sexta-feira, 30 de novembro de 2012

E de repente olhaste-me de volta

Às vezes acontece. Após passar o que parece ser horas às voltas sem conseguir dormir — ainda que por vezes sejam apenas minutos — desisto e ponho-me a remexer nos gadgets que tiver à mão, aturdindo-me com as luzes coloridas para esvaziar o cérebro da porcaria que nele tende a rodopiar nessas ocasiões como roupa numa máquina de lavar em plena centrifugação.

Foi o que aconteceu há dias, e o gadget escolhido foi o tablet. Liguei-o e, após alguns minutos a deambular de um lado para o outro pela App Store, deparei com uma aplicação gratuita chamada AgingBooth. "Olha," pensei de uma forma tão vaga que talvez só tenha pensado em pensar, "isto é capaz de ser giro." E instalei-a, abri-a, testei-a para ver como funcionava, acendi a luz e fotografei-me com a câmara secundária, que no meu tablet é muito mazinha. Eis o resultado:



Depois, claro, disse à app para fazer aquilo que foi concebida para fazer: envelhecer-me, mostrar-me a minha cara daqui a algumas décadas, quando o peso dos anos finalmente me apanhar e me puxar para bem perto daquele momento em que deixarei de ser eu. Não será a coisa mais animadora para fazermos a nós próprios no aborrecimento e silêncio de uma noite de insónia, mas nem pensei nisso. Estava curioso, mais com a qualidade da aplicação, com o modo como iria funcionar, do que propriamente com o resultado. Por isso, pousei o dedo no botão que me iria envelhecer e...



... e o meu pai olhou-me de volta. O meu pai, nos seus últimos anos de vida, como — infelizmente — melhor o recordo.

Pois é, velhote. Toda a vida me disseram que era parecido contigo, mas nunca acreditei tanto nisso como no momento em que vi a tua cara a olhar para mim do tablet. Sim, há diferenças. Mas só reparei nelas mais tarde. Porque reconheço as pessoas principalmente pelos olhos, e esses são iguaizinhos. Iguaizinhos.

Já te tinha ouvido na minha voz, por vezes com um sobressalto, e agora isto.

Olha, sobrevives em mim, essa é que é essa. E feliz aniversário.

2 comentários:

  1. Fiquei com a lagriminha no olho. Pois, também eu sou parecida com o meu pai em tanta coisa... aspeto, personalidade... gosto de pensar que ele vive porque eu sou o que ele me ensinou a ser.

    Um abraço.

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  2. Também eu fiquei com ela no olho quando me apareceu aquela imagem na frente. E depois foi uma inundação de saudade como há muito não sentia. Consequência de ter sido apanhado de surpresa.

    E sim, eles continuam por cá. São em tudo parte de quem somos.

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