sábado, 7 de fevereiro de 2015

Lido: D. Amélia

D. Amélia (bibliografia) é uma minipeça em dois atos, de Miguel Real, que mostra com plena clareza como é absurda a ideia de se fazer história alternativa em teatro, e muito em particular em teatro tão curto.

A questão é que uma história alternativa implica a transmissão ao leitor do universo alternativo em que se desenrola. Escritores hábeis fazem-no semeando a informação ao longo da história, entre descrições, divagações e diálogos que façam sentido. Escritores menos hábeis recorrem aos famigerados infodumps, despejando a informação em parágrafos de contextualização, mais ou menos longos. Escritores realmente desastrados fazem-no com a horrenda técnica do como-sabes-Bob, pondo as personagens a explicar detalhadamente umas às outras coisas que para elas, mergulhadas como estão na sua realidade própria, deveriam ser básicas e de conhecimento comum, mas que o leitor, por viver no mundo real, logo fora do universo ficcional, não sabe.

Ora, em teatro, salvo brevíssimas passagens que servem de orientação para os encenadores, só se dispõe de diálogos. Não existe outra forma de situar o leitor na história (ou o espetador, se a peça estiver a ser encenada) que não seja por intermédio dos diálogos. O como-sabes-Bob torna-se quase inevitável e isso por sua vez origina diálogos inverosímeis, quando não francamente ridículos, a menos que o dramaturgo seja dotado de um talento e perícia raros.

Não é, claramente, o caso de Miguel Real.

A minipeça tem só duas personagens, a D. Amélia do título, a rainha, e Teresa d'Aviz. Duas velhas nobres voluntariamente exiladas numa França prestes a ser mergulhada na II Guerra Mundial (sim, este texto cai na velha falha de ignorar a interligação dos acontecimentos — o que neste caso, tendo em conta as limitações do teatro, até me parece compreensível —, tratando a não implantação da república em Portugal como um factoide sem quaisquer consequências para as realidades políticas europeias do tempo... ou mesmo portuguesas, visto que Salazar é quem manda no país monárquico alternativo, como foi quem mandou no país republicano da história real). Duas velhas que divagam, entre chás, sobre a história de Portugal e a natureza do país e dos seus habitantes. E tudo em brevíssimas oito páginas. Páginas de teatro, entenda-se, cuja convenção é apresentar as falas separadas por linhas em branco.

Tendo tudo isto em conta, fácil se torna compreender como seria difícil algo assim dar bom resultado. Mas este é ainda pior do que seria de esperar, devido ao ar de tragédia de faca e alguidar que a coisa acaba por tomar e a uma imensa catadupa de lugares-comuns sobre a natureza de Portugal e dos portugueses, que dir-se-iam retirados diretamente das inenarráveis colunas de opinião do Vasco Pulido Valente.

Mas resumamos: será péssimo, este texto? Sim, é péssimo.

Contos anteriores deste livro:

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