sábado, 3 de agosto de 2013

Lido: A Tentação do Milagre

A Tentação do Milagre, de Michael Cordy, é um daqueles thrillers comerciais, com as suas tramas convolutas e concebidas de maneira a manter o leitor em suspenso, que vão debicar elementos em vários géneros, fantásticos e não só. Aqui, a base do romance é uma ficção científica de futuro próximo (tão próximo, na verdade, que entretanto já se transformou em passado, ainda que algumas das tecnologias aqui apresentadas ainda não se tenham concretizado), centrada nas pesquisas genéticas que chegaram à primeira linha da polémica quando o Projeto do Genoma Humano foi institucionalizado, no início da década de 1990. Mas é uma FC misturada com algo de policial e com conspirações envolvendo sociedades secretas religiosas, um pouco à maneira de Dan Brown, embora este livro anteceda de vários anos o Código Da Vinci e a explosão de livros do género que se lhe seguiu.

Tudo n'A Tentação do Milagre é concebido por forma a maximizar o impacto e, por consequência, as vendas. O protagonista, um génio da genética chamado Tom Carter, é um dos mais proeminentes cientistas envolvidos na pesquisa das causas genéticas do cancro (e a motivação para isso é, claro, ter perdido um familiar próximo para a doença). Tão proeminente, na verdade, que começa o livro a receber um prémio Nobel. Mas esso é um ponto alto na sua vida que não volta a repetir-se, pois Cordy segue fielmente o receituário do drama que se aprende nas aulas de escrita criativa e vai meter o seu herói em assados cada vez mais instransponíveis. A mulher que é assassinada num atentado que, segundo se vem a descobrir mais tarde, se destinava a matá-lo a ele. A filha, obviamente pequena e indefesa, que herdou de si os genes de um cancro incurável no cérebro. E por aí fora.

A receita é óbvia, mas apesar disso resulta com muita gente. Se não resultasse os best-sellers não o seriam, aliás. Mas comigo, confesso, não resulta. Embora tenha plena consciência de que literatura é sobretudo manipulação, ilusionismo, jogos de mão textuais, a verdade é que quando os fios com que o escritor manipula os seus fantoches estão demasiado visíveis perco o interesse. Por mais solidez que as personagens aparentem ter, se vejo os fios com que são manipuladas e com que, através delas, o escritor procura manipular os seus leitores, simplesmente deixo de conseguir suspender a descrença na história e nas próprias personagens. E foi esse o efeito que toda esta história melodramática à volta do Tom Carter teve em mim... efeito esse que o resto só piorou.

O resto é o arquetípico Antagonista dramático: uma Irmandade secreta cristã, acoitada numa gruta algures no deserto jordano que espera a segunda vinda do Messias. Cristo, ou algo por ele. Essa segunda vinda do Messias é, está profetizado, anunciada pela mudança de cor de uma chama que arde eternamente no interior. E, sim, essa mudança de cor acontece.

Por outro lado, a Irmandade tem também como função autoatribuída a de assassinar aqueles que considera injustos, instrumentos do Demo. E o Dr. Carter, cientista ateu, génio da genética, encaixa-se perfeitamente na definição.

Dados lançados. Carter numa busca desenfreada por uma cura para o cancro da filha, seita assassina cristã numa busca igualmente desenfreada pelo seu messias, assassinos da seita cristã (são dois, mas só um tem real importância na história) a manter constantemente uma espada de Dâmocles suspensa sobre a cabeça do cientista (ou dos cientistas, pois Tom Carter está rodeado por uma equipa de gente talentosíssima e muito dedicada), Michael Cordy lá vai desenvolvendo a sua história, acabando por ir tudo parar a relíquias cristãs, aos genes de Jesus Cristo, a uma espécie de superpoderes curativos, e às consequências da maldade e dos traumas de infância. O final é previsível, porque é o exigido pela receita, pela estrutura dramática que é clara desde o início. Mas até chegar lá, Cordy até se mostra competente nas voltas e reviravoltas da sua história e na forma não inteiramente desprovida de tato com que toca em alguns dilemas morais importantes, conseguindo aparentar doses elevadas de iconoclastia ao mesmo tempo que mantém intacto o caráter especial, embora não necessariamente transcendental, de Jesus Cristo. O fanatismo religioso sai maltratado, mas a religião, em si, não. E a sua tentativa de reconciliar religião e ciência não é desinteressante.

Ou seja, trata-se de um livro que em que muita gente deveria encontrar interesse. Eu nem por isso, mas acredito piamente, se me perdoam o joguinho irónico de palavras, que uma boa proporção do povo leitor de um país culturalmente judaico-cristão como o nosso não sairia indiferente da sua leitura. Porque, apesar de não ser exatamente um bom livro, apesar de não passar de um romance comercial, literatura sem nada de especial, não deixa de ter conteúdo.

O problema é que sofreu uma tradução e revisão tão ridículas que bastam, por si só, para desaconselhar a leitura desta edição. Não há página sem algum erro, não há capítulo sem várias asneiras que só posso qualificar de grotescas. Um trabalho vergonhoso. Um tradutor automático fá-lo-ia melhor. A sério. É assim tão mau. Julgo que, dos livros que já li, só a tradução de Roderick, de John Sladek, é pior que esta. Fujam dela, a menos que queiram aprender o que não fazer.

Este livro foi comprado.

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