quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Lido: O Retrato do «Quimbanda»

O Retrato do «Quimbanda» (bibliografia) é mais um conto fantasmagórico de Hugo Rocha que recupera mais um tema antigo neste tipo de história, trazendo-o para a realidade portuguesa e, neste caso, africana: o do retrato encantado. A história é sobre um explorador português que terá percorrido toda a região do "mapa cor-de-rosa". Em tempos, algures no sul de Angola, ter-se-á alojado na cubata de um «quimbanda», chefe de uma tribo que pouco tempo antes teria estado no centro de uma rebelião contra o colonialismo português, severamente reprimida pela tropa colonial. Como é óbvio, o quimbanda não terá achado grande graça a ser praticamente forçado a alojar o branco e terá conspirado para o matar e a quem o acompanhava, mas sem sucesso. E aqui entra o retrato. Este seria um retrato do quimbanda, executado alguns anos antes por um pintor inglês de viagem por aquelas terras. Mas, por algum motivo, o retrato atraía o protagonista de tal forma que ele teve de o levar consigo para Portugal. E assim selou o seu destino.

Talvez haja revelações em demasia no que eu acabei de escrever, mas só para quem nunca leu nenhuma história destas. É que, pormenores à parte, não existe em Rocha grande originalidade. O conto torna-se, assim, previsível desde o início, o que só é realçado por uma espécie de prólogo em que o autor discorre sobre a forma como os retratos que nos olham de frente parecem seguir-nos com os olhos. Mas a verdade é que os pormenores têm algum interesse, especialmente tendo em conta que aflorar a questão colonial em 1969, época de ditadura e de guerra em África, era um ato de coragem. Rocha põe-se, obviamente, do lado do colonizador — de contrário teria certamente tido problemas com a censura — mas não o faz com grande entusiasmo. Há, no seu quimbanda, uma dignidade na procura da liberdade que o legitima. E é isto mesmo o que este conto tem de mais interessante.

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