quarta-feira, 21 de maio de 2014

Lido: Seis Momentos em Tempo Real

Seis Momentos em Tempo Real (bibliografia), de João Aguiar, foi uma enorme desilusão. Tinha-o em muito boa conta — gostei imenso de livros como A Voz dos Deuses — mas neste conto faz quase o pleno do que sai mal ao escrever ficção curta. É um conto apressado, muitíssimo apressado. Não só porque Aguiar procura encaixar meio século de uma história alternativa em que o Regicídio falha e a monarquia perdura em apenas quinze páginas, mas também porque o faz sem manter um foco claro, antes sobrecarregando o texto de personagens (e de nomes, de muitos, muitos nomes) como se este conto não passasse de um romance esboçado. Até a própria execução dá alguns sinais de pressa: não estava à espera de encontrar num texto de um autor tão experiente a velhíssima e muito desagradável técnica conhecida como "as-you-know-bob", personagens a explicar umas às outras factos que ambas conhecem, com datas e tudo, apenas para "instrução" do leitor.

Acresce a tudo isto, que já basta e sobra para tornar o conto fraco, um retrato de algumas personagens históricas no mínimo distorcido. Toda a família real é retratada como se, em vez de gente de carne e osso, fossem alguma espécie de heróis mitológicos, com destaque para D. Carlos, que, ferido nas costas (no mundo real, ficou morto logo ali), ainda tem tempo de se virar, pegar numa arma e responder ao fogo. Certeiramente. Soem fanfarras: para-pariii.

Enfim. Talvez a desilusão tenha carregado de sombras mais densas a opinião com que saí da leitura deste conto, mas a verdade é que o achei mesmo mauzinho.

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