segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Caro Eduardo Pitta

(Qualquer semelhança entre este título e os típicos títulos "chega-lhe-com-força" da Jonas não é coincidência nenhuma, nem pura nem impura)

Caro Eduardo Pitta,

Folgo em vê-lo descobrir, talvez finalmente, as delícias da leitura de Bradbury. É, de facto, um grande autor, coisa que nós que lemos ficção científica com regularidade e gosto já sabemos há muito tempo, e é ótimo que outras pessoas, geralmente mergulhadas num preconceito absurdo contra o género, vão tomando disso consciência.

Tenho pena, no entanto, de que tenha feito acompanhar a nota elogiosa com desinformação algo grotesca a respeito da edição de Bradbury em Portugal.

Costumo dizer que o Google é nosso amigo, embora neste caso nem o seja muito: a fama internacional de Bradbury e a consequente hiperabundância de referências que lhe foram sendo feitas, a sua morte recente, que também contribui para isso, o facto de o seu romance mais conhecido ter o mesmo título em português e em inglês, o facto de a sua coletânea mais conhecida ter o mesmo título em português e em espanhol, e por aí fora, geram uma certa cacofonia googliana que dificulta o encontro fácil entre pesquisador e informação.

No entanto, apesar disso, a afirmação de que "Bradbury não tem tido fortuna na edição portuguesa, estando embora traduzidos os dois ou três livros mais conhecidos" não tem desculpa. Já nem lhe faço notar que existe um site chamado Bibliowiki, cuja página dedicada ao autor lista não "os dois ou três livros mais conhecidos" mas 8 romances, duas coleções de contos interligados e 9 coletâneas. Não são "dois ou três" livros: são 19. Convenhamos que há uma diferençazinha, não é verdade? E isto mesmo estando incompleta: reparará que precisamente o livro de que fala não consta ainda da lista.

Mas, como disse, nem lhe faço notar isso, embora sempre o vá fazendo: é natural que quem não conheça previamente o Bibliowiki não dê com ele ao procurar por Bradbury no Google. Compreende-se e aceita-se.

Porém, alguém que está ligado profissionalmente à literatura tem toda a obrigação de conhecer o site da Biblioteca Nacional. E aí, meu caro Pitta, ao fazer uma pesquisa por Bradbury no catálogo encontra cerca de 50 registos. Cinquenta. O que mostra bem quão absurda é a sua afirmação e o quanto ela diminui a qualidade da crítica.

E é uma grande pena: devia haver muito mais críticas e críticos capazes de não se prender no rótulo "ficção científica" e analisar de facto e sem preconceitos a qualidade literária das coisas, tal como você apesar de tudo acabou por fazer.

Mas para a próxima informe-se melhor, amigo. É melhor para os seus leitores, para os autores de que fala e até mesmo para si.

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