terça-feira, 24 de março de 2015

Lido: Brancos Estúpidos

Brancos Estúpidos, de subtítulo e Outras Desculpas Esfarrapadas para o Estado da Nação, é um livro de Michael Moore (exato, o cineasta, o tipo que fez Bowling for Columbine e outros documentários igualmente incisivos) na qual é implacavelmente dissecado o estado da América que levou à muitíssimo controversa eleição de George W. Bush, depois de perder o voto popular para Al Gore. Foi assumidamente a fúria sentida por Moore por aquilo que considera ter sido uma fraude eleitoral de grande escala, um autêntico golpe de estado que terá posto em causa a própria democracia americana, que o levou a escrever este livro, e nele essa eleição é central, embora não esteja a ela limitado.

O livro não é, nem pretende ser, uma análise imparcial do estado da América. É, como aliás é apanágio de Moore, um relato opinativo, por vezes até um pouco demagógico, muito embora quase todas as afirmações que Moore nele faz estejam sustentadas por dados ou por artigos saídos na imprensa. E é precisamente por isso que é tão arrasador.

Também não é um livro muito focado num tema específico. Moore preocupou-se mais em falar daquilo que lhe pareceu mais importante para explicar a ascensão e a filosofia da direita americana do tempo, direta antecessora do tenebroso Tea Party que conhecemos hoje, e explanar as consequências que vê nessa ascensão, prevenir os seus leitores para o ponto até onde essa direita está preparada para ir, do que em ser particularmente organizado ou sistemático. Os episódios, as historietas, as interligações entre um facto e outro sucedem-se numa espécie de caos vagamente organizado que, no entanto, acaba por fazer todo o sentido, intercalados por exercícios de sarcasmo, como um que ficou famoso, intitulado "Uma Oração para Atormentar os Que Vivem com Conforto."

Poucas feridas passam sem que Moore nelas espete um dedo. Ou vários.

As falhas e insuficiências da democracia americana são, claro, o alvo principal, mas Moore fala de sexismo, racismo, xenofobia relativa a comunidades de imigrantes, os media e a estupidez de que eles se alimentam e promovem, o anti-cientificismo e anti-intelectualismo, e por aí fora.

É um livro datado? Sim, em certa medida é; afinal de contas foi lançado em 2001 e 2001 foi há já 14 anos. Sim, o tempo voa mesmo. Mas a verdade é que muito daquilo por que estamos a passar hoje, com a crise financeira que fez estoirar as dívidas soberanas, com o florescimento de um conservadorismo extremo e asqueroso, tanto nos EUA como na Europa, que tantas vezes traz à memória ecos tenebrosos de um passado que devia estar morto, enterrado e coberto com cal-viva, têm sólidas raízes em gente, factos e atitudes que Moore aqui descreve à sua maneira colorida.

Não é um livro sisudo para sisudos historiadores. Na verdade, creio que não serão muitos os historiadores capazes de ler isto sem sentirem desconforto na sua costela académica. É, sim, um livro cujo objetivo foi ter impacto junto do público em geral e que foi nisso tão bem sucedido que ainda hoje continua a tê-lo.

Eu, que não sou nem sisudo nem historiador, e que além disso conhecia a história mas não todas as histórias que Moore aqui conta, gostei bastante deste livro. Também me assustei com ele.

Era mesmo essa a ideia, suspeito.

Este livro veio da biblioteca dos pais, mas de certeza que foi comprado.

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