quinta-feira, 2 de abril de 2015

Lido: Como Fazer Sucesso e Subir na Vida

Como Fazer Sucesso e Subir na Vida (bibliografia) é uma longa noveleta de Maria de Menezes, de algo de semelhante a ficção científica, sobre um funcionário de alto nível do governo português (ou melhor, port-uguês) que concebe e põe em prática um mirabolante plano para, precisamente, fazer sucesso e subir na vida.

Escrito em forma de diário e na primeira pessoa, a noveleta é satírica e pretende, não fazer boa ficção científica, mas sobretudo gozar com as altas figurinhas do Estado, coisa que é tão comum nas letras portuguesas que até eu tenho de me confessar culpado de já ter feito o mesmo. A história ambienta-se quatrocentos anos num futuro bastante mal caracterizado, que seria igualzinho ao presente se não fossem algumas engenhocas futurísticas e uma muito gratuita (e francamente irritante) hifenização de meia dúzia de palavras aparentemente aleatórias, embora usadas com frequência ao longo do texto. Ele é Port-ugal, ele é junh-o, ele é univ-ersidade, ele é hist-ória, por aí fora. Porquê? Para quê? Mistério.

(Mistério, sim, apesar da sarcástica referência ao "49º Acordo Ortográfico". Compreender-se-ia se esta tolice viesse acompanhada por alguma espécie de inovação linguística. Mas não, nada. O texto é linguisticamente banal, ou mesmo conservador, limitando-se o seu "futurismo linguístico" a hífenes distribuídos ao calhas. Mais valia que tivesse mantido uma banalidade completa, francamente.)

Apesar disso, a história propriamente dita tem algum interesse. O protagonista, Ze Dassilva, é um ressabiado que não suporta a supina incompetência arrogante do seu direto superior hierárquico, um muito aristocrático "Lançarote Alb-uquerque." E por isso, quando o governo encarrega o seu departamento de preparar as comemorações do quarto centenário da entrada de Portugal para a CEE e os mil anos da Batalha de Aljubarrota, e fica sabendo que vem provisoriamente até ao país um aparelhómetro sofisticado, emprestado pelos americanos, que permite viajar no tempo, concebe um plano. E põe-no em prática.

Não direi que plano é nem o que daqui sai, embora pelo título do livro de que esta história faz parte já dê para suspeitar. Digo só que quando finalmente a história engrena, o que leva tempo a acontecer, ela se torna interessante e até vagamente divertida, embora até aí seja um bom bocado aborrecida. O suficiente para, no cômputo final, a noveleta atingir um nível razoável.

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