quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Lido: Com a Cabeça na Lua

Com a Cabeça na Lua (bibliografia) é uma antologia organizada por João Seixas com o objetivo de comemorar o 40º aniversário da chegada do homem à Lua, através de obras de ficção científica que teriam previsto essa chegada ou de alguma forma estado associadas a essa previsão. Logo nesta premissa a antologia se delimita e limita, pois ela implica incluir apenas obras com mais de quarenta anos de idade, o que é muito tempo, em especial na ficção científica. O resultado é um livro que, embora tenha inegável interesse histórico para fãs do género, dificilmente atrairá quem não o é ainda. Pelo contrário, provavelmente.

Por outro lado, quase se poderia falar aqui de uma coletânea de histórias de Heinlein com algumas histórias de outros autores a servir de acompanhamento, de tal forma dominado este livro é por esse escritor americano. De facto, são quase 200 páginas de Heinlein num total de 412, total esse que inclui, além das histórias propriamente ditas e respetivas introduções, um prefácio e dois interessantes anexos contendo listas de obras literárias e cinematográficas nas quais a presença humana na Lua tem relevo. Há mais Heinlein, portanto, que todos os outros somados. Para quem gosta desse autor, provavelmente tratar-se-á de um pratinho cheio. Para quem não gosta, pelo contrário, é um problema sério. Eu incluo-me decididamente neste último grupo.

Então é má, a antologia?

Não, não é má. Já disse várias vezes e repito-o agora que, para mim, uma antologia vale a pena desde que inclua pelo menos um conto de primeira água ou vários contos bons. E o certo é que esta, embora também inclua dois contos francamente maus (e não, nenhum dos dois é de Heinlein), contém também três contos belíssimos, dois dos quais estavam, tanto quanto sei, inéditos em português até à sua publicação aqui. E isso, desde logo, justifica-a plenamente.

O que Com a Cabeça na Lua é é uma das antologias mais desequilibradas que eu já li. Mesmo com a consistência de Heinlein a servir-lhe de esteio, mesmo com a consistência temporal e temática a aumentar-lhe, em teoria, a solidez, a oscilação de qualidade entre o pior conto (Passeio Lunar, de H. B. Fyfe) e o melhor (Poeira Lunar, Aroma de Feno e Materialismo Dialéctico, de Thomas M. Disch, que ainda por cima vem logo a seguir) é quase brutal. E isso faz com que a antologia também não seja boa.

É uma antologia razoável, que vale a leitura pelos melhores dos contos que contém, e que tem inegável interesse histórico para quem gosta de ficção científica e pretende conhecer o género e/ou para quem se interessa pela história da ciência, pois encontram-se aqui, expressas ou nas entrelinhas, bastantes das ideias mais ou menos comuns sobre a natureza do ambiente lunar antes das sondas e naves tripuladas irem lá estudá-lo in loco. Mas não é, decididamente, uma edição para o grande público, e nem sequer me parece que seja edição para aquele público que tem algum interesse pela ficção científica mas não se considera propriamente fã do género. Para estes, teria sido bem melhor uma escolha mais abrangente de histórias, que misturasse contos e novelas mais recentes ao punhado das melhores histórias que aqui estão contidas. Foram publicados, nos últimos 40 anos, contos magníficos passados na Lua ou nos quais o nosso satélite tem importância fulcral, e que, pela qualidade e pela maior diversidade de temas e abordagens que têm apresentado, são capazes de representar bastante melhor o que a ficção científica pode trazer de bom à literatura. Aqui, temo bem, só uma mancheia de histórias consegue algo de semelhante. E isso deixa-me na boca um certo travo a oportunidade perdida.

Eis o que achei de cada uma das histórias:
Este livro foi comprado.

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