sábado, 21 de setembro de 2013

Lido: Mais do Mesmo!

Mais do Mesmo! (bibliografia), longa novela de João Barreiros é... bem... mais do mesmo.

É mais do mesmo porque é um conto tipicamente barreiriano (e tomem lá palavrão novo), que se conjuga tão bem com o resto do livro como cabra em manifestação de carrapatos. É mais do mesmo porque, à típica moda barreiriana, dialoga ironicamente com os clichés da ficção de género ou, de uma forma mais geral, da dita cultura popular. Neste caso, são os heróis e respetivos sidekicks (que Barreiros batiza de "fiéis companheiros"), tão prevalentes na banda desenhada e em alguma literatura pulp, mas podia perfeitamente ser o pai natal ou os zombies, e quem conhece a obra de Barreiros sabe do que estou a falar. É mais do mesmo porque é ficção científica tingida de horror, como tantos outros contos e novelas de Barreiros. É mais do mesmo porque é autorreferencial até ao âmago.

Mas não é pulp fiction, nem em formato original, nem em pastiche como os demais contos do livro. É uma reimaginação pós-moderna da pulp fiction, à semelhança do filme de Tarantino, entre a homenagem e o gozo a uma certa forma de fazer as coisas. Com esta história, Barreiros está a dizer, julgo que conscientemente, que não se volta atrás. Mas independentemente do valor que ela possa ter, da qualidade intrínseca que apresente, a verdade é que não respeita a proposta do livro, obrigando o organizador a congeminar uma atribulada história de rejeições e reescritas para tentar levá-la a integrar-se. Com sucesso muito parcial pois, se é certo que Luís Filipe Silva conseguiu arranjar uma história razoavelmente credível para esta novela, não é menos certo que, mesmo assim, ela destrói a ilusão que o resto do livro procura criar, quase sempre com pleno sucesso.

Quanto à novela em si, é boa, mas longa demais, e inclui uns disparatezinhos científicos que só passam se forem postos na conta da ironia pulp, pois é bem sabido que na ideologia pulp há que nunca permitir que a realidade se ponha no caminho de uma boa história. Ou pelo menos de um bom enredo. Ou pelo menos de um enredo movimentado.

Fala de um fiel companheiro, cadete espacial, cidadão de uma estrutura política estabelecida na órbita de Júpiter, farto de ser sodomizado pelo seu viril herói, mas que o é iterativamente, vezes sem conta. E também várias vezes morto, entre peripécias dignas de super-heroísmo, pois ele é apenas um de entre uma multidão de clones, capazes de transferir a consciência entre si, ou de a sincronizar. O resultado é confuso, tanto para personagem, como para leitor, e essa confusão só se dissipa (parcialmente) através do recurso a infodumps.

Não é a melhor história de Barreiros, embora também não seja a pior. Mas é uma das duas ou três histórias deste livro que realmente valem a pena ser lidas, mesmo fora do enquadramento desta edição.

Contos anteriores deste livro:

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