domingo, 30 de junho de 2013

Lido: Tendências

Tendências (bibliografia) é uma noveleta de Isaac Asimov datada de 1939, uma das primeiras publicadas por esse que mais tarde se viria a tornar um dos maiores escritores de ficção científica de sempre. Infelizmente, na época em que escreveu esta história, ainda estava algo longe de o ser. A noveleta está cheia daqueles pequenos e grandes defeitos das más histórias de FC: incongruências, personagens a descrever detalhadamente, no futuro mais ou menos longuínquo, acontecimentos históricos que, apesar de se situarem no futuro do leitor contemporâneo, serão do conhecimento comum no seu presente ficcional e portanto não necessitam de explicação detalhada (uma das versões mais daninhas da (falta de) técnica conhecida como "as you know, Bob"), uma prosa ainda menos sofisticada do que é de norma em Asimov, que nunca foi um bom estilista, etc.

E no entanto...

E no entanto, este conto não é realmente mau. Porque não se limita a descrever os sucessos e insucessos de um intrépido grupo de cientistas e técnicos que, contra ventos e marés, conseguem construir e fazer voar um foguete que leva um deles (o cientista-chefe desta vez) até às imediações da Lua e de volta, embora também o faça. Porque é uma história cujo principal fulcro não é a viagem à Lua propriamente dita, mas a relação muito política entre o racionalismo científico e a irracionalidade religiosa, algo que Asimov abordou consistentemente ao longo de toda a carreira, embora muitas vezes de forma mais subtil do que aqui. E essa relação permanece quase tão conflutuosa hoje como há setenta anos, o que faz com que este conto mantenha intacta toda a sua relevância alegórica, coisa rara na FC da época dos pulps. Asimov ainda não seria o grande escritor em que mais tarde se tornaria, ainda não teria adquirido o característico rigor com que abordava a elaboração dos seus enredos, ainda não saberia bem como entregar a informação relevante ao leitor sem incorrer em incoerências, mas o talento já lá estava, e a coragem também. E isso faz com que esta noveleta, apesar de não ser um exemplar realmente bom de ficção científica, também não seja má, e acabe até por ser muito interessante para quem conhece bem e aprecia a obra de Asimov.

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