domingo, 23 de agosto de 2015

Lido: A Rainha

A Rainha (bibliografia) é uma interessante noveleta de Paulo Vicente Pedroso sobre um cientista mais que meio louco que patrulha o Mar da Palha, nas zonas lodosas da margem sul do Tejo, na esperança de capturar e estudar uma gigantesca enguia elétrica que, segundo as histórias, aí habita. É essa a rainha a que o título se refere; a rainha dos peixes, a rainha do rio, quiçá.

Mas o que encontra, pelo menos a princípio, são dois miúdos, órfãos e estranhos, habituados a cuidar de si mesmos, contra ventos e marés. E acolhe-os, a contragosto, enquanto vai congeminando formas de se servir deles.

É uma premissa curiosa, que dá uma história com o seu interesse e poderia resultar numa muito boa. No entanto, não resulta. Esta história de Pedroso é prejudicada por uma prosa com demasiadas falhas, tanto estilísticas como em questões menos óbvias, como o ritmo ou a forma de caracterizar as personagens, o que faz com que acabe por não ser mais que razoável. Porquê? Eis um exemplo, escolhido perfeitamente ao calhas, abrindo o livro e selecionando a frase em que os olhos caíram, que por isso não é a melhor frase do texto mas também está longe de ser a pior:
"Isso era tudo o que o homem não precisava. Duas crianças a importuná-lo mas mesmo assim perguntou:"
Percebem o que está aqui mal? Existe uma sequência lógica entre a primeira frase e o princípio da segunda que é mais forte do que entre o princípio e o fim desta. Não funciona. Estas duas frases já ficariam mais agradáveis à leitura com uma mera alteração na pontuação. Assim:
"Isso era tudo o que o homem não precisava: duas crianças a importuná-lo. Mas mesmo assim perguntou:"
Mas melhor seria fazer mais umas alterações. Por exemplo:
"Duas crianças a importuná-lo. Era mesmo disso que não precisava. Mesmo assim, perguntou:"
É pena. A ideia do conto poderia resultar num texto realmente forte, mas por causa deste tipo de coisa fica aquém.

Contos anteriores deste livro:

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