sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Lido: De Um Lado Para o Outro

De Um Lado Para o Outro (bib.) é uma noveleta de ficção científica de Robert Silverberg que, apesar de um certo anacronismo na premissa básica, ainda se mantém muito bem de pé. Aliás, provavelmente seria aquele conto do livro de que faz parte a granjear mais apreço dos leitores contemporâneos. Porque o cenário que Silverberg nele cria é profundamente distópico e, como se sabe, as distopias estão na moda. Um cenário futuro, localizado no território dos atuais Estados Unidos, mas uns Estados Unidos que fazem parte de um mundo completamente urbanizado e pulverizados numa miríade de cidades-estados praticamente independentes, os distritos. O protagonista é um homem cuja mulher desaparece depois de roubar o programa informático que gere o seu distrito, e que vai ser encarregado de a procurar e recuperar o programa, o mais depressa possível, a fim de evitar a completa desagregação social e económica da cidade.

Trata-se de uma história caucionária sobre a dependência das máquinas de uma sociedade demasiado avançada e complexa para ser gerida por seres humanos, bem como sobre os perigos da sobrepovoação. Não é muito realista — a cidade global, que tem surgido com alguma frequência na FC, sobrestima sistematicamente a proporção de planeta que os seis milhares de milhões que nós somos chegámos realmente a urbanizar, subestima quantos teríamos ser para ocuparmos o planeta inteiro com uma única cidade e também subestima o espaço necessário para a produção de alimentos para toda essa gente. Por outras palavras, o planeta entraria em colapso muito antes de ficar completamente urbanizado. Mas apesar disso, Silverberg consegue tornar a noveleta interessante através de um enredo simples mas chamativo: as peripécias por que o protagonista passa enquanto procura a mulher, movidas a curiosidade pelo que lhe vai acontecer a seguir e pelo motivo que teria levado a mulher a fazer o que fez.

Hoje, o mercado teria obrigado esta história a transformar-se em romance. E provavelmente seria um sucesso. Mas mesmo como noveleta, e pese embora algum anacronismo tecnológico — que é quase inevitável numa história com cerca de quarenta anos — funciona bem.

Contos anteriores deste livro:

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