sábado, 25 de maio de 2013

Lido: O Homem que Vendeu a Lua

O Homem que Vendeu a Lua (bibliografia) é uma novela de Robert A. Heinlein sobre um tal D. D. Harriman, empresário e visionário, que tem um sonho: ir à Lua. Americana até à medula, a história é praticamente uma ode ao capitalismo triunfante, se bem que, paradoxalmente, não tenha grande história. Limita-se a descrever as trapaças, falcatruas, revezes (embora nenhum realmente fatal) e jogos de bastidores que Harriman faz, sofre e executa para levar a sua avante. Nunca há, na verdade, a mínima dúvida de que ele vai acabar por levar a sua avante, mais tarde ou mais cedo, ainda que existam algumas subtilezas — as únicas subtilezas que esta história contém, aliás — sobre o que isso significa ao certo, em especial no final.

Personagens? Nem vê-las. As personagens secundárias não chegam sequer às duas dimensões: são simples adereços destinados a serem usados por Heinlein a seu bel-prazer. E também, em grande medida, por Harriman, embora as tais subtilezas de que falo acima não permitam que seja totalmente assim. Quanto a Harriman, tampouco é personagem. É obsessão. É ideia fixa. É um fim que justifica todos os meios.

A única coisa que esta história tem de bom, a meu ver, é a parte tecnológica, tendo em conta que foi escrita em 1950. Heinlein consegue antecipar com sagacidade a maior parte do que viria a ser o substrato tecnológico usado para as viagens verdadeiras à Lua, quase vinte anos mais tarde. Talvez também porque não se perde em grandes explicações, porque nunca ultrapassa a descrição genérica das metodologias, evitando cair na armadilha de transformar a sua ficção num manual técnico mal disfarçado. Isso sim, está bem feito. No entanto, também está já ultrapassado. Já foi feito, e o que não o foi não é possível fazer (naqueles moldes, pelo menos). Que relevância, portanto, poderá ter esta história para os dias de hoje?

A única relevância, parece-me, está na discussão do processo de Harriman. Do que pode ou não pode, do que deve ou não deve ser feito por privados. Ou seja: na parte social da história por contraponto à científica. E esta é a grande pecha da ficção científica que se concentra na ciência, perdendo de vista a ficção. Por mais relevante que possa ser para o seu tempo, depressa deixa de o ser. E se não há mais nada que a faça perdurar, morre.

Penso que esta história não morreu, mas quase, até porque julgo que a discussão dos limites e potencialidades da iniciativa privada não está aqui minimamente bem feita. É simplória. É ingénua. Endeusa algo que, como temos visto com total clareza nos últimos tempos, está muito longe de poder e dever ser endeusado. E por isso é deficiente.

Há sessenta anos, esta foi uma boa história. Não perfeita, mas boa. Hoje, contudo, está muito longe de o ser.

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