sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Reflexãozinha a 100 à hora

Diz-se com frequência que ler expande os horizontes. Que permite tomar consciência de mais mundo para além das limitações da vida de cada um. Que amplifica a capacidade empática, ou a inteligência, ou o potencial de raciocínio. Que, em suma, torna os leitores não necessariamente melhores que os não leitores, mas melhores do que eles próprios seriam se não o fossem.

De uma forma geral, tenho poucas dúvidas de que isto é verdade. E no entanto...

E no entanto tenho vindo a reparar com cada vez maior insistência quão limitados são aqueles que só leem uma coisa, seja essa coisa ficção "literária" ou ficção científica, fantasia urbana ou poesia, relatórios parlamentares ou banda desenhada, textos religiosos ou o manifesto do partido comunista. Quão incapazes eles se mostram tantas vezes de sair dos sulcos que as suas mentes percorrem uma e outra vez e outra ainda, sulcos tantas vezes aprofundados com o aparentemente irrefutável argumento de que "eu li". De que "está escrito". Como se estar escrito contivesse alguma espécie de taumaturgia, como se texto fosse sinónimo de sacro.

Como se ler só uma coisa, ou primordialmente uma coisa só, contraísse os horizontes. Como se reduzisse a empatia, a inteligência, o raciocínio. Como se esse tipo de leitura de foco estreito tivesse o efeito contrário ao que se diz que a leitura, em geral, possui.

Provavelmente é só impressão. Provavelmente, ela até expande os horizontes, embora não tanto como poderia expandir. Talvez amplifique empatias, inteligências e raciocínios, mas menos do que seria possível, ou até desejável.

Ou então, a explicação é outra, e não é a leitura a limitar os leitores, mas as limitações intrínsecas dos leitores a limitar as leituras. Se calhar é mais isso.

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