quinta-feira, 22 de maio de 2014

Como decidi o meu voto nestas eleições

Os portugueses têm uma relação doentia com a política e muito em especial com os partidos políticos. Não raro, dizem que “não se reveem” nos partidos e que por isso não participam, como se para participar no processo político fosse necessário ter nas lideranças partidárias espelhos de si próprios. Esta atitude é doentia porque é a raiz dos maiores sectarismos. Alguém que por “não se rever” é incapaz de participar do processo político, vendo todos aqueles em que “não se revê” como igualmente maus, igualmente incapazes ou igualmente corruptos, é alguém que não tem capacidade para colaborar e fazer pontes. É alguém que só entra em esforços unitários por vantagens próprias ou para impor a sua agenda aos outros. E é alguém que, no momento em que encontra algum partido em que “se revê”, algum espelho em que se admirar, perde o sentido crítico para com “os seus” e se encerra com eles numa bolha que exclui todos os outros.

Pessoalmente, tenho uma atitude bem diferente e que me parece muito mais saudável. Não sei bem se não me revejo em nenhum partido ou se me revejo em vários, mas o certo é que isso nunca me impediu de participar, quer com o voto, quer de formas mais profundas.

Consoante os assuntos, tanto me sinto mais próximo do PCP como do LIVRE ou do PAN, ou mesmo, em duas ou três questões, do PS. Na vasta maioria das questões, no entanto, a minha proximidade maior é para com o Bloco de Esquerda. Por isso sou eleitor do Bloco desde a sua formação e por isso aderi ao Bloco há alguns anos. No entanto, estar num partido nunca será para mim sinónimo de apoiar esse partido em toda e qualquer situação. Votei no Bloco em quase todas as eleições desde que o Bloco se formou, mas houve um ou dois casos em que votei noutros partidos ou em candidatos diferentes dos que o BE apoiava.

Isso aconteceu e continuará a acontecer quando as questões mais importantes no momento forem algumas em que tenho divergências com a linha escolhida pelo BE, quando não acredito que os candidatos apoiados pelo BE sejam os mais adequados ou até por questões de voto útil, apesar de só muito raramente achar os “votos úteis” realmente úteis. Estar no partido ou fora dele não muda nada a esse respeito. Estar no partido não implica fidelidade canina. Continuo a pensar pela minha cabeça e a ter opiniões próprias. Sou fiel ao Bloco na medida em que essa fidelidade não violentar a minha consciência e estou no Bloco, também, para o puxar um pouco mais para o meu lado das ideias. Não “me revejo” mais no partido estando dentro do que “me revia” estando fora.

E por isso, decido o meu voto eleição a eleição. Quase sempre no Bloco. Ocasionalmente não.

Este ano, vi-me num daqueles momentos em que divirjo da linha do Bloco numa questão muito importante. A questão essencial da nossa vida coletiva no momento atual e no futuro próximo: o que fazer com a Europa. Portanto estive muito, muito indeciso quanto ao que fazer com o meu voto.

Para explicar porquê e como acabei por me decidir, voltemos atrás.

Fui convictamente europeísta. Achava excelente, e na verdade ainda acho, a ideia duma Europa unida e solidária, na medida em que permitia a todos os países europeus ultrapassar a sua relativa pequenez e criar sinergias que propiciassem o desenvolvimento mútuo, afastando ao mesmo tempo o espectro da guerra, que como sabemos está sempre presente na Europa. Notem que a expressão “Europa unida” não está isolada nesta frase, vem em conjunto com a palavra “solidária”. E é aí que temos o grande busílis dos tempos que correm.

Pois o que a crise económica veio revelar é que a Europa está pouco unida e não é nada solidária. Com o rebentar da crise, a primeira coisa que os países do norte fizeram, liderados pela Alemanha, foi massacrar economicamente os do sul para salvar os seus próprios bancos, ainda para mais atirando-lhes para cima com as culpas por uma crise que foi criada, precisamente, por esses bancos. Convém sublinhar sempre este facto histórico, tantas vezes deturpado: quem criou esta crise foi a grande finança internacional, não o “despesismo” dos Estados.

Ora, ao sacrificarem a periferia europeia, atirando-a aos lobos, assassinaram toda e qualquer ideia de união europeia.

E por isso, eu sou hoje claramente eurocético. Porque uma Europa sem solidariedade não é uma união, é um império. E um império só se mantém de pé com prosperidade ou à força; quando aquela desaparece, desagrega-se, a menos que esta o mantenha violentamente unido. E apenas durante algum tempo, pois a violência só gera as condições para mais violência futura e, tarde ou cedo, o processo termina com uma desagregação tanto mais sangrenta quanto mais sangue for derramado para a evitar.

Uma gigantesca Jugoslávia.

Mesmo a prosperidade nem sempre é eficaz. De nada serve uma prosperidade assimétrica, em que o centro vampiriza as periferias para se manter próspero enquanto estas definham. Pelo contrário: isso só serve para apressar a desintegração ou para aumentar a necessidade de uma brutalidade cada vez maior para a evitar. Impérios pacíficos são aqueles em que o fluxo financeiro se faz ao contrário, do centro (que tem vantagens pelo simples facto de ser centro) para as periferias. Assim, talvez um império europeu funcionasse. Mas de qualquer forma não seria a união europeia que nos foi prometida.

Eu não quero nada disto. Sem verdadeira solidariedade, a UE é um cadáver adiado e quanto mais depressa nos desligarmos dele, melhor.

Mas o Bloco não pensa assim.

Durante muito tempo, confesso, não percebi bem o que o Bloco pensa. Sempre compreendi a exigência de renegociar a dívida, que é correta, urgente e cada vez mais consensual não só em Portugal como lá fora, mas a partir daí o discurso oficial deixava-me confuso. Até que entendi. E, ao entender, decidi o meu voto.

A posição do Bloco é suficientemente complexa para não ser fácil de explicar em meia dúzia de slogans de campanha. O que o BE quer é tentar recuperar a solidariedade, tentar devolver a UE ao seu espírito inicial (ou tentar criá-lo, talvez… talvez ele nunca tenha existido, talvez não tenha passado de uma ilusão). Para isso, quer mais Europa em certas coisas e muito menos Europa noutras. Exemplos? Quer muito menos Europa no controlo antidemocrático das finanças nacionais por via de tratados orçamentais e outras coisas que tais mas mais Europa em coisas como o acolhimento a refugiados e a imigrantes ilegais, que na prática significam um alívio da tensão a que estão sujeitas as periferias por onde essas pessoas tentam entrar. A tal solidariedade.

E quer, caso não seja possível convencer os outros de que se exige muito mais solidariedade para conservar a UE como projeto político minimamente viável, preparar Portugal para todos os cenários.

Foi isto que me decidiu. Porque sei que o abandono do euro ou até da UE não é coisa que se faça sem consequências negativas para nós e que por isso só se justifica quando as consequências negativas de não o fazer são maiores, estou disposto a aceitar que se tente revolucionar as regras antes de tomar medidas drásticas. Mas é preciso estar preparado para tomar mesmo as medidas drásticas, se necessário. Porque estou plenamente convencido de que será. E porque se não estivermos preparados para sair mesmo do euro, ou até, numa situação extrema, da própria UE, não teremos nunca força para a duríssima negociação que é preciso fazer. É esta a grande fragilidade da posição dos federalistas de esquerda: ficam sem opções se a resposta que obtiverem às suas exigências, que na base pouco se diferenciam das do resto da esquerda, for um não. Depois do não fazem o quê? Só podem ceder, não têm outra alternativa. O recuo na integração, seja em que aspeto for, não faz parte dos seus planos.

Até porque numa negociação das duras, entre inimigos (e é esse o ponto em que estamos), é sempre melhor começar por exigir o impossível para obter o possível do que abrir logo com concessões.

O PCP faz um pouco isso com a sua posição de abandono do euro. Cheguei, por isso, a pensar dar-lhes o meu voto nestas eleições. O problema é que tenho enormes dúvidas de que os comunistas tenham a flexibilidade necessária para aceitar o possível se este lhes for apresentado. A história mostra que se há algo que não abunda por aqueles lados é a flexibilidade. E o isolacionismo de que o PCP dá continuamente mostras é contraproducente: a negociação que teremos de fazer é dura o suficiente para precisarmos de todas as alianças que conseguirmos encontrar e o PCP nem sequer apoiou o candidato a presidente da Comissão que foi escolhido pelo Grupo da Esquerda Europeia, de que o partido faz parte.

Portanto não, não é uma opção que me sirva.

Vou mesmo votar no Bloco nestas eleições. De pé! É a escolha mais acertada.

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