terça-feira, 25 de agosto de 2015

Lido: Passaporte para a Eternidade

Passaporte para a Eternidade (bibliografia) é um conto de ficção científica de J. G. Ballard onde se misturam num todo nem sempre tão harmonioso como talvez fosse desejável coisas muito boas com coisas mazinhas. O ambiente é de futuro longínquo, no qual não só as viagens entre as estrelas são corriqueiras e fáceis, como a humanidade tem colonizado tudo e umas botas. Mas é um futuro longínquo antiquado, talvez mais do que seria de esperar de um conto de 1962, não só no que toca à ciência como no que diz respeito às relações sociais. Há aqui uma misoginia, por exemplo, que não me parece que seja só do protagonista (que, sim, é altamente misógino). E isso é importante na história, que descreve basicamente a forma como um marido tenta escapar-se à opção de férias escolhida pela mulher (uma opção "de gaja", portanto sem interesse nenhum), investigando que alternativas existem. É aqui que aparece a parte boa, pois Ballard usa essas alternativas de excursões turísticas futurísticas para atirar com fortíssimas e muito irónicas ferroadas a uma série de atitudes e instituições do mundo real, muito em particular a instituição militar.

Lê-se (bem, talvez nem todos leiam; eu li) este conto com uma estranha mistura de divertimento e incómodo, temperado aqui e ali com umas pitadinhas de exasperação. Não creio que alguma vez tenha sido um conto realmente superior, ao contrário de outros do autor. Hoje, está ultrapassado na maior parte dos pormenores mas, infelizmente, não em todos. Muita da crítica que Ballard faz mantém-se totalmente válida, para mal dos nossos pecados. E é isso o que o mantém de pé. Periclitante, apoiado numa bengalinha, mas de pé.

Contos anteriores deste livro:

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