quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Será recomendável, mandar assim embaixadores às pessoas?

O Goodreads tem um serviço interessante para quem quer promover um livro: pode-se recomendá-lo a amigos ou contactos, e essas recomendações permitem que os que se deixarem interessar adicionem o livro a listas ao estilo de "quero ler" ou "vou comprar" ou até mesmo "coisinha apetitosa do papá."

Quando publiquei Por Vós lhe Mandarei Embaixadores depressa adicionei o livro ao Goodreads e foi com igual velocidade que senti vontade de fazer uso desse serviço de recomendações. No entanto não o fiz, pelo menos por enquanto.

Porquê?

Porque tenho estado a tentar decidir a que tipo de leitor recomendaria este livro.

Provavelmente, não serão poucos os marqueteiros que chegados aqui pensariam: Mas que está este parvalhão a dizer? Como quer vender livros assim? É claro que tem de o recomendar, caraças! No entanto, eu não consigo deixar de duvidar. De que me serve recomendar o livro a alguém que sei à partida que não vai gostar dele? Que utilidade teria fazê-lo? Vender mais livros? Mas para que quero eu vender livros com recomendações inadequadas, correndo assim o risco de alienar prováveis futuros leitores de outros livros meus, dos quais poderiam gostar bastante mais do que deste?

Sim, que eu não escrevo só maluquices...

E assim pensando, cheguei à sequência lógica desta cadeia de dúvidas: ao certo quem teria mais hipóteses de dar por bem empregues as horas gastas a ler este romance?

E cheguei a uma espécie de resposta.

Este romance foi escrito para mim, para me divertir a escrevê-lo. E divertiu. Mais: continua a divertir-me, anos mais tarde, apesar de já o ter relido tantas vezes, à conta das múltiplas revisões que lhe fiz, que quase seria capaz de recitá-lo (bem, há aqui um ligeiríssimo exagero... coisa pouca). Portanto, julgo que há uma elevada probabilidade de que quem se divirta com aquilo que me diverte leia isto com um sorriso nos lábios e talvez até vá soltando de vez em quando umas gargalhaditas. Especialmente se for como eu e, ao olhar para o cerimonial mais ou menos pomposo que está inerente a boa parte da política, o ache fundamentalmente ridículo. Especialmente se acha que boa parte das declarações solenes que por aí se fazem não passam de chachadas sem pés nem cabeça. Especialmente se consegue ver os interessezinhos escondidos por trás dos "valores" de que tanto hipócrita se faz paladino. Especialmente se tiver em si um núcleo de irreverência e subversão. Especialmente se algures no corpo tiver uma costelinha anarca. E muito em particular se costuma achar piada às maluquices que vou debitando ou partilhando nas redes sociais (aqui no blogue nem tanto).

O meu problema quando toca a fazer recomendações é não saber, na maioria dos casos, se a pessoa a quem eventualmente o recomendaria partilha deste tipo de atitude. Desta forma de encarar a parte mais solene e sisuda do mundo como uma grande e mascarada farsa. Daí a hesitação.

Se soubesse que sim, pois recomendaria sem reservas. O livro não será nenhuma obra prima literária, que não é (eu próprio já escrevi coisas literária e conceptualmente mais fortes do que esta) e de resto nunca pretendeu ser, mas é um livro escrito com correção no uso do português — a que, diga-se de passagem, a versão que se mantém online não faz inteira justiça; a do livro físico é francamente melhor — e está carregadinho de referências, piscadelas de olho, subcaricaturas da grande caricatura que nele fiz. Tantas que duvido mesmo muito que alguém as apanhe todas à primeira.

Se não, se não têm sentido de humor ou o têm mas muito diferente do meu, se até gostam de pompa e circunstância, se acham os políticos gente cheia de qualidades, se acham demasiado parva a ideia de terem um ET a ventosar por aí sem que ninguém lhe ligue peva, se consideram um crime de lesa-cultura-pátria que se brinque com Os Lusíadas, se, enfim, acham o respeitinho muito bonito, então aconselho-vos a passarem ao largo. De certeza quase absoluta não irão gostar do meu livrinho. Não percam tempo nem dinheiro com ele. Esperem pelo próximo, que talvez seja mais a vosso gosto.

E isto, reparo agora, deixa-me precisamente na mesma quanto a recomendar, ou não, o livro à maioria do pessoal a que estou ligado lá pelo Goodreads.

Ora bolas.

Já sei! Vou recomendá-lo ao Artur Coelho. Boa! Vamos lá então a ver onde é q... olha, ele já o leu e tudo?! Humpf! Assim não vale.

Adendinha melhor informada - Pois calha que sim, o Goodreads tem um sistema para recomendar livros às pessoas, mas não, os autores não podem usá-lo para recomendar os próprios livros. Desconhecia este piqueno detalhe. O que vale é que a ideia de usar o Goodreads para recomendar o meu livrinho à malta não está no centro deste post. Imaginem se estivesse. Imaginem só.

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