domingo, 24 de agosto de 2014

O zero à esquerda

Há poucas coisas mais patéticas do que alguém que expõe obra ao público ser incapaz de aceitar quando a avaliação dessa obra pelo público não é a melhor. E quando essa incapacidade de aceitar críticas ultrapassa certos limites, a coisa deixa de ser simplesmente patética para passar a sintoma de desequilíbrios mentais mais ou menos graves. Quando o "escritor" passa a percorrer compulsivamente a internet, à caça de tudo e de todos os que possam ter o desplante de não lhe estender passadeira vermelha e o colocar no pedestal que acha que merece, em estátua equestre e pose heroica e tudo, passando de seguida a tentar intimidá-los para que se calem, a insultá-los para que o insultem de volta e possa depois vir vitimizar-se, apontar dedos, rasgar camisas porque tudo é pessoal, a coisa só se resolve com visitas regulares ao psiquiatra e comprimidos, muitos comprimidos.

E quando nem é preciso que as pessoas manifestem reservas relativamente à qualidade da "obra" para haver intimidação, invariavelmente malcriada, bastando tão-só que não falem dela, por esquecimento ou pura e simplesmente por não estarem para alimentar malucos, então provavelmente nem o psiquiatra resolverá alguma coisa.

Octávio dos Santos levou anos a chatear-me por um motivo ou por outro. O mais comum foi a ausência de uma ou outra das suas "obras primas" no Bibliowiki, como se alguém tivesse alguma obrigação de fazer passar sua excelência à frente das centenas de outras publicações que estão à espera de haver tempo e paciência para as integrar no site. A princípio ainda lhe respondi, depois passei pura e simplesmente a ignorá-lo. Aí, a coisa escalou, e escalou ainda mais por causa do Acordo Ortográfico (o tipo é histericamente contra). Às tantas começaram a aparecer comentários completamente trogloditas aqui no blogue, ao mesmo tempo que um pseudónimo que ou era ele ou lhe imitava perfeitamente a falta de estilo destilava veneno por essa internet fora. Comportamento típico de troll.

Ora, um blogue é uma espécie de casa. Posso não ser o tipo mais arrumado do mundo, mas não estou disposto a abrir a porta a qualquer bestunto que assim que chega escarra para o chão, deita abaixo os quadros pendurados na parede, lança dois ou três insultos ao anfitrião, trepa para cima da mesa da sala, onde larga uma poia, invade o quarto e vomita em cima da cama, e desata depois a berrar que aqui d'el rei que o estão a maltratar quando é posto na rua a pontapé. Portanto, desde esse momento em diante Octávio dos Santos ficou proibido de comentar na Lâmpada, a menos que mantenha a mais absoluta delicadeza. Caso contrário, é apagado. Faria isso com qualquer indivíduo que se comportasse reiteradamente como ele. Mas embora já tenha havido por aqui vários casos de falta de chá, nenhum foi reiterado. Nenhum se prolongou no tempo. Com uma única exceção: ele.

Agora, atrevi-me a não gostar de um conto que a criaturinha pariu. Achei-o muito fraquinho, e na verdade não se percebe como é possível alguém achar muito fraquinho um conto que inclui superlativos exemplos de exímio estilo no manuseio da língua portuguesa como "para desse modo poderem mais facilmente atraírem e recrutarem" (p. 78), entre muitos outros que não cito agora porque não tenho pachorra para passar mais que trinta segundos a catar frases neste opus magnum. Só pode ser má vontade, com toda a certeza. Portanto lá veio o inevitável ataque de caráter, primeiro em comentário, que evidentemente foi apagado, e logo de seguida num blogue de uma pseudo associação, cuja sistemática instrumentalização para vendettas pessoais é bem o espelho da qualidade da criatura, incapaz de separar o que é pessoal daquilo que supostamente está a ser feito em nome de um coletivo, e do miserável estado a que a dita associação chegou.

(A propósito, uma associação, supostamente, não deve ter... associados? Sabem como é? Aquelas pessoas que se... associam? E não tem de prestar contas aos ditos cujos? Os associados daquilo, se é que existem, pactuam com este comportamento? Alguém sabe?)

No meio da diatribe, apercebi-me com espanto e não pouca vontade de rir que uma das coisas que o tipo me ataca por fazer é "revelar o fim do conto." Espanto e vontade de rir porque o fim do conto é óbvio desde a primeira página... ou mais especificamente desde o parágrafo que faz a transição da primeira página para a segunda. E descubro agora que isso não é propositado, que o autor pretendia fazer com que o conto tivesse um final surpreendente. Ou seja, que a coisa é ainda pior do que eu pensei a princípio. Que o tipinho não faz mesmo a mais pequena ideia do que anda a fazer.

Realmente o Santos tem razão e eu tenho de pedir desculpa aos meus leitores. O conto dele não é muito fraquinho. É, isso sim, uma gigantesca porcaria. Que me fique de lição.

E agora que venha a resposta malcriada tão fatal como o destino, que será rigorosamente ignorada. Depois de excecionalmente alimentar o troll, regresso à boa prática de o ignorar. Que é, basicamente, o que toda a gente acaba mais tarde ou mais cedo por fazer.

9 comentários:

  1. Olá Jorge!

    Se me permite, deixo aqui um link para um texto que publiquei, intitulado "Crítica à Crítica ao Crítico", e que, penso eu, cabe muito bem aqui.

    http://lapis-2b.blogspot.pt/2014/05/critica-critica-ao-critico.html

    O texto foi publicado em maio.

    Abraços!

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    1. Eu diria mesmo que cabe na perfeição. :)

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    2. Bem, eu sou suspeito para comentar o que quer que seja, mas penso que o que mais ressalta da tua crítica é que a fazes em tom de aviso à navegação — «amigo leitor, se gosta de história alternativa, cuidado com este autor, pois é um perigoso monárquico subversivo!» — em que o forte da tua argumentação se baseia em discussões sobre erros históricos, mas também não estás isento de os cometeres...

      Obviamente que é também papel do crítico de uma obra literária dar o enquadramento do contexto em que o autor está a escrever. Isso não se coloca em questão. A partir daí, a questão só tem a ver com o tipo de crítico literário que queres ser — objectivo ou subjectivo.

      Se resumisses a tua crítica ao essencial, seria alguma coisa como isto:

      A Marcha Sobre Lisboa (bibliografia) é um conto de história alternativa de Octávio dos Santos, ambientado em 1933, ano em que, na história verdadeira, foi proclamada a constituição fascista que marca o início do período do Estado Novo.

      O conto, que relata uma tentativa de implantar uma ditadura em Portugal, liderada por Salazar e claramente inspirada na marcha sobre Roma de Mussolini, poderia ser interessante se não fossem duas coisas, que se interligam uma à outra: o tom de propaganda e o estilo, sendo que o primeiro se torna óbvio na leitura do conto.

      Quanto ao estilo, caracteriza-se essencialmente pelo abuso da hiperadjectivação e da preocupação por deixar cair «nomes» de pessoas conhecidas sem efectivamente transmitir a personalidade destas personagens históricas, que não aparecem alteradas pelas circunstâncias desta história alternativa, como se alterações da história global das nações não tivessem qualquer influência nas histórias individuais das pessoas que as compõem.

      Em suma: muito fraquinho.


      Isto seria uma crítica mais objectiva, e que poderia depois, por sua vez, ser também objectivamente criticada: por exemplo, a hiperadjectivação poderia ser justificada por se tratar de um pastiche a um estilo popular de imitadores baratos do Eça que existiam na altura; o tom propagandístico é deliberado e forçado, também numa tentativa de fazer o conto de história alternativa parecer ter sido escrito por um propagandista do regime; e as ausências de perturbações nas personagens históricas podem fazer parte de uma tese do próprio autor que é divergente da tua. O autor não apresenta, afinal de contas, uma tese científica; embora existam muitos estudos mostrando que gêmeos separados à nascença, vivendo em ambientes distintos, desenvolvem personalidades e gostos semelhantes — não sendo possível estudar história alternativa em laboratório, é apenas plausível de admitir que o comportamento das personagens possa não sofrer alterações significativas apesar do contexto em que vivem ser diferente.

      E isto poderia, por sua vez, ser igualmente criticado — dirias, por exemplo, que a tentativa de fazer um pastiche aos textos pseudo-literários de exaltação do regime escritos numa linguagem propagandística típica da altura tinha resultado mal (e dizias porquê, mostrando exemplos de textos escritos na altura e comparando-os com o trabalho do Octávio); e apontavas meia dúzia de exemplos de artigos científicos mostrando que também há casos em que gêmeos separados à nascença desenvolvem personalidades diferentes, sustentando a tua tese que em história alternativa, os autores devem mostrar as personagens históricas alteradas pelo contexto, e continuarias a concluir que o conto era fraco.

      A discussão poderia assim continuar... e manter-se-ia uma objectividade quase científica ao longo da discussão, em vez de um rol de ataques ad hominem de parte a parte...

      No entanto, nada te «obriga» a seres um crítico literário objectivo; felizmente temos liberdade de expressão no Portugal real e não alternativo...

      Por isso, podias ter resumido a tua crítica subjectiva a:

      Não gostei do conto. O autor é um idiota. A história é uma porcaria e nem sei porque é que me dei ao trabalho de a ler.

      Resume perfeitamente tudo :-)

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    3. Quando "o forte da minha argumentação", os tais "erros históricos", se resume a duas frases num texto com três parágrafos, facilmente se percebe que essas duas frases não são forte de coisa nenhuma e pouco passam de mero aparte.

      E é precisamente isso que são. Um aparte. Que ainda por cima não se refere diretamente ao conto --- é a única parte do texto que não o faz.

      A conversa sobre os gémeos vem completamente a despropósito. Gémeos idênticos correspondem a um único zigoto, produzidos por uma única fertilização de um único espermatozoide a um único óvulo. Semelhanças de personalidade de gémeos idênticos certamente não chegam ao ponto de os levar a ter orgasmos no mesmo instante para que seja o espermatozoide com a mesma informação genética a fecundar o óvulo. Semelhanças de personalidade não correspondem a semelhanças de vida, e são estas que aqui importam.

      A ideia de que existem críticas objetivas é um disparate. Como uma crítica não é uma cópia do objeto criticado, a mera escolha dos aspetos a referir ou a omitir é inerentemente subjetiva, porque depende de uma avaliação subjetiva da importância de cada um deles. Por conseguinte, toda a conversa sobre objetividade ou subjetividade da crítica não faz sentido nenhum.

      Quanto ao resto, boa tentativa de salvar um conto que não tem salvação possível. Se é pastiche, está desastroso, se é tentativa de fazer com que a coisa seja escrita por um propagandista do regime é um rotundo falhanço. Em suma: uma bosta.

      Por fim, dizer que um conto é uma bosta é muito diferente de dizer que o autor é uma besta. Só é ataque ad hominem para quem não percebe a diferença inteiramente básica entre obra e autor. Olha que é coisa BEM básica, Luís. Conhecemos todos, certamente, excelentes pessoas que não são capazes de escrever duas linhas legíveis, tal como conhecemos gigantescos crápulas capazes da arte mais sublime. E eu falei única e exclusivamente DO CONTO. O único ataque ad hominem que aqui existiu, portanto, foi o do teu amiguito, que pura e simplesmente não sabe conversar noutros moldes, ao qual eu dei depois a resposta adequada. Resposta única e definitiva, porque se há coisa que me desagrada é chafurdar em certo tipo de lixo. A partir daí, ele que regurgite o que quiser. Não quero saber.

      Portanto não, esse parágrafo parvo com que rematas o texto não resume rigorosamente nada. Ah era piada?

      Eh pá, muito, muito fraquinha.

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    4. "E eu falei única e exclusivamente DO CONTO."

      À parte o tal aparte, bem entendido. Que também não tem nada de ad hominem.

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  2. Sem o tal "aparte" é que nem sequer há nada que efectivamente critiques... mas pronto, isto é apenas uma opinião, claro.

    Relativamente à objectividade na crítica e a sua relevância, permite-me apenas cometer a falácia da autoridade, coisa que adoro fazer: http://en.wikipedia.org/wiki/Varieties_of_criticism#Aesthetic_criticism

    Podes também ler sobre crítica de arquitectura, considerada a forma mais completa de crítica, por envolver arte, ciência e tecnologia. Em ciência é suposto só haver crítica objectiva; no entanto, todos os humanos são imperfeitos, e facilmente envolvem as suas preferências pessoais e subjectivas nas análises que fazem, e é por isso que existem editores para reverem os textos... e que é encorajada a «análise crítica» de trabalhos de outros autores!

    Devo entender que por achares que não existe crítica objectiva que achas que é um disparate falar de crítica objectiva; bom, devo-te dizer que há aqui dois pontos distintos a considerar. Uma é que não queres fazer crítica objectiva. Isso é o teu direito inalienável. Ninguém neste país pode ser obrigado a escrever da forma X ou Y; escreve como muito bem apetecer, e essa escolha, sim, é realmente inteiramente subjectiva (e assim deve ser). Mas o segundo ponto tem a ver com pura semântica. Para mim, «crítica subjectiva» são «opiniões» e nada mais. E não há mal nenhum em dar opiniões! Mas «opiniões» não são «crítica» — no sentido de uma crítica profissional, que era o que eu queria dizer. Penso que estás a usar a palavra no sentido mais lato e quotidiano do termo — «critico o que não gosto», por exemplo, que obviamente é puramente subjectivo — enquanto que eu estava a falar de crítica profissional. Seja como for, concordo que é muito difícil fazer crítica literária de forma objectiva, e que, ademais, está fora de moda: basta olhar para os bloggers americanos mais populares que têm sempre uma audiência quando a sua forma de «crítica» é feroz e insultuosa. Por isso se calhar sou obrigado a dar-te razão; talvez a arte de criticar objectivamente esteja extinta e eu é que sou velho...

    Relativamente ao resto que dizes, obviamente que tens razão. E estava apenas a dar uma sugestão do interesse que pode ter uma crítica objectiva: pode levar a uma discussão relevante em torno de tópicos importantes. Por exemplo, acho francamente interessante a discussão em torno da influência do ambiente sobre a personalidade dos indivíduos. Até há pouco tempo atrás penso que a posição dominante era a que tu defendes. Mas entretanto tenho lido uns artigos interessantes em que mostram, nalguns casos (não se pode generalizar!), onde a influência do ambiente sobre a personalidade é bem menor do que os comportamentalistas julgavam... mas divago. Não estava, de todo, a procurar sequer «salvar» o conto; apenas a sugerir linhas de crítica que mostraríam melhor porque é que o conto, no teu entender, não presta. Gostei mais do que escreveste aqui neste comentário: «Se é pastiche, está desastroso, se é tentativa de fazer com que a coisa seja escrita por um propagandista do regime é um rotundo falhanço.» É uma crítica muito melhor, e se até conseguires expôr porquê, então consideraria que estarias, de facto, a escrever crítica objectiva (mesmo chegando precisamente à mesma conclusão incontornável!).

    Agora, como disse, podes obviamente dizer que te estás nas tintas para a crítica objectiva e que dás as opiniões que queres — no que estás absoluta e totalmente correcto — e quem quiser que não leia. O que é ainda mais verdade. Do meu ponto de vista apenas acho que o papel do crítico é importante e deve ser valorizado. Não tenho interesse em «opiniões». Mas dou muita importância ao que os críticos dizem, e acho que o trabalho do crítico deve ser divulgado e promovido. Não menosprezo o trabalho do crítico. Mais uma vez: admito que isto seja um defeito profissional!

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    1. Mas quem foi que disse que o que aqui faço é crítica profissional?! Já me viram dizer algo que se pareça em algum lado, por acaso? De onde veio agora esse disparate? Eu normalmente nem chamo a isto críticas: quando lhes chamo alguma coisa costumo chamar-lhes resenhas.

      E não, não existe crítica objetiva, e o caso da ciência, onde ela não só devia ser objetiva como teria todas as condições para o ser (dado o rigor inerente aos processos científicos) é paradigmático. Até em ciência só se consegue crítica razoavelmente objetiva quando ela é feita por uma variedade de pessoas (o célebre peer-reviewing), e mesmo assim o processo falha com assustadora frequência. Se é uma pessoa só, o resultado inclui SEMPRE um elemento significativo de subjetividade. Portanto sempre que vejo alguém gabar-se de fazer crítica objetiva (ou a criticar outros por não a fazerem) a primeira coisa que me vem à cabeça é "aqui está mais um a tentar atribuir-se um valor que não tem", logo seguido de "ou isso ou não percebe MESMO o que anda a fazer". E perco imediatamente o interesse no que poderia ter a dizer.

      Portanto, não sendo isto crítica profissional, não QUERENDO isto ser crítica profissional, e não existindo, nem hoje nem nunca, crítica objetiva, sim, o que eu escrevo são opiniões, apenas opiniões e nada mais que opiniões. Assumidamente. Opiniões baseadas na minha experiência enquanto leitor, que obviamente é inerentemente subjetiva, e nos meus conhecimentos sobre uma série de coisas. Terá para quem gosta o valor de oferecer uma perspetiva única sobre as coisas, porque ninguém mais leu exatamente o que eu li e estudou o que eu estudei, formal ou informalmente. Para quem não gosta, não tem valor nenhum. Ainda bem. A ti não interessa? Não leias. Fosse tudo tão simples.

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  3. De resto, concordo absolutamente contigo que o meu sentido de humor não presta!

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  4. ... esqueci-me de mencionar que sim, claro que conheço imensas pessoas das quais não gosto pessoalmente, mas que adoro o que escrevem e a forma como escrevem, e que procuro, sempre que posso, lê-los e relê-los. O contrário é ainda mais verdade e bastante mais frequente!

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