domingo, 24 de maio de 2015

Lido: William Wilson

William Wilson (bibliografia) é uma noveleta de horror de Edgar Allan Poe que conta na primeira pessoa a história de um homem dissoluto, chamado, pelo menos para efeitos desta narrativa, William Wilson (Poe faz aqui uma variante habilidosa e bastante inteligente ao cliché novecentista de usar iniciais para, alegadamente, proteger a identidade das damas e cavalheiros sobre os quais versa a história, assumindo um pseudónimo para o seu narrador-protagonista). Rico, o nosso "Wilson" tem uma juventude boémia, passada nos círculos mais hedonistas da alta sociedade universitária, até que conhece um outro jovem que com ele coincide de uma longa série de maneiras, das quais a primeira é o nome: também se chama (ou não) William Wilson.

Não é possível falar muito mais sem fazer revelações sobre o enredo com impacto no desfecho, portanto os alérgicos a elas deverão parar por aqui. Adeusinho e até à próxima. Voltem sempre.

Esta é uma magnífica história sobre a consciência. Wilson, o original, descreve resumidamente a sua queda, atribuindo ao Wilson, o outro, todas as culpas por ela. Wilson, o outro, é mostrado a persegui-lo, a sabotá-lo de todas as formas possíveis e imaginárias, revelando-lhe as batotas, as desonestidades, as aldrabices. O narrador tenta fugir-lhe, mas nem no estrangeiro, nas várias capitais europeias em que se exila, se consegue ver livre dele, enchendo-o de um terror crescente a cada aparição. E o leitor, se não tinha compreendido ainda, depressa compreende. Wilson, o outro, o duplo, não é mais do que uma faceta de Wilson, o original, o único.

O duplo é a consciência. O escrúpulo, que tantas vezes parece faltar ao homem que narra a história, assumindo-se criminoso. E é essa, e a forma como esse facto nos vai sendo revelado, aos poucos, subtilmente, as grandes qualidades deste conto. Muito bom.

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