domingo, 11 de novembro de 2012

Lido: Invasores Terrestres

Invasores Terrestres (bib.) é um dos primeiros romances de ficção científica de Robert Silverberg, publicado ainda na década de 1950, bem longe, tanto no tempo como no estilo, das obras que o tornaram famoso mais tarde. Trata-se um romance ainda bastante clássico, que ainda nem sonhava com a new wave. Conta a história de um homem, executivo de topo numa empresa de relações públicas contratada por uma companhia de exploração interplanetária para cometer uma fraude de grande escala que poderá levar à subjugação e provável extermínio de uma civilização alienígena. É que a companhia tem interesses mineiros em Ganimedes, mas os ganimedianos (ou ganis) que Silverberg cria não estão dispostos a autorizar mineração no seu pequeno mundo. Logo, será preciso afastá-los. Por quaisquer meios e a qualquer preço.

É o protagonista quem tem a ideia de criar uma base terrestre falsa, habitada por colonos falsos, cuja vida seria disponibilizada aos meios de comunicação terrestres mais ou menos em direto, uma espécie de telenovela da vida real que no entanto de real nada teria. O objetivo? Construir uma relação de proximidade entre os colonos e a opinião pública que pudesse levar a um apoio maciço de uma intervenção militar quando esses colonos fossem atacados pelos ganis. Os quais, obviamente, não atacariam ninguém porque ninguém lá estaria.

Sim, o romance tem conteúdo. É um romance clássico, longe do melhor de Silverberg, mas o leitor não encontra aqui uma das aventurazinhas inóquas e escapistas que era tão comum encontrar na ficção científica da época. Este livro dialoga claramente com o tempo em que foi escrito, um tempo em que a Guerra da Coreia estava bem fresca na memória e havia intervenções americanas periódicas na América Latina, e em que uma parte significativa da esquerda americana — e mundial — sentia que os EUA andavam a tentar manipular as Nações Unidas para servir os seus interesses geo-estratégicos, frequentemente com sucesso. Os invasores terrestres de Silverberg são americanos, com os valores americanos e a organização social americana, que mergulham numa manipulação de larga escala para servir interesses privados, sem pararem um minuto para pensar nas culturas e civilizações que será necessário esmagar para atingir os seus fins. A parábola é clara e está bem conseguida.

Mas apesar disso, não se trata de um bom romance. Não se trata ainda de um romance de um bom escritor, mas apenas de um escritor muito promissor. A concretização dessa promessa deu-se mais tarde, em algumas das melhores obras que a FC deu ao mundo, mas quando publicou este livro Silverberg estava ainda a aprender. O livro, como disse, é clássico, e isso significa que há suficientes clichés na evolução do enredo para tornar o final previsível, apesar de todas as reviravoltas. Não obstante o tom sombrio do ambiente sociopolítico que Silverberg descreve, o herói acaba por sê-lo mesmo e, à boa (ou nem por isso) maneira da FC dos anos 50, resolve todos os problemas com que se depara. No mundo real, quase sempre, só se descobrem as grandes falsificações, as grandes manipulações, quando é tarde demais para evitar a maior parte das suas consequências. Veja-se a guerra do Iraque. Veja-se a crise financeira. Veja-se tantos outros exemplos que eu poderia dar. Mas aqui, não. Aqui ainda há finais felizes.

Bem sei, a FC desta época era otimista por natureza, não só no ambiente tecnológico que descrevia, mas também no social. Mesmo quando descrevia situações que se podem encarar como distópicas, ainda acreditava em heróis capazes de resolver tudo. Bem sei que o tom sombrio de tanta FC moderna, com os seus futuros de pesadelo e os seus anti-heróis, é um dos fatores que afasta dela boa parte do público. Mas a verdade é que o género produziu tantas obras cheias de futuros radiosos que acabou por cair na previsibilidade — o que de resto também aconteceu quando mergulhou nas trevas; também essa novidade depressa se esgotou. E Invasores Terrestres sofre disso e com isso. Quando o herói sofre a epifania que o vai transformar em herói, a história torna-se previsível, e essa previsibilidade não a abandona até ao fim. A consequência é, a meu ver, o romance acabar por ter o seu interesse mas não ser mais que razoável. Bate aos pontos muitos outros romances da época, mas está algo distante dos melhores, e também de romances menos antigos do autor.

Este livro foi comprado.

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