segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Combate à pobreza, o tanas

Não escrevi nada sobre o caso Jonet porque achei que não valia a pena. O que a mulher disse fala por si, nem precisa de comentários. Mas a verdade é que há uma coisa que me anda aqui a roer e não me deixa ficar calado. Não tem a ver com o que ela disse, propriamente, mas com o que escreveram alguns dos seus defensores. Que também os teve.

Atiram esses defensores, em ar de desafio, com uma ufanada que é expressa mais ou menos nestes moldes: "nenhum desses que criticam a Senhora Dona Jonet (é sempre senhora dona) fez sequer um milésimo do que ela fez no combate à pobreza."

Pois é. O problema é que o que Isabel Jonet fez para combater a pobreza foi, rigorosamente, zero.

Sim, zero.

Porque o Banco Alimentar Contra a Fome e instituições congéneres nunca tiveram como objetivo combater a pobreza. O seu objetivo é outro: não deixar os pobres morrer de fome. Trata-se de um objetivo humanitário e com méritos óbvios, mas não combate a pobreza. Alimenta-a, nada mais. Literalmente e em certos casos também figurativamente.

Sublinhe-se que não é por não servir para o que alguns patetas dizem que serve que a existência do Banco Alimentar deixa de ser coisa boa. É coisa boa. Mais: é uma coisa necessária, mesmo sendo essa necessidade um sintoma de falhanço da sociedade como um todo. Pior: pode vir a ser, graças à destruição sistemática deste país que está a ser levada a cabo pelo governo e pela União Europeia, uma coisa absolutamente indispensável. Mas não combate a pobreza, nunca a combateu, e nunca a combaterá. A sua natureza é outra e a sua utilidade também.

O que combate a pobreza é o desenvolvimento económico. A instrução e a qualificação. Cuidados médicos capazes de evitar ou de adiar a doença e portanto prolongar a vida ativa. Reformas condignas. Apoios sociais que sirvam de almofada para quando tudo o resto falha. O Rendimento Mínimo. E etc.

Isto sim, combate a pobreza. E qualquer pessoa que tenha contribuído de alguma forma para que Portugal tenha estes serviços, nem que seja apenas com o seu voto, fez mais pelo combate à pobreza do que a Jonet. Terá certamente feito menos do que ela para alimentar os pobres, mas para combater a pobreza? Fez mais.

Já agora, estas coisas, tomadas em conjunto, têm nome. Chamam-se estado social. Só para que saibam.

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