "nomes" de 2004 LV31 e 2004 LW31, na velha tradição astronómica de dar maus nomes às coisas. Não se sabe quase nada sobre eles, claro; afinal, acabaram de ser descobertos. Mas já se lhes conhecem as órbitas e a luminosidade, o que permite ter uma vaga ideia do seu tamanho.

2004 LV31 é o mais pequeno e o mais próximo de nós. Orbita o Sol a uma distância média de 43,95 unidades astronómicas (ou seja: quase 44 vezes mais longe da nossa estrela do que a Terra) e dá-lhe uma volta a cada 291 dos nossos anos. Calcula-se que terá uns 30 ou 40 km de diâmetro, embora a palavra "diâmetro" não deva aplicar-se, porque o mais certo será nada ter de esférico. Não deve ultrapassar o tamanho do satélite de Saturno Pandora, mas deve ter uma superfície menos lisa; a de Pandora é suavizada por material que cai dos anéis.

O outro, 2004 LW31, é maior e mais longínquo. Orbita a 46,39 unidades astronómicas do Sol e dá-lhe uma volta a cada 316 anos. Terá entre 75 e 110 km de diâmetro, embora também se aplique ao diâmetro o que disse acima. Ou seja: não deve ser maior que outro satélite de Saturno, Febe, e é bem capaz de ser muito parecido com ele, visualmente falando: deve ter forma de batata e ser pejado de crateras.

Porreiro, hã?

Uma nota: eu não tenho a certeza de ter realmente detetado estes dois mundos em concreto. Sei que detetei pelo menos três novos KBOs, mas parece-me que aquela lista de co-descobridores não se refere àqueles que viram os mesmos objetos que eu, mas sim a todos os que descobriram alguma coisa no decorrer do projeto. Se assim for, é provável que todas as publicações resultantes do projeto venham com o meu nome lá perdido no meio. Já perguntei a quem geria o Ice Hunters se assim é, mas o forte deles não é a comunicação e ainda não obtive resposta. Parece-me, contudo, que tenho razão, e por isso podem vir aí mais notinhas de rodapé. Por um lado acho que é pena: gostava de saber o que foi, ao certo, que vi. Por outro... pá... sou oficialmente um descobridor de mundos! Se isto não é completamente do caraças (sim, é o termo técnico), não sei o que é.

Se quiserem tentar ter também as vossas notinhas de rodapé na ciência, o Ice Hunters tem sucessor. Chama-se Ice Investigators e está aqui. Boa sorte.

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