quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Lido: Egnaro

Egnaro (bibliografia) é um conto de fantasia de M. John Harrison, muito bem escrito, muito bem concebido, sobre uma espécie de lugar intersticial que como que existe oculto entre as malhas do tecido da realidade e ao qual só algumas pessoas têm acesso. Egnaro, assim se chama esse lugar, que nunca chegamos propriamente a ver (a menos que a história que aqui se conta nos leve a vê-lo... levará?) mas do qual vamos ouvindo falar ao longo de toda a história.

De certa forma, trata-se de um exercício metaliterário, sobre os lugares inexistentes que só existem nas histórias que lemos e que tão reais, tantas vezes, se tornam para nós, leitores. Uma reflexão sobre como a literatura transmite de pessoa em pessoa a ideia desses lugares, como se se tratasse de um qualquer contágio infeccioso, sobre como tantos são os que neles se refugiam das insuficiências e insatisfações deste mundo palpável a que gostamos de chamar realidade.

M. John Harrison fá-lo recorrendo à história de um homem, negociante falhado, de momento dono de uma peculiar livraria cujas contas são feitas pelo narrador (em primeira pessoa), o qual, por sua vez, nos é apresentado com alguém que também vive uma existência algo precária. Duas pessoas solitárias, portanto, sem raízes que se vejam, algo marginalizadas, presas no contraste entre antigos sonhos e as realidades deprimentes dos respetivos presentes. Duas pessoas prontas para mergulhar em Egnaro e, quem sabe?, talvez não regressar.

Este é um conto muito bom, de uma fantasia que quase se aproxima, pela sua ambiência e até pela abordagem literária e pela poesia que joga às escondidas nestas páginas, de um certo tipo de realismo mágico, ainda que mais europeu do que latinoamericano. Seja como for, literatura de primeira água.

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