sábado, 4 de abril de 2015

Lido: O Turno da Noite

O Turno da Noite (bibliografia) é uma noveleta de João Barreiros, de um misto de ficção científica e horror, que segue um turno de trabalho de um revisor de caminho de ferro. Mas não de algum caminho de ferro que conheçamos, pois estamos em plena realidade paralela, num outro ano 2000, bem diferente daquele por que passámos há 15 anos. A linha em que José Silvério — assim se chama o protagonista — trabalha é a Trans-sub-Tejo, uma linha de metro escavada num longo túnel por baixo do Mar da Palha, ligando a margem norte e a margem sul de uma outra Grande Lisboa.

Para quem conheça bem a obra de Barreiros, há muito nesta história que é reconhecível. Na verdade, se crítica se pode fazer com propriedade ao autor é repetir com frequência o mesmo tipo de personagem e de circunstâncias, embora em cenários distintos. Aqui, Silvério é um vencido da vida, mais um, uma vítima das circunstâncias, um homem que procura adaptar-se o melhor que lhe é possível a uma maré irresistível de entropia que o arrasta e submerge. E a história é a história desse arrastamento e submersão, da forma como Silvério lida com o inevitável. Da forma como ele estrebucha, tantas vezes mais por vontade do que por atos, contra um universo que conspira para o derrotar.

Já lemos esta história em outras tantas histórias de Barreiros. Mas a grande vantagem que esta repetição tem é criar condições para o apuramento, para já saber de trás para a frente com que ingredientes e cozedura há que executar a receita. Barreiros pode escrever muitas vezes a mesma história, mas a verdade é que a escreve muitíssimo bem. Mais comboio, menos comboio, mais Lisboa alterada, menos Lisboa alterada, mais fantasmas, menos fantasmas, a história costuma sair eficaz, ritmada, bastante bem escrita e interessante. Boa, portanto.

E esta não é exceção.

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